Quase centenário, pecuarista conta histórias e como 45 fazendas passaram por suas mãos

Do boteco à beira da Anhanguera às terras do antigo norte de Goiás, pecuarista Ormízio Celeste construiu uma trajetória de mais de 50 anos comprando, formando e vendendo propriedades. Hoje, seu legado também está na família e nas histórias que guarda do campo

Ormízio Celeste tinha um boteco à beira da Via Anhanguera quando a estrada ainda era de chão. Passou sete anos atrás do balcão, no interior de São Paulo, antes de seguir para Goiás e encontrar nas fazendas o trabalho que marcaria o restante de sua vida. Mais de cinco décadas depois, aos 93 anos, calcula que cerca de 45 propriedades passaram por suas mãos, em 18 municípios de São Paulo, Goiás e Tocantins. O número não representa fazendas que possui hoje: é o total de negócios que fez ao longo da trajetória.

Ele contou essa história no episódio 123 do podcast Agro em Debate, gravado em edição especial na Bahia Farm Show. Na conversa, o tamanho do patrimônio chama a atenção, mas é a maneira como cada fazenda entrava e saía de suas mãos que ajuda a entender seu legado. Ormízio comprava terras, trabalhava para torná-las produtivas e vendia quando surgia uma oportunidade. Então procurava a próxima área.

Quando o bezerro valia mais que a terra

Ao chegar à região que pertencia ao norte de Goiás e hoje integra o Tocantins, Ormízio encontrou terras baratas e muito trabalho pela frente. Segundo seu relato, usava financiamentos do Banco do Brasil para abrir áreas, plantava o chamado arroz de abertura e, depois da colheita, formava pastagens para o gado. A pecuária gerava recursos para novas compras.

Uma lembrança resume aquele mercado. Ormízio conta que vendeu uma safra de bezerros machos numa época em que um animal valia mais do que um alqueire de terra. Com o dinheiro, comprou uma grande área no sul do atual Tocantins. Mais do que uma comparação curiosa de preços, o episódio mostra como ele usava o resultado da cria para ampliar os negócios com terras.

Foi assim que sua atividade se espalhou por municípios como Peixe, Alvorada e Araguaçu, no atual Tocantins, além de regiões de Goiás e São Paulo. As 45 fazendas não foram uma coleção mantida ao mesmo tempo. Eram etapas de um ciclo: adquirir, formar ou melhorar, negociar e voltar a investir. Em algumas propriedades, o trabalho começava com a abertura de pasto; em outras, bastava a “guaribada” que ele menciona ao falar dos cuidados necessários para apresentar bem uma fazenda.

A regra por trás de 45 negociações

Ormízio resume sua forma de negociar em uma frase: “Se você não pagar um pouquinho mais, não compra. E se não vender um pouquinho por menos, não vende.” Para ele, insistir sempre no menor preço de compra ou no maior preço de venda podia impedir um bom acordo. A valorização vinha também do trabalho feito na propriedade e da disposição de fechar o negócio na hora certa.

Essa lógica explica por que passou por tantas fazendas sem abandonar a pecuária. Criar bezerros, formar pastos e negociar terras eram partes da mesma atividade. Ao longo dos anos, vendeu propriedades já preparadas para a produção, incluindo áreas que haviam avançado para o cultivo de soja.

A confiança também tinha lugar central nessa rotina. Ormízio se recorda de negócios feitos “no fio do bigode”, em que a palavra dada e o aperto de mão pesavam na decisão. Segundo seu relato, preservou a boa relação com compradores e vendedores durante décadas de transações.

Do boteco à inauguração de Brasília

A trajetória de Ormízio atravessa mudanças profundas no interior do Brasil. Nascido em 17 de novembro de 1932, viveu a juventude em São Paulo e recorda a viagem que fez com os pais, saindo de Anápolis para acompanhar a inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960. Pouco depois, construiria sua vida nas terras que hoje fazem parte do Tocantins.

A passagem do tempo também aparece em sua família. Seu filho Vinícius, nascido quando Ormízio tinha 61 anos, hoje o acompanha na gestão de propriedades em Araguaçu. O produtor conta que já repassou áreas a parentes e que fez um negócio de valor especial para si: comprou dos herdeiros o sítio paulista onde havia vivido até os 15 anos. Depois de negociar fazendas em tantos lugares, voltou a ser dono de um pedaço de sua própria infância.

Ormízio diminuiu o ritmo, mas segue ligado ao campo. Hoje prefere a pecuária de cria, com a venda de bezerros na desmama, e mantém áreas arrendadas para a soja. Na entrevista, fala de fazendas, gado e família com a mesma naturalidade com que recita versos aprendidos na juventude.

Seu legado está nas propriedades que ajudou a formar e nas negociações que atravessaram gerações. Está também numa experiência difícil de repetir: ter visto a terra mudar de valor, o antigo norte de Goiás se tornar Tocantins e o campo se transformar, sem perder o interesse pelo próximo negócio.

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