Soja poderia passar de 110 sacas por hectare; pesquisa revela onde estão ficando as sacas

Pesquisas que analisaram diferentes regiões produtoras mostram um enorme espaço entre aquilo que a soja pode produzir e o que efetivamente chega à colheita. Água explica parte da diferença, mas manejo, nutrição, doenças, época de semeadura e outras decisões tomadas dentro da porteira ajudam a revelar onde estão ficando algumas das sacas que poderiam aumentar a produtividade brasileira.

O Brasil se tornou uma potência mundial da soja produzindo cada vez mais, mas existe uma segunda fronteira de crescimento que não depende necessariamente de incorporar novos hectares. Ela está dentro das próprias lavouras. Um amplo estudo sobre a produtividade da soja brasileira estimou potencial médio de 6,66 toneladas por hectare, equivalente a aproximadamente 111 sacas de 60 quilos por hectare. A produtividade efetivamente obtida considerada pelos pesquisadores ficou em 3 toneladas, ou 50 sacas.

Em outras palavras, a produtividade real representou menos de 50% do potencial estimado pelo modelo. A diferença média chegou a aproximadamente 3,66 toneladas por hectare — cerca de 61 sacas por hectare entre o potencial teórico e aquilo que efetivamente foi produzido.

Isso não significa, porém, que todo produtor brasileiro poderia simplesmente colher outras 61 sacas por hectare na próxima safra. O chamado yield gap, ou lacuna de produtividade, é a diferença entre a produtividade observada e diferentes níveis de produtividade potencial calculados considerando ambiente, clima, disponibilidade de água e manejo. Parte desse potencial é limitada por condições que o agricultor não consegue controlar completamente.

Ainda assim, os números ajudam a dimensionar uma pergunta cada vez mais importante para a agricultura brasileira: quanto da próxima expansão da produção de soja poderá vir não de novas áreas, mas das sacas que hoje deixam de ser produzidas nos hectares que já cultivamos?

O potencial supera 110 sacas por hectare

O trabalho científico, publicado no Journal of Environmental Quality por pesquisadores ligados, entre outras instituições, à Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), avaliou as cinco macrorregiões sojícolas brasileiras.

Na média nacional, os pesquisadores encontraram três números fundamentais:

  • Produtividade potencial: 6,66 t/ha — aproximadamente 111 sc/ha.
  • Produtividade limitada pela disponibilidade de água: 5,47 t/ha — aproximadamente 91 sc/ha.
  • Produtividade real média: 3,00 t/ha — aproximadamente 50 sc/ha.

A diferença total entre o potencial e a produtividade real, portanto, ficou próxima de 55%.

Mas talvez a informação mais importante apareça quando os pesquisadores procuram explicar essa distância.

Nem todas as sacas ficam pelo caminho por causa da seca

A análise estimou uma lacuna média relacionada à água de aproximadamente 1,20 tonelada por hectare, equivalente a cerca de 20 sacas. Já a diferença associada ao manejo agrícola subótimo alcançou 2,46 toneladas por hectare, ou aproximadamente 41 sacas.

Os números não devem ser interpretados como uma receita universal para cada propriedade. O peso de cada fator muda consideravelmente entre as regiões brasileiras.

No Sul, por exemplo, as limitações hídricas tiveram influência muito maior. Já no Centro-Oeste, a pesquisa encontrou relativamente pouca perda relacionada à água e uma participação muito mais expressiva do manejo na lacuna de produtividade.

Isso ajuda a explicar por que propriedades submetidas a condições climáticas semelhantes podem terminar a safra com resultados bastante diferentes.

Pesquisa entrou em 92 lavouras e encontrou outra surpresa

Um trabalho apresentado no Congresso Brasileiro de Soja de 2025 acrescenta uma informação particularmente interessante à discussão.

Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Crops Team analisaram 92 lavouras comerciais distribuídas por 14 estados brasileiros na safra 2023/24. O objetivo era identificar as principais restrições à produtividade e comparar aquilo que os agricultores acreditavam estar causando perdas com aquilo que os dados indicavam.

Primeiro, os produtores foram questionados.

Na percepção deles, os principais fatores responsáveis pela lacuna de produtividade seriam época de semeadura, escolha da cultivar e nutrição.

Quando os pesquisadores analisaram os dados das propriedades, entretanto, a ordem mudou.

A nutrição apareceu como o principal fator relacionado à perda de produtividade, seguida por doenças fúngicas e inseticidas.

É uma diferença importante porque mostra que a causa percebida dentro da propriedade nem sempre coincide com aquilo que uma análise mais ampla dos dados identifica como principal limitação.

É possível recuperar parte dessa diferença com manejo

Essa conclusão não aparece isoladamente.

Outro estudo, desta vez baseado em 853 lavouras do Rio Grande do Sul ao longo de quatro safras, estimou uma lacuna de aproximadamente 2.432 kg/ha que poderia ser reduzida por ajustes relacionados ao manejo, ambiente e genética.

Isso representa mais de 40 sacas por hectare.

Entre os pontos identificados estavam escolha da cultivar, época de semeadura, pH do solo, adubação com fósforo e potássio, plantio direto e rotação de culturas.

Os pesquisadores também calcularam que a evolução anual da produtividade da soja no Sul estava relacionada em 44% às melhorias de manejo, 42% ao melhoramento genético e 14% às mudanças climáticas observadas no período analisado.

Outro trabalho realizado no ambiente subtropical brasileiro encontrou perdas relacionadas ao manejo variando de 9% a 39% do potencial produtivo, sendo a época de semeadura apontada como o principal fator de manejo.

O relógio começa a correr no plantio

A época de semeadura aparece repetidamente nas pesquisas porque uma decisão aparentemente simples altera a quantidade de radiação solar, temperatura e disponibilidade hídrica que a planta encontrará ao longo do ciclo.

O estudo nacional mais recente identificou redução do potencial produtivo com o atraso da semeadura em todas as macrorregiões avaliadas, embora a intensidade da perda varie de acordo com o ambiente.

Isso significa que uma lavoura pode começar a perder parte de seu teto produtivo antes mesmo de enfrentar uma doença, ataque de pragas ou deficiência nutricional mais evidente.

Cultivar inadequada para o ambiente, janela de plantio desfavorável, fertilidade insuficiente, problemas de solo, falhas no estabelecimento, doenças e estresses hídricos vão se acumulando ao longo do ciclo. Individualmente, algumas perdas podem parecer pequenas. Somadas, ajudam a construir uma diferença de dezenas de sacas.

Uma discussão que começou há mais de uma década

A existência dessa lacuna não é uma descoberta isolada de uma única pesquisa.

Um estudo clássico publicado em 2015 por pesquisadores da Esalq/USP, Embrapa e instituições internacionais já havia analisado 15 localidades produtoras brasileiras e concluído que déficit hídrico e manejo eram componentes fundamentais do yield gap da soja no País.

Posteriormente, uma pesquisa desenvolvida na Esalq/USP estimou eficiência agrícola média de 50% para as zonas agroclimáticas analisadas. O trabalho calculou produtividade potencial média de 5.441 kg/ha e uma lacuna de produtividade de 3.092 kg/ha.

Pesquisas posteriores continuaram encontrando diferenças expressivas, mas também mostraram algo fundamental: não existe uma única causa para as sacas que deixam de ser produzidas.

A próxima fronteira da soja pode estar dentro da própria lavoura

Os resultados mudam a maneira de olhar para o crescimento da agricultura brasileira.

Durante décadas, aumento de produção esteve fortemente associado à combinação de expansão de área e avanço da produtividade. A pesquisa sobre lacunas produtivas mostra que existe uma terceira discussão ganhando importância: aproximar as lavouras comerciais do potencial que cada ambiente efetivamente permite alcançar.

Não significa perseguir 111 sacas por hectare indiscriminadamente. O potencial depende de localização, solo, cultivar, disponibilidade hídrica, época de semeadura e inúmeras outras variáveis.

Significa identificar, propriedade por propriedade, qual parcela da produtividade está sendo perdida por fatores inevitáveis e qual parcela ainda pode ser recuperada com decisões técnicas e economicamente viáveis.

E talvez esteja justamente aí uma das maiores oportunidades da soja brasileira.

O País já demonstrou que consegue produzir em escala continental. Agora, os dados sugerem que parte importante do próximo salto produtivo pode estar escondida nas dezenas de sacas que ainda separam muitas lavouras daquilo que seus próprios ambientes seriam capazes de entregar.

Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.

Siga o Compre Rural no Google News e acompanhe nossos destaques.
LEIA TAMBÉM