Secas mais severas, degradação das pastagens e eventos climáticos extremos reduzem a oferta de alimento aos animais e colocam sob pressão uma tradição pastoril que atravessa gerações na Mongólia.
A terra que sustenta a produção mundial de alimentos está perdendo capacidade produtiva em uma escala que deixou de ser apenas uma preocupação ambiental. Até 40% das terras do planeta já apresentam algum nível de degradação, segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), pressionando lavouras, pastagens, disponibilidade de água, renda rural e a segurança alimentar de bilhões de pessoas. É nesse cenário que representantes internacionais estão reunidos, neste mês de agosto, em uma das maiores discussões globais já realizadas sobre o futuro dos solos.
A 17ª Conferência das Partes da UNCCD, a COP17 da Desertificação, acontece entre 17 e 28 de agosto de 2026, em Ulaanbaatar, capital da Mongólia. O encontro reúne representantes das 197 Partes da Convenção, além de cientistas, produtores, comunidades tradicionais, povos indígenas, organizações internacionais e representantes do setor privado. O objetivo vai muito além de discutir o avanço físico dos desertos: envolve encontrar maneiras de impedir que terras atualmente produtivas percam fertilidade, água, cobertura vegetal e capacidade de sustentar a produção.
E existe uma razão para que a pecuária esteja particularmente presente nessa discussão. Mais da metade da superfície terrestre é formada por áreas de pastagem, que sustentam diretamente cerca de 500 milhões de pessoas e respondem por aproximadamente um sexto das necessidades nutricionais mundiais. Cerca de metade dessas áreas de pastagens é considerada degradada.
Desertificação não significa simplesmente que dunas de areia estão avançando sobre propriedades rurais. O processo pode começar de maneira muito menos evidente.
Perda de matéria orgânica, erosão, compactação, redução da cobertura vegetal, salinização, menor infiltração de água e queda da atividade biológica do solo podem diminuir gradativamente sua capacidade de produzir. Quando isso ocorre em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, a degradação pode evoluir para processos de desertificação.
Para quem produz, a consequência aparece na prática: uma área que antes sustentava determinada produtividade passa a exigir mais correção, fertilização, irrigação, suplementação ou recuperação para entregar o mesmo resultado.
Na pecuária, o mecanismo é semelhante. Uma pastagem degradada produz menos forragem, suporta menos animais e reage pior aos períodos de estiagem. Se a degradação continua, aumenta a dependência de suplementação e cresce o custo por arroba produzida.
É justamente por isso que a COP17 colocou a recuperação das pastagens entre os principais temas da agenda. A UNCCD relaciona a deterioração dessas áreas ao manejo insustentável, conversão da terra e mudanças climáticas, com consequências que ultrapassam a propriedade rural e alcançam pobreza, migração e segurança alimentar.
O país escolhido para receber a COP17 ajuda a dimensionar o que está em jogo.
Com aproximadamente 1,56 milhão de km², a Mongólia possui uma economia rural historicamente associada à criação extensiva e ao pastoralismo. Entretanto, quase 77% de seu território já é considerado degradado, segundo a UNCCD.
É uma situação especialmente sensível porque milhões de animais dependem das pastagens naturais e famílias inteiras mantêm um modo de vida diretamente ligado à disponibilidade de vegetação e água.
Quando uma sequência de estiagens reduz a produção de forragem e é seguida por um inverno extremamente rigoroso — fenômeno local conhecido como dzud — a perda de animais pode assumir proporções devastadoras.
A Mongólia, portanto, funciona como uma demonstração em escala real de uma equação que interessa também ao produtor brasileiro: quanto mais degradada está uma pastagem antes de um evento climático extremo, menor tende a ser a capacidade do sistema produtivo de absorver o choque.
Não se trata apenas de clima. Manejo das pastagens, pressão de pastejo, disponibilidade hídrica e capacidade de recuperação da vegetação determinam quanto uma propriedade consegue resistir quando a chuva falha.
A dimensão econômica também ajuda a explicar por que a desertificação ganhou espaço na agenda internacional.
A UNCCD estima que a degradação da terra possa provocar perdas de até US$ 900 bilhões por ano para a economia mundial. Ao mesmo tempo, secas mais frequentes e intensas atingem agricultura, abastecimento de água, geração de energia, transporte e cadeias internacionais de alimentos.
A discussão realizada na Mongólia, portanto, está migrando de uma pauta estritamente ambiental para uma questão de infraestrutura produtiva e segurança econômica.
A própria secretária-executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, resume essa mudança ao definir a terra como uma infraestrutura vital que sustenta alimentos, água, renda e estabilidade. A lógica é simples: quando o solo perde capacidade de produzir, diminui a renda das comunidades, cresce a competição por recursos e aumenta a pressão sobre outras regiões produtivas.
Embora a imagem mais associada à desertificação ainda seja a de países cobertos por grandes desertos, o Brasil possui extensas áreas vulneráveis ao mesmo processo.
Dados do Instituto Nacional do Semiárido (INSA) apontam que as Áreas Suscetíveis à Desertificação e seu entorno alcançam aproximadamente 1,514 milhão de km² e 1.649 municípios, o equivalente a cerca de 18% do território brasileiro. A área abrange principalmente o Semiárido nordestino, mas também alcança outras regiões do país.
Na Caatinga, a situação merece atenção especial. Segundo o INSA, 23,1% do bioma, aproximadamente 200 mil km², encontra-se em condição de degradação crítica ou severa. Nas áreas suscetíveis à desertificação, processos críticos e severos atingem 14,2% do território analisado, associados a erosão e redução de carbono, fósforo e nitrogênio dos solos.
Isso não significa que todo o Semiárido brasileiro esteja se transformando literalmente em deserto. Significa que determinadas áreas estão perdendo progressivamente funções essenciais para manter vegetação, armazenar água e sustentar atividades produtivas.
O próprio INSA aponta fatores que aumentam essa vulnerabilidade: desmatamento, práticas agrícolas sem manejo adequado, sobrepastoreio e irrigação mal conduzida, que pode provocar salinização dos solos.
Para o agronegócio brasileiro, talvez esse seja o ponto mais importante da discussão internacional.
Preservar ou recuperar a capacidade produtiva do solo não representa apenas uma agenda ambiental. É uma estratégia para proteger patrimônio e produtividade.
Na agricultura, práticas como cobertura permanente do solo, rotação de culturas, plantio direto bem manejado, controle da erosão, integração de sistemas produtivos e aumento da matéria orgânica podem ampliar a capacidade de infiltração e armazenamento de água e reduzir a vulnerabilidade durante períodos secos.
Na pecuária, recuperação e renovação de pastagens, ajuste da taxa de lotação, manejo rotacionado quando tecnicamente adequado, conservação do solo e integração lavoura-pecuária podem impedir que a pressão sobre a área ultrapasse sua capacidade de recuperação.
Há uma diferença importante entre produzir sobre o solo e produzir o solo. Sistemas agrícolas de longo prazo precisam fazer as duas coisas.
Quando a fertilidade física, química e biológica é preservada, a propriedade ganha capacidade de atravessar períodos adversos. Quando ela é consumida ano após ano, qualquer seca mais intensa encontra um sistema produtivo já fragilizado.
A conferência de Ulaanbaatar chega justamente ao ponto mais difícil dessa discussão: financiar a transformação.
A agenda oficial inclui recuperação de terras, resiliência às secas, água, sistemas alimentares, pastagens e mecanismos de financiamento. Nesta segunda semana da COP17, diálogos ministeriais discutem inclusive novas formas de financiar solos saudáveis e sistemas produtivos mais resistentes à seca.
O Brasil também participa da conferência e mantém um Pavilhão Brasil dedicado a temas como gestão sustentável da terra, restauração de ecossistemas, resiliência climática, convivência com o Semiárido, saúde do solo e sistemas alimentares.
Essa discussão interessa diretamente a um país que depende da terra para produzir alimentos, fibras, biocombustíveis e proteína animal em escala global.
O avanço da degradação não significa que grandes regiões agrícolas se tornarão desertos de uma hora para outra. O risco é mais gradual — e justamente por isso pode passar despercebido. Primeiro cai a cobertura vegetal. Depois piora a retenção de água, aumenta a erosão, cai a produtividade e sobe o custo para continuar produzindo.
Quando esse processo alcança níveis severos, recuperar a terra torna-se muito mais caro e, em determinadas situações, extremamente difícil.
A mensagem que emerge da Mongólia para o campo brasileiro é, portanto, essencialmente econômica: solo produtivo não é um recurso infinito. Ele é parte do capital da propriedade.
E, em um mundo no qual até 40% das terras já apresentam degradação, preservar a capacidade de produzir sobre cada hectare pode se tornar tão estratégico quanto ampliar a própria produção.
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