Seca pode destruir metade da safra de milho de uma das maiores potências agrícolas da Europa

França enfrenta calor extremo, falta de chuva e solos cada vez mais secos; analistas já projetam produção abaixo de 7 milhões de toneladas, menor volume em 50 anos

A safra de milho da França, uma das principais forças agrícolas da Europa, corre o risco de sofrer uma quebra histórica em 2026. Após sucessivas ondas de calor e um período prolongado de seca, projeções privadas já apontam que a produção francesa pode cair para menos de 7 milhões de toneladas, praticamente metade do volume colhido no ano passado e o menor resultado desde 1976.

O cenário chama atenção pelo peso da agricultura francesa dentro da União Europeia. Em 2024, a França respondeu por 20,8% de todos os cereais produzidos no bloco, com 53,6 milhões de toneladas, segundo o Eurostat. Isso ajuda a explicar por que uma quebra expressiva no milho francês pode ultrapassar as fronteiras do país e aumentar a pressão sobre o abastecimento europeu.

Safra de milho pode ficar abaixo de 7 milhões de toneladas

A estimativa oficial do Ministério da Agricultura da França ainda é menos severa que as projeções do mercado. O governo calcula uma produção de aproximadamente 9 milhões de toneladas de milho em 2026, o que representaria queda de cerca de 35% em relação ao ano anterior.

As consultorias Expana e Argus, porém, avaliam que os danos avançaram a ponto de a safra de milho ficar abaixo de 7 milhões de toneladas. Caso a previsão se confirme, a França registraria sua menor produção desde 1976, ano também marcado por uma forte seca no continente europeu.

A diferença entre a estimativa oficial e as projeções mais pessimistas mostra como o cenário ainda está em evolução. O desempenho das lavouras nas próximas semanas, o volume efetivamente destinado à colheita de grãos e a situação das áreas irrigadas serão determinantes para o resultado final.

Calor atingiu milho em uma fase decisiva

O problema não está apenas na falta de chuva. As lavouras enfrentaram uma combinação de temperaturas excepcionalmente elevadas e baixa disponibilidade de água no solo, justamente durante fases importantes do desenvolvimento do milho.

O Centro Comum de Pesquisa da Comissão Europeia (JRC) informou, em seu monitoramento agrícola de julho, que ondas de calor repetidas e precipitações limitadas reduziram a umidade do solo em grandes áreas do oeste e centro da Europa. Para as culturas de primavera e verão, as previsões de produtividade foram revisadas para baixo, com cortes de 6% a 7% para milho em grão e girassol em relação às estimativas anteriores.

Na França, o JRC identificou impactos especialmente claros nas regiões ocidentais, onde o estresse térmico coincidiu com menor disponibilidade de água. As lavouras sem irrigação são as que enfrentam as maiores dificuldades.

Seca ameaça reduzir ainda mais a safra de milho

Outro fator pode diminuir a quantidade de milho que efetivamente chegará aos armazéns.

Com as pastagens prejudicadas pela seca, produtores começaram a avaliar o corte antecipado de áreas de milho para transformá-las em silagem e alimentação para os animais, em vez de esperar pela produção de grãos. A Argus e a Associação Geral dos Produtores de Milho da França (AGPM) estimam que essa mudança de finalidade pode retirar centenas de milhares de hectares da área destinada ao milho em grão.

Isso significa que mesmo plantas que conseguiram sobreviver ao calor podem não fazer parte da safra de milho comercializada como grão. A necessidade imediata de garantir alimento aos rebanhos adiciona, portanto, uma nova pressão sobre o volume final produzido.

A irrigação deve preservar parte das lavouras, mas não elimina o problema. Nas áreas dependentes exclusivamente das chuvas, parte das perdas já é considerada difícil de reverter.

Europa inteira sente os efeitos da falta de chuva

A crise francesa faz parte de um quadro mais amplo. Dados do Observatório Europeu da Seca, compilados pelo JRC, mostram deterioração das condições da vegetação em áreas da França, Europa Central, Hungria e oeste da Romênia. O déficit de precipitação também atingiu rios e reservatórios em diferentes regiões do continente.

A situação preocupa especialmente porque o milho é colhido mais tarde do que culturas como trigo e cevada, ficando exposto por mais tempo às condições extremas do verão europeu.

Na Alemanha, por exemplo, a associação de cooperativas agrícolas DRV prevê que a produção de milho em grão caia 14% em relação ao ano passado, para 4,24 milhões de toneladas.

Quebra da safra de milho pode elevar necessidade de importações

Antes mesmo de os danos mais recentes na França serem incorporados às contas, a Comissão Europeia havia reduzido sua projeção para a produção de milho da União Europeia na temporada 2026/27 para 51,9 milhões de toneladas, menor volume desde 2007.

Agora, analistas consultados pela Reuters avaliam que a colheita europeia pode ficar abaixo de 50 milhões de toneladas, patamar que não seria registrado desde a década de 1990. Uma produção menor tende a ampliar a dependência europeia de milho vindo de outros mercados.

O quadro também evidencia a importância da França. Além de possuir uma das maiores áreas agrícolas da União Europeia, o país está entre as economias com maior valor de produção agropecuária do bloco.

Polônia e Romênia podem aliviar parte das perdas

Nem todos os grandes produtores europeus estão na mesma situação. A Polônia pode assumir a liderança na produção de milho da União Europeia nesta temporada, com estimativas entre 8,7 milhões e 9 milhões de toneladas, beneficiada principalmente pelas chuvas registradas em julho nas regiões norte e central.

A Romênia também aparece como um ponto de compensação. Depois de receber chuvas importantes durante parte do ciclo, o país pode produzir aproximadamente 8 milhões de toneladas, embora a redução da área plantada e o tempo seco em agosto ainda representem riscos.

Mesmo esses resultados, porém, podem não ser suficientes para compensar completamente as perdas francesas e os problemas enfrentados em outros países.

Para a França, o tamanho definitivo da safra de milho só ficará mais claro conforme a colheita avançar. O que já se desenha, no entanto, é uma das temporadas mais difíceis em décadas, com a combinação de seca, calor, redução de área e uso antecipado das lavouras para alimentação animal pressionando a produção.

Se as projeções mais pessimistas se confirmarem, a França poderá colher menos da metade do milho obtido no ano anterior e registrar seu menor volume em 50 anos, transformando uma crise agrícola nacional em mais um desafio para o mercado de grãos de toda a União Europeia.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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