Sistema de previsão de geadas já evitou prejuízos de quase R$85 milhões

O objetivo é melhorar a navegação para que qualquer pessoa consiga mexer e entender as informações disponíveis em poucos cliques.

Nos dias de frio intenso, o fruticultor José Antônio Mariani, de Videira, no Meio Oeste de Santa Catarina, fica com um olho no pomar e outro no Sistema Online de Previsão de Geadas da Epagri. Ele sabe que, dependendo da probabilidade de ocorrência do fenômeno, é preciso correr para evitar que a geada acabe com sua produção de pêssego, nectarina e ameixa. “Teve um ano que chegamos a perder todas as frutas, não sobrou nada”, lembra o produtor. 

A plataforma de previsão de geadas foi lançada em 2009 pelo Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia (Epagri/Ciram) e já ajudou muitos produtores a salvar suas lavouras. A Empresa calcula que, desde 2021, quando lançou a última versão do sistema, a tecnologia já tenha evitado prejuízos de R$84,7 milhões em perdas agrícolas. Atualmente, ela beneficia 11.124 hectares de plantações. Os dados de impacto econômico da ferramenta estão disponíveis nos balanços sociais da Epagri. 

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A fruticultura é a maior beneficiada, com destaque para a banana, o maracujá e as frutas de clima temperado e de caroço, como pêssego e nectarina. Responsável pelo desenvolvimento da tecnologia, o pesquisador Carlos Eduardo Salles de Araújo, explica que o objetivo do sistema é alertar o produtor rural para a utilização de medidas de proteção aos cultivos. A formação de gelo na superfície do solo e das plantas pode dizimar lavouras, dependendo do tipo de plantio e do seu estágio. 

Alta confiabilidade 

O sistema traz a previsão de geada com antecedência de até cinco dias. Os usuários têm acesso a três mapas com probabilidade máxima, média e mínima de geada. A plataforma também informa a previsão de intensidade do fenômeno com base na temperatura da relva: geada (menor de 0ºC), geada moderada (menor que -2ºC) e geada forte (menor que -6ºC). As informações são calculadas a cada 3km², o que confere maior precisão à ferramenta, considerando que Santa Catarina tem um relevo bastante acidentado. 

Índice de acerto dos dois primeiros dias de previsão chega a 90% (Imagem: Divulgação/Epagri).

De acordo com Gilsânia de Souza Cruz, meteorologista da Epagri/Ciram, o sistema de previsão de geada chega a 90% de acerto em relação aos dois primeiros dias. “É claro que há sempre possibilidade de não ocorrer, afinal, quando fazemos previsão estamos usando equações matemáticas com entrada de dados que dão um prognóstico”, explica. Segundo Carlos Eduardo, para aumentar a confiabilidade, o sistema roda oito modelos distintos de previsão e disponibiliza a média, além das probabilidades mais baixas e mais altas de geada.  

Para ampliar e facilitar o acesso dos usuários ao Sistema de Previsão de Geadas, a Epagri está desenvolvendo um novo visual para a plataforma. O objetivo é melhorar a navegação para que qualquer pessoa consiga mexer e entender as informações disponíveis em poucos cliques. A nova versão também terá mais interatividade e será otimizada para uso em dispositivos móveis, especialmente no celular. A meta é que ela seja lançada até o início de 2027 para estar disponível no próximo inverno. 

Hora de agir

Com a previsão de geada, entra em cena uma série de medidas de combate ao fenômeno: cobertura de plantas com lona ou palha; ensacamento de frutas como cachos de bananeiras; antecipação de colheita, comum nas plantações de banana; e uso de sistemas de aspersão de água que congelam pomares quando o termômetro chega a 0°C. Essa última técnica é bastante difundida e protege frutas como pêssego e maçã da incidência de temperaturas negativas diretamente no tecido da fruta.

Nos pomares de frutas de clima temperado, produtores utilizam sistemas de aspersão de água para combater a geada (Foto: André Kulkamp/Epagri).

O fruticultor Mariani conta que amargou prejuízos quando ainda não tinha um sistema de controle de geada por aspersão de água. Hoje, quando há previsão, ele já começa a deixar tudo pronto para entrar em ação se a probabilidade se confirmar. Mariani não está sozinho. Ele faz parte do grupo de whatsapp “Controle de Geadas” de Videira, criado pelo extensionista rural Alceu Vicente durante a pandemia de Covid19. Atualmente, há 115 integrantes de olho nas probabilidades de formação de geada.   

No grupo, os extensionistas compartilham mapas do sistema de previsão da Epagri. Alceu conta que boa parte dos produtores rurais já acompanha as previsões diretamente na plataforma da Empresa. O grupo serve para reforçar o alerta e trocar informações para monitoramento. Sob vigília, muitos fruticultores enviam fotos dos termômetros que mantém nos pomares. Segundo Alceu, a previsão é só o ponto de partida, mas de suma importância para o produtor planejar as ações de combate. 

Ferramenta de gestão

O pesquisador Carlos Eduardo destaca que a previsão com antecipação de cinco dias é fundamental para o produtor se preparar. Ele cita como exemplo um bananicultor que precisa contratar mão de obra para ensacar os cachos de banana antes da ocorrência do fenômeno. “No caso de um fruticultor de maracujá, ele pode adiar o transplante das mudas do viveiro para o campo se souber que vai dar geada. Mas se ele tiver feito o plantio recentemente, pode deitar a muda e cobrir com terra para a geada não queimar”, explica o pesquisador. 

Confiabilidade do sistema de previsão de geadas ajuda produtor a tomar decisão mais acertadas, evitando despesas desnecessárias (Foto: Aires Mariga/Epagri).

Outro ponto importante é o fato de as medidas de combate à geada envolverem despesas relevantes com a contratação de mão de obra e insumos como água, diesel e energia elétrica, entre outros gastos. A previsão feita a partir de modelos mais precisos ajuda os produtores rurais a tomarem decisões mais acertadas, sem custos desnecessários. Na técnica de controle de geada por aspersão de água, os produtores ficam de prontidão para acionar o sistema antes da geada ocorrer. 

A evolução das tecnologias, tanto na previsão quanto no combate à geada, tem ainda outro ponto positivo. Ela permite que os produtores optem por cultivares precoces de frutas como pêssego. Em geral, essas variedades se destacam pela alta produtividade, porém, como produzem mais cedo, os riscos são maiores porque a geada pode afetar flores e frutos em formação. “Com o sistema de previsão e tecnologias de combate à geada, o produtor pode se arriscar mais e ter ganhos financeiros maiores”, afirma Alceu. 

O extensionista brinca que apesar do grupo de mensagens ter sido batizado de “Controle de Geadas”, ninguém controla o fenômeno, a geada vai se formar de qualquer jeito. A questão é o que se pode fazer com o alerta recebido: adotar técnicas para evitar danos. É por isso que o fruticultor José Mariani não perde uma notificação do grupo “Controle de Geadas”. Quem já sofreu os efeitos de uma geada sabe que uma boa safra depende de informação e planejamento. 

Por Cléia Schmitz, jornalista bolsista da Epagri/Fapesc

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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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