Produção britânica de grãos e oleaginosas deve cair para apenas 18,5 milhões de toneladas em 2026; nova revisão retirou 1 milhão de toneladas da projeção e amplia prejuízo dos agricultores
A agricultura do Reino Unido caminha para fechar 2026 com um resultado histórico — mas pelo pior motivo. A produção das principais culturas agrícolas britânicas deve atingir apenas 18,5 milhões de toneladas, colocando a atual temporada no caminho para se tornar a menor safra já registrada no país. Seca prolongada, calor extremo e sucessivas ondas de calor castigaram as lavouras justamente em fases decisivas de desenvolvimento.
As informações foram divulgadas pelo jornal britânico FarmingUK, especializado no setor agrícola. O cenário ficou ainda mais preocupante depois que a Agriculture and Horticulture Development Board (AHDB) reduziu sua estimativa anterior de 19,5 milhões para 18,5 milhões de toneladas. Ou seja, em uma única revisão, praticamente 1 milhão de toneladas desapareceu da expectativa de produção britânica.
A dimensão da quebra aparece com mais clareza na comparação histórica. Caso a projeção seja confirmada, a safra de 2026 ficará aproximadamente 1,35 milhão de toneladas abaixo de 2020, até então detentor do recorde negativo. O quadro chama ainda mais atenção porque quatro das cinco piores colheitas britânicas poderão ter ocorrido somente nesta década: 2020, 2024, 2025 e agora 2026.
Uma temporada que começou com boas perspectivas
O contraste com o início do ciclo é significativo. A temporada 2025/26 chegou a apresentar perspectivas relativamente favoráveis, com expectativa de produtividades próximas ou até superiores à média dos últimos dez anos. O clima, entretanto, mudou completamente o rumo das lavouras.
Segundo o FarmingUK, abril foi extremamente seco, seguido por ondas de calor em maio, junho, julho e agosto. A combinação de falta de água e temperaturas elevadas submeteu as culturas a forte estresse justamente durante etapas importantes para a definição da produtividade.
Os números mais recentes da AHDB ajudam a dimensionar o problema. Com cerca de 85% do trigo já colhido, a produtividade média estimada estava em apenas 6,7 toneladas por hectare, contra 7,2 t/ha em 2025 e uma média de dez anos de aproximadamente 7,9 t/ha. Isso coloca o rendimento do trigo cerca de 15% abaixo da média da última década.
A situação da cevada de primavera é ainda mais delicada. Com 54% da área colhida, a produtividade estimada estava em somente 4,1 t/ha, diante de uma média histórica de dez anos de 5,7 t/ha. Já a cevada de inverno, praticamente toda colhida, apresentava rendimento médio de 6,8 t/ha, próximo dos padrões históricos.
Nem todas as culturas, porém, apresentam desempenho ruim. A colza de inverno — importante oleaginosa no Reino Unido — estava com aproximadamente 95% da área colhida e produtividade estimada em 3,9 t/ha, acima das 3,7 t/ha registradas em 2025 e também superior à média de dez anos, de 3,3 t/ha.
Prejuízo de centenas de milhões de libras
A quebra produtiva já está se transformando em uma pesada conta para o produtor britânico. De acordo com estimativa da Energy and Climate Intelligence Unit (ECIU) citada pelo FarmingUK, somente a última revisão para baixo da safra poderá retirar mais £160 milhões da receita das propriedades rurais.
Considerando a deterioração das projeções desde março, o impacto financeiro estimado chega a aproximadamente £550 milhões. O valor total da produção de cereais e oleaginosas britânicas é agora projetado em £3,64 bilhões. Em termos reais, descontada a inflação, representa cerca de £1,78 bilhão a menos do que a média observada entre 2014 e 2023 — uma retração próxima de um terço.
A pressão ocorre justamente quando os custos continuam elevados. A AHDB já estimava para a safra 2026 aumento de aproximadamente 3% no custo econômico total de produção do trigo de inverno, chegando a £1.659 por hectare. Fertilizantes também pressionam as margens: os preços do nitrato de amônio produzido no Reino Unido haviam avançado cerca de 14% na comparação anual durante maio e junho.
Seca toma conta da Inglaterra
A crise deixou de ser apenas uma questão de produtividade agrícola. Segundo o FarmingUK, cerca de três quartos da Inglaterra estavam sob condições de seca, afetando lavouras, disponibilidade de água e até a alimentação dos rebanhos. Pecuaristas começaram a utilizar estoques de alimento reservados para o inverno antes do previsto.
Na semana encerrada em 12 de agosto, mais de 1.500 restrições relacionadas a licenças de captação de água haviam sido registradas. Julho também foi apontado como o mais seco já registrado na Inglaterra e no País de Gales, enquanto o governo britânico passou a discutir medidas para enfrentar os efeitos do calor extremo, incêndios e escassez hídrica.
Diante da gravidade da situação, agricultores ingleses passaram a contar com um pacote de £65 milhões em apoio contra a seca. Desse montante, £50 milhões foram direcionados ao Sustainable Farming Incentive e até £15 milhões destinados à implantação de reservatórios dentro das propriedades.
Quatro safras ruins em apenas sete anos
Mais do que a quebra isolada de 2026, é a frequência dos problemas que começa a preocupar o setor agrícola britânico. O país pode registrar quatro das cinco piores safras de sua história desde 2020, mostrando como a combinação de excesso de chuva em algumas temporadas e seca e calor extremos em outras vem aumentando a volatilidade da produção.
Ao FarmingUK, o economista de alimentos da ECIU, Chris Jaccarini, resumiu a situação afirmando que as perspectivas para a colheita passaram “de ruins para piores”. Segundo ele, produtores que já trabalhavam com a possibilidade de uma safra recorde negativamente agora enfrentam perdas ainda maiores do que se imaginava inicialmente.
O impacto também ultrapassa trigo, cevada e outras culturas agrícolas. As condições adversas atingem a pecuária e a produção de hortaliças, enquanto custos importantes permanecem praticamente os mesmos mesmo diante da redução da produtividade. Para as propriedades, isso significa menor quantidade de produto disponível para diluir despesas fixas e, consequentemente, pressão adicional sobre as margens.
Com boa parte da colheita já avançada, a possibilidade de uma recuperação expressiva diminui. Se as projeções atuais forem confirmadas, 2026 entrará para a história como um novo fundo do poço para a produção agrícola britânica, com apenas 18,5 milhões de toneladas de grãos e oleaginosas — e 1,35 milhão de toneladas abaixo de uma safra que, até poucos anos atrás, já era considerada excepcionalmente ruim.
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