Área da Embrapa no Rio Grande do Sul vai reunir seis culturas e forrageiras para mostrar como terras baixas tradicionalmente ocupadas pelo arroz irrigado podem diversificar produção, renda e integração com a pecuária
Durante décadas, falar em terras baixas no Rio Grande do Sul significava pensar quase automaticamente em arroz irrigado. Agora, uma área experimental da Embrapa começa a mostrar que esses mesmos solos podem comportar sistemas produtivos muito mais diversificados.
Cerca de seis hectares da Estação Experimental Terras Baixas da Embrapa Clima Temperado, em Capão do Leão (RS), serão cultivados com arroz, soja, milho, girassol, sorgo e espécies forrageiras. A proposta é demonstrar, na prática, como diferentes culturas podem entrar em rotação em áreas historicamente dedicadas ao cereal.
A iniciativa não significa abandonar o arroz. O objetivo é justamente inseri-lo em um sistema mais amplo, capaz de diversificar a renda, reduzir riscos produtivos e econômicos e melhorar o aproveitamento da terra ao longo dos anos.
A área funcionará como vitrine tecnológica durante a Abertura Oficial da Colheita do Arroz de 2027, prevista para 16 a 18 de fevereiro, em Capão do Leão.
Soja, milho e outras culturas avançam sobre as terras baixas
A soja já abriu caminho para essa transformação no Rio Grande do Sul. Com mercado consolidado e boa adaptação aos sistemas de rotação, a oleaginosa passou a ocupar áreas que anteriormente permaneciam concentradas no arroz.
Mas cultivar soja, milho ou girassol em uma antiga área de arroz exige muito mais do que trocar a semente.
As terras baixas apresentam relevo predominantemente plano e solos com maior dificuldade de drenagem, características favoráveis ao arroz irrigado, mas potencialmente problemáticas para outras culturas.
Soja e milho, por exemplo, podem sofrer perdas quando as raízes permanecem por muito tempo em solos encharcados.
Por isso, o controle da água passa a ser uma das principais decisões dentro desses sistemas.
Drenagem vira peça-chave para a produtividade
Quando os poros do solo ficam ocupados pela água por períodos prolongados, diminui a disponibilidade de oxigênio para as raízes. O problema pode limitar o desenvolvimento das plantas e reduzir a absorção de nutrientes.
Nas áreas destinadas à diversificação, tecnologias como drenagem superficial, nivelamento e sistemas de sulco-camalhão ganham importância.
No milho, o cuidado precisa ser ainda maior. A cultura é sensível ao excesso de água e pode apresentar rápida redução no desenvolvimento quando submetida ao encharcamento.
Ao mesmo tempo, uma característica aparentemente contraditória também precisa ser considerada: terras baixas podem sofrer com falta de água.
Após períodos secos e temperaturas elevadas, culturas como soja e milho podem enfrentar déficit hídrico justamente em momentos decisivos para a produtividade.
Estrutura do arroz pode virar vantagem
Nesse cenário, parte da infraestrutura já presente nas propriedades arrozeiras pode ganhar uma nova função.
Canais, reservatórios e sistemas de bombeamento originalmente utilizados no arroz podem ser adaptados para irrigar outras culturas em períodos críticos.
O produtor passa, portanto, a administrar a água em duas direções: retirar rapidamente o excesso após chuvas intensas e fornecê-la quando houver déficit.
Essa capacidade pode transformar áreas consideradas restritivas para determinadas culturas em sistemas agrícolas muito mais flexíveis.
Girassol e sorgo ampliam opções ao produtor
Além de arroz, soja e milho, a área experimental terá girassol e sorgo, culturas ainda menos presentes nas terras baixas gaúchas.
O sorgo pode ser destinado à produção de grãos, silagem, forragem ou cobertura de solo, dependendo do planejamento da propriedade.
Já o girassol acrescenta uma espécie diferente à rotação e pode atender mercados específicos.
Na prática, isso amplia a decisão do produtor. Em vez de escolher apenas entre arroz ou soja, torna-se possível construir sequências de cultivo diferentes de acordo com solo, clima, mercado e infraestrutura disponível.
Pecuária também entra no sistema
A presença de espécies forrageiras adiciona outra dimensão à diversificação.
A integração entre arroz e pecuária já ocorre há décadas em propriedades gaúchas, mas sistemas planejados de integração lavoura-pecuária podem ampliar o aproveitamento da área.
Pastagens podem ocupar janelas entre cultivos agrícolas, permitindo transformar biomassa vegetal em produção animal.
Ao mesmo tempo, raízes e palhada contribuem para a cobertura e o funcionamento do solo.
O resultado é a possibilidade de manter a terra produtiva por períodos maiores do ano.
Rotação ajuda a enfrentar problemas do arroz
A diversificação também tem razões agronômicas.
Cultivar repetidamente a mesma espécie favorece a seleção de plantas daninhas, doenças e outros problemas adaptados àquele ambiente produtivo.
No arroz irrigado, um dos principais desafios históricos é o arroz-daninho, que compete diretamente com a lavoura e pode provocar perdas importantes.
A introdução de outras culturas permite utilizar estratégias diferentes de manejo e ajuda a interromper determinados ciclos de plantas daninhas, pragas e doenças.
A rotação não elimina esses problemas, mas torna o ambiente agrícola menos repetitivo.
Pressão econômica reforça busca por alternativas
A mudança também está ligada à rentabilidade das propriedades.
A produção de arroz irrigado exige investimentos elevados em irrigação, energia, máquinas e manejo. Quando os preços pagos ao produtor recuam, a margem pode sofrer rapidamente.
Uma propriedade excessivamente dependente de uma única cultura também fica mais exposta às oscilações daquele mercado.
Com soja, milho, sorgo, girassol, forrageiras e pecuária dentro do planejamento, parte desse risco pode ser distribuída.
Um cenário desfavorável para o arroz, por exemplo, não necessariamente terá o mesmo impacto sobre todas as outras atividades.
Nem toda área de arroz poderá receber outra cultura
A diversificação, porém, não significa que qualquer hectare de arroz esteja pronto para receber soja ou milho.
As condições podem mudar significativamente dentro de uma mesma propriedade.
Textura do solo, microrelevo, capacidade de drenagem, infraestrutura de irrigação, máquinas disponíveis e histórico de cada área precisam ser avaliados.
Em determinados talhões, o arroz continuará sendo a alternativa mais adequada. Em outros, a rotação pode ampliar significativamente o potencial econômico e produtivo.
Por isso, a decisão precisa ser realizada talhão por talhão.
O arroz permanece, mas dentro de um sistema mais diverso
A entrada de soja, milho e outras culturas em terras baixas pode transmitir a impressão de que o arroz está simplesmente perdendo espaço.
A proposta é diferente.
O arroz pode continuar como uma das principais culturas, mas inserido em ciclos que incluam soja, milho, sorgo, girassol, forrageiras e pecuária.
Em um ano, arroz. Em outro, soja. Depois, outra cultura adequada às condições daquela propriedade.
A lógica deixa de ser descobrir qual cultura produz mais dinheiro em apenas uma safra e passa a considerar quanto a mesma área consegue produzir com rentabilidade e sustentabilidade ao longo de vários anos.
Os seis hectares da área demonstrativa da Embrapa são pequenos diante da dimensão agrícola do Rio Grande do Sul, mas representam uma transformação importante.
As terras baixas continuam fortemente ligadas ao arroz irrigado. A diferença é que a pesquisa começa a mostrar, cada vez mais, que elas podem produzir muito mais do que arroz.
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