Durante palestra na Feicorte, em Presidente Prudente (SP), a nutricionista clínica Letícia Moreira criticou programas que retiram carne da merenda escolar, defendeu a carne bovina como um dos alimentos mais nutritivos da dieta humana
A alimentação baseada em proteína animal voltou ao centro do debate científico mundial. Nos Estados Unidos, discussões recentes sobre as diretrizes alimentares reacenderam o tema da importância dos alimentos de origem animal na dieta humana, enquanto no Brasil iniciativas como a “Segunda sem Carne” continuam dividindo opiniões.
Durante palestra na Feicorte, realizada em Presidente Prudente (SP), a nutricionista clínica Letícia Moreira, que atua há 22 anos na área, fez duras críticas às campanhas que incentivam a retirada da carne da alimentação, especialmente nas escolas públicas. Para ela, privar crianças da proteína animal justamente na fase de crescimento pode trazer consequências importantes ao desenvolvimento físico e cognitivo. “Para mim, fazer a segunda sem carne é um grande crime. A gente tem que evitar e cada vez mais falar sobre isso para que não tire a carne da alimentação das crianças” – dispara a nutricionista.
A declaração resume uma visão que vem ganhando espaço entre profissionais que defendem dietas com maior consumo de proteína animal, embora continue sendo alvo de intenso debate dentro da comunidade científica.

A carne voltou ao centro das discussões científicas
Durante a entrevista, Letícia afirmou que o início de 2026 marcou uma mudança importante no debate internacional sobre alimentação.
Segundo ela, cresce o reconhecimento de que alimentos naturais, especialmente carnes, merecem maior protagonismo nas recomendações nutricionais. “No começo deste ano tivemos uma mudança importante nas discussões sobre a pirâmide alimentar, colocando a carne e a comida de verdade na base da alimentação. Infelizmente isso ainda não foi incorporado no Brasil.”
Embora diversos pesquisadores defendam a redução do consumo de alimentos ultraprocessados e o incentivo ao consumo de alimentos minimamente processados, é importante destacar que o Guia Alimentar para a População Brasileira, elaborado pelo Ministério da Saúde, continua sendo a principal referência oficial no país e não estabelece a carne como base exclusiva da alimentação. O documento recomenda uma dieta variada, composta por alimentos in natura, incluindo carnes, frutas, verduras, legumes, cereais e leguminosas.
Ainda assim, nos últimos anos diversos estudos têm revisitado antigas hipóteses que associavam diretamente o consumo moderado de carne vermelha ao aumento do risco de doenças crônicas. Hoje existe consenso de que fatores como excesso de alimentos ultraprocessados, obesidade, sedentarismo, tabagismo e consumo excessivo de álcool exercem influência muito maior sobre esses riscos do que a simples presença de carne em uma alimentação equilibrada.
A crítica à “Segunda sem Carne”
O ponto mais enfático da entrevista foi a crítica aos programas que substituem a carne por refeições vegetarianas um dia por semana em escolas públicas.
Segundo Letícia, esse tipo de iniciativa acaba atingindo justamente crianças em situação de maior vulnerabilidade social. “As escolas que fazem a segunda sem carne são justamente escolas públicas, onde muitas crianças têm na merenda sua principal refeição do dia. Quando se tira um alimento extremamente nutritivo como a carne, aumentam os riscos de deficiência de nutrientes.”
A nutricionista citou pesquisas realizadas com crianças africanas que observaram melhora da cognição após a inclusão de pequenas quantidades diárias de carne na alimentação.
De fato, estudos conduzidos no Quênia identificaram melhora em indicadores cognitivos, crescimento físico e desempenho escolar em grupos de crianças que passaram a consumir pequenas porções de carne regularmente, quando comparados a grupos cuja suplementação ocorreu apenas com alimentos vegetais ou leite. Esses resultados são frequentemente utilizados para demonstrar o impacto da proteína animal em populações com elevada deficiência nutricional.
Entretanto, especialistas também ressaltam que dietas vegetarianas podem suprir as necessidades nutricionais quando cuidadosamente planejadas, especialmente com acompanhamento profissional. O principal ponto de consenso entre diferentes linhas da nutrição é que crianças precisam receber todos os nutrientes essenciais para seu desenvolvimento, independentemente da estratégia alimentar adotada.

Carne bovina: alimento de alta densidade nutricional
Outro ponto defendido por Letícia foi a superioridade nutricional da carne bovina em relação a outras fontes de proteína. “A carne bovina é a carne mais completa que temos. Ela fornece ferro de alta biodisponibilidade, vitamina B12, vitamina A e diversos outros nutrientes importantes. Em um simples bife existe uma enorme densidade nutricional” – destacou a nutricionista.
Sob o ponto de vista científico, a carne bovina realmente se destaca como uma das principais fontes naturais de:
- proteínas de alto valor biológico;
- ferro heme, cuja absorção pelo organismo é significativamente superior ao ferro presente em vegetais;
- vitamina B12, nutriente encontrado praticamente apenas em alimentos de origem animal;
- zinco;
- vitaminas do complexo B.
Já a afirmação de que a carne bovina seria “menos inflamatória” ou que dietas exclusivamente carnívoras promovem remissão de diversas doenças ainda não representa consenso científico. Embora existam relatos clínicos e estudos preliminares sugerindo benefícios em casos específicos, ainda faltam ensaios clínicos robustos e de longo prazo que permitam recomendar esse padrão alimentar para a população em geral.
O debate continua aberto
Para Letícia Moreira, o avanço das pesquisas tende a reforçar, nos próximos anos, a importância da proteína animal na alimentação humana. “Quando comecei esse trabalho há doze anos era muito mais difícil falar sobre isso. Hoje surgem cada vez mais estudos mostrando melhora significativa da saúde em pessoas que aumentam o consumo de proteína animal. Acho que aos poucos vamos conquistar esse espaço” – disse Letícia.
O tema, entretanto, permanece cercado por discussões entre diferentes correntes da nutrição. Enquanto alguns pesquisadores defendem maior protagonismo da carne na alimentação, outros enfatizam a importância do equilíbrio alimentar e da redução do consumo de produtos ultraprocessados como principal estratégia para promoção da saúde.
Independentemente da posição adotada, há um ponto praticamente consensual entre os especialistas: combater a desnutrição infantil e garantir acesso a alimentos de alta qualidade nutricional continua sendo um dos maiores desafios das políticas públicas de alimentação no Brasil.
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