Quem foi Laucídio Coelho, o pecuarista que construiu um império de 870 mil hectares e 250 mil bovinos

Pioneiro da pecuária no Centro-Oeste, Laucídio Coelho começou a formar seu patrimônio ainda jovem, administrou dezenas de propriedades, investiu em genética zebuína e ajudou a transformar a estrutura da atividade pecuária no então Mato Grosso.

Poucos personagens ajudam a compreender a formação da pecuária do Centro-Oeste brasileiro como Laucídio Coelho. Nascido em 29 de agosto de 1886, ele construiu ao longo da vida uma estrutura rural que, em seu auge, teria reunido cerca de 870 mil hectares, aproximadamente 40 propriedades e um rebanho de 250 mil cabeças de gado. A dimensão do patrimônio teria levado seu nome ao Guinness Book.

Mas reduzir sua história ao tamanho das fazendas seria deixar de lado justamente a parte mais importante de seu legado. Laucídio participou de uma época em que produzir gado no interior do então Mato Grosso significava enfrentar distâncias enormes, infraestrutura limitada, comunicação difícil e uma cadeia frigorífica ainda em formação. Ao mesmo tempo em que ampliava seu patrimônio, incorporava novas formas de administração, investia em seleção animal e participava da construção de uma pecuária mais estruturada na região.

Do primeiro gado à formação de um patrimônio gigantesco

Filho de José Justiniano de Souza Coelho e Maria de Souza Coelho, Laucídio nasceu na Fazenda Divisa, em Coxim. A família posteriormente mudou-se para a Fazenda Bela Vista, em Rio Brilhante, propriedade que se tornaria um dos grandes símbolos de sua trajetória. Desde jovem, esteve ligado à criação de bovinos.

Quando se casou com Lúcia Martins, em 1911, Laucídio já possuía cerca de 700 reses. O rebanho familiar foi acrescido das aproximadamente 540 cabeças pertencentes à esposa. Apenas oito anos depois, em 1919, já aparecia como o décimo maior proprietário de terras do município de Campo Grande, com 36 mil hectares.

O crescimento continuaria nas décadas seguintes até atingir uma escala difícil de imaginar mesmo pelos padrões atuais. Segundo relato de seu bisneto Kenneth Corrêa, que pesquisou documentos e memórias da família para reconstruir a trajetória do pecuarista, Laucídio chegou a administrar aproximadamente 40 propriedades rurais.

No auge, as terras somariam 870 mil hectares — o equivalente a 8.700 quilômetros quadrados. Para colocar a dimensão em perspectiva, trata-se de uma área territorial maior que a de muitos municípios e até de alguns pequenos países.

O rebanho teria alcançado 250 mil bovinos, número que ajuda a explicar por que Laucídio passou a ser lembrado como um dos maiores pecuaristas brasileiros de seu tempo.

Avião e rádio para administrar as fazendas

A escala criou outro problema: como administrar propriedades separadas por enormes distâncias em uma época sem internet, celular, GPS ou estradas como as atuais?

A resposta mostra uma característica importante de Laucídio: a disposição para utilizar tecnologia.

Segundo Kenneth Corrêa, o pecuarista recorria a aviões e comunicação por rádio para conectar as propriedades e acompanhar seus negócios. Em pleno século XX, quando grande parte da administração rural ainda dependia de longos deslocamentos terrestres, o uso dessas ferramentas permitia encurtar as distâncias do gigantesco patrimônio.

Era, guardadas as proporções históricas, uma versão pioneira daquilo que hoje o agronegócio chama de gestão remota.

Laucídio Coelho também deixou sua marca na genética bovina

Sua contribuição à pecuária não ficou limitada à quantidade de animais.

Documentos históricos ajudam a mostrar que havia também preocupação com seleção genética. Uma edição de 1944 da publicação Zebu apresentava a Fazenda Bela Vista, de Laucídio Coelho, trabalhando com criação selecionada de Gir, Nelore e Indubrasil. Animais da propriedade já apareciam premiados na 6ª Exposição Agropecuária de Campo Grande.

Quase três décadas depois, uma edição de 1972 da mesma publicação ainda relacionava a Fazenda Bela Vista à seleção de Gir, Nelore, Nelore Mocho e Indubrasil.

Esse registro é particularmente importante porque coloca Laucídio dentro do processo de expansão do gado zebuíno que ajudaria a transformar a pecuária tropical brasileira.

Hoje o Nelore domina amplamente a pecuária de corte nacional. Naquele período, porém, criadores estavam construindo as bases genéticas, produtivas e comerciais que permitiriam a expansão dessas raças pelas regiões tropicais do país.

Do boi em pé à indústria frigorífica

Talvez um dos capítulos mais importantes de sua trajetória tenha acontecido fora das porteiras.

Na década de 1940, boa parte dos bovinos produzidos no então Mato Grosso precisava seguir para São Paulo. A região tinha gado, terra e pecuaristas, mas ainda precisava avançar na industrialização da produção.

Registros históricos da Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) mostram que, em 1947, integrantes da entidade, entre eles Italívio Pereira Martins e Laucídio Coelho, estiveram à frente da introdução do FRIMA — Frigorífico Matogrossense S/A. A indústria iniciou seus abates entre 1947 e 1948.

A mudança tinha enorme significado econômico.

Em vez de simplesmente mandar os animais para outros estados, a região passava a ganhar capacidade de abater, industrializar e agregar valor à própria produção pecuária. Era um passo importante na transformação de Campo Grande e do sul de Mato Grosso em um dos grandes polos da pecuária brasileira.

Um pecuarista que também entrou no mercado financeiro

Com o crescimento dos negócios, Laucídio ultrapassou os limites da atividade rural.

Ele entrou também no setor financeiro, chegando ao controle do Banco Financial de Mato Grosso, além de participar de outros empreendimentos. Sua atuação empresarial tornou-se tão ligada ao desenvolvimento regional que a família Coelho deixaria marcas não apenas nas fazendas, mas também na expansão urbana e econômica de Campo Grande.

Essa diversificação ajuda a explicar por que sua história não pode ser analisada apenas pela quantidade de bois que possuía. O patrimônio rural tornou-se a base para uma estrutura empresarial muito maior.

O retorno à Fazenda Bela Vista

Laucídio Coelho morreu em dezembro de 1975.

Um jornal daquele período registrou que seu desejo era ser sepultado justamente na Fazenda Bela Vista, em Rio Brilhante, local ligado ao início de sua trajetória. A reportagem publicada após sua morte afirmava que seu nome havia ficado registrado na história da pecuária brasileira e o descrevia como “o maior pecuarista brasileiro do século XX” — uma caracterização da imprensa da época que ajuda a dimensionar a reputação alcançada por ele ainda em vida.

Décadas depois, a dimensão de seu patrimônio impressiona. 870 mil hectares. Cerca de 40 propriedades. 250 mil cabeças de gado.

Mas talvez os números sejam apenas a parte mais visível da história.

Laucídio Coelho pertenceu à geração de pecuaristas que ajudou a transformar uma atividade realizada em territórios praticamente isolados em uma cadeia econômica organizada. Investiu em terras e gado, participou da seleção de zebuínos, incorporou tecnologias de comunicação e transporte, entrou na industrialização da carne e diversificou seus negócios.

É por isso que, mais de meio século depois de sua morte, Laucídio Coelho continua sendo um dos nomes que ajudam a contar como a pecuária brasileira chegou à dimensão que possui atualmente.

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