Safra recorde não significa lucro: entenda como o produtor pode colher mais e ganhar menos

Produção brasileira de grãos deve atingir 360,1 milhões de toneladas, mas preços pressionados e custos logísticos podem limitar o retorno financeiro no campo

Safra recorde não significa lucro garantido para o produtor rural. Embora a Conab projete uma colheita brasileira de aproximadamente 360,1 milhões de toneladas de grãos em 2025/26, o resultado financeiro dependerá dos preços, dos custos da lavoura e das condições de comercialização.

A produção estimada representa crescimento de 2,2% sobre o ciclo anterior. Porém, colher mais não assegura uma margem maior quando o valor recebido pela saca cai ou quando despesas com transporte, armazenagem, crédito e beneficiamento aumentam.

Produtividade, faturamento e lucro não são iguais

Produtividade é a quantidade colhida por hectare. Faturamento é o valor obtido com a venda da produção. Lucro é o que permanece depois do pagamento de todas as despesas.

Uma propriedade pode elevar a produtividade e, mesmo assim, ganhar menos. Isso acontece quando a queda no preço do produto é maior do que o aumento no número de sacas colhidas.

Em um exemplo simples, uma lavoura que produz 60 sacas por hectare e vende cada uma por R$ 120 gera receita bruta de R$ 7.200 por hectare. Se a produtividade subir para 66 sacas, mas o preço cair para R$ 105, a receita recua para R$ 6.930.

Ainda precisam ser descontados custos com sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas, mão de obra, juros, armazenagem e frete. Por isso, o volume colhido não deve ser analisado isoladamente.

Safra recorde não significa lucro quando a oferta aumenta

Durante a colheita, grandes volumes de soja, milho e outros grãos chegam ao mercado em um período relativamente curto. Quando essa oferta cresce mais rapidamente que a demanda, os compradores encontram maior disponibilidade de produto e os preços podem perder força.

A pressão costuma ser maior em regiões distantes de indústrias, terminais ferroviários e portos. Nesses locais, o valor oferecido ao produtor também incorpora o custo necessário para transportar a carga até os principais centros consumidores.

Assim, mesmo que a cotação de referência pareça atrativa, o preço líquido recebido na fazenda pode ser consideravelmente menor.

Frete e armazenagem consomem parte da margem

Levantamentos da Conab mostram que importantes rotas de transporte agrícola apresentaram, em 2026, fretes acima dos valores observados no ano anterior. A movimentação simultânea de soja, milho e outros produtos aumenta a procura por caminhões durante os períodos de pico.

A capacidade de armazenagem também limita as escolhas. Segundo o IBGE, o Brasil possuía 233,8 milhões de toneladas de capacidade útil no segundo semestre de 2025, volume inferior à produção total projetada para a safra atual.

Essa diferença não representa automaticamente um déficit do mesmo tamanho, pois os armazéns recebem e expedem mercadorias ao longo do ano. Ainda assim, mostra que nem todo produtor terá estrutura disponível para esperar por melhores condições de venda.

Sem espaço próprio ou contratado, parte da produção precisa ser comercializada logo após a colheita, justamente quando a oferta está mais concentrada.

Umidade, descontos e juros reduzem o valor recebido

O peso retirado da lavoura nem sempre corresponde ao volume efetivamente pago. Cargas com excesso de umidade, impurezas, grãos quebrados ou outros defeitos podem sofrer descontos na classificação.

Para milho e soja, o padrão comercial normalmente utiliza 14% de umidade como referência, conforme normas do Ministério da Agricultura. Percentuais superiores podem gerar cobrança de secagem e redução do peso líquido considerado na negociação.

Manter o produto armazenado também possui custo. Além das tarifas da unidade, o produtor precisa considerar seguro, perdas, movimentação e juros sobre o capital imobilizado.

Com a Selic ainda em patamar elevado em 2026, esperar por uma valorização pode não compensar. O preço futuro precisa subir o suficiente para superar todas as despesas acumuladas durante o período.

Planejamento evita vendas por necessidade

Vender durante a colheita não é necessariamente uma decisão ruim. O problema ocorre quando toda a produção é negociada no mesmo momento, sem cálculo do custo por saca ou comparação entre compradores.

Uma estratégia mais segura pode combinar venda antecipada, comercialização durante a colheita e retenção de uma parcela para oportunidades futuras. A proporção depende da necessidade de caixa, da capacidade de armazenagem e do nível de risco que o produtor consegue assumir.

Também é importante comparar propostas pelo valor líquido na propriedade, descontando frete, secagem, comissão e demais taxas.

Em uma safra histórica, produzir bem continuará sendo essencial. Porém, o resultado será definido pela capacidade de transformar produtividade em margem. Para isso, o produtor precisa acompanhar custos, qualidade dos grãos, logística e preços com o mesmo cuidado dedicado à lavoura.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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