Enquanto o Colorado enfrenta uma das piores secas dos últimos anos, os Estados Unidos ainda projetam uma safra de quase 400 milhões de toneladas, mantendo a pressão sobre os preços internacionais
A seca que castiga parte das lavouras de milho dos Estados Unidos voltou a acender o alerta entre produtores e analistas do mercado internacional. Para muitos agricultores brasileiros, a lógica parece simples: se a produção norte-americana cair, os preços tendem a subir. No entanto, a realidade da safra 2026 mostra um cenário muito mais complexo.
Enquanto estados do oeste norte-americano enfrentam condições climáticas preocupantes, as estimativas oficiais continuam apontando para uma produção gigantesca, suficiente para manter os Estados Unidos na liderança mundial do milho e influenciar diretamente as cotações internacionais.
É justamente esse contraste que vem chamando a atenção do engenheiro agrônomo brasileiro Lucas Adalberto Seguro, que há oito anos trabalha acompanhando lavouras no estado do Colorado. Em vídeo publicado nas redes sociais, ele mostra de perto os impactos da seca e faz um alerta aos produtores brasileiros que apostam em uma quebra de safra norte-americana. “Você acha que a safra de milho nos EUA vai afetar de forma positiva ou negativa os preços no Brasil? O mercado é muito mais complexo e vários fatores interferem. Mas o fato é que este ano está muito seco por aqui” – indagou o agrônomo.
Colorado enfrenta mais um ano de dificuldades
Segundo Lucas, o Colorado atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos. O estado, conhecido por apresentar clima semiárido e produtividades naturalmente inferiores às do chamado “Corn Belt”, sofreu ainda mais nesta temporada.
De acordo com o agrônomo, a região acumula cerca de seis anos consecutivos de seca. Neste ciclo, a situação foi agravada pela ausência de neve durante o inverno — responsável por abastecer reservatórios e aquíferos — e pelo fracasso das chuvas previstas para o início do verão.
O resultado aparece nas lavouras.
Segundo ele, há áreas onde o milho já iniciou o enchimento das espigas com plantas extremamente baixas. Em alguns casos, a espiga está posicionada praticamente na altura do joelho, um indicativo clássico de forte estresse hídrico.
Nem mesmo as áreas irrigadas escaparam dos problemas.
“No início da safra não havia água suficiente para realizar a irrigação normalmente”, relata Lucas, mostrando que até produtores com infraestrutura de irrigação enfrentaram limitações devido à baixa disponibilidade hídrica.
O paradoxo da safra americana
Apesar das dificuldades observadas no Colorado e em outras áreas do oeste dos Estados Unidos, o cenário nacional continua bastante diferente.
Segundo o USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), as próximas duas ou três semanas serão decisivas para a definição do potencial produtivo da safra. Ainda assim, os números oficiais continuam indicando uma produção histórica.
As projeções mais recentes apontam para uma colheita próxima de 398 milhões de toneladas de milho, volume que pode se tornar um dos maiores já registrados pelo país. A estimativa considera uma produtividade média elevada nas principais regiões produtoras do Meio-Oeste americano, onde as condições climáticas seguem muito mais favoráveis do que nas áreas afetadas pela seca.
Caso esses números se confirmem, os Estados Unidos manterão ampla oferta de milho ao mercado internacional, reduzindo as chances de uma forte valorização das cotações globais apenas em função da estiagem observada em estados específicos.
O que isso significa para o Brasil?
Para o produtor brasileiro, a situação exige cautela.
Embora imagens de lavouras castigadas pela seca possam sugerir uma quebra generalizada, elas representam apenas parte da realidade agrícola norte-americana. O cinturão produtor de milho dos EUA possui enorme extensão territorial, e boas produtividades em estados como Iowa, Illinois, Indiana, Minnesota e Nebraska podem compensar perdas registradas em regiões mais secas.
Por isso, Lucas faz questão de reforçar que ainda não existe garantia de alta nos preços.
Segundo ele, muitos produtores brasileiros esperam uma safra ruim nos Estados Unidos para impulsionar as cotações internas, mas esse movimento depende de uma série de fatores, incluindo produtividade final, estoques, exportações, demanda por etanol, comportamento da China e dinâmica do mercado financeiro.
Mercado seguirá atento ao clima
Nas próximas semanas, investidores e produtores acompanharão diariamente os mapas climáticos norte-americanos.
Caso as chuvas previstas não se confirmem em áreas importantes durante a fase de enchimento de grãos, parte das estimativas poderá ser revisada para baixo. Porém, se as condições melhorarem nas regiões de maior produção, a expectativa continua sendo de uma oferta abundante.
Para o agricultor brasileiro, a mensagem é clara: a seca existe, preocupa e afeta produtores em estados como o Colorado. Mas, por enquanto, ela ainda não é suficiente para mudar o cenário de uma safra que continua projetada em cerca de 398 milhões de toneladas, uma das maiores da história dos Estados Unidos. Essa perspectiva tende a manter o mercado internacional abastecido e limita, ao menos neste momento, uma alta expressiva nos preços do milho no Brasil.
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