Levantamento mostra o peso da pecuária nas emissões brasileiras e reúne caminhos para atacar o problema com animais mais eficientes, melhores pastagens, alimentação e gestão da produção
O metano do agro brasileiro tem uma origem bastante concentrada. Das 15,7 milhões de toneladas de CH₄ emitidas pela agropecuária em 2024, 91,9% foram geradas pela fermentação entérica, processo ligado à digestão dos animais ruminantes. O volume fez com que o setor respondesse por 75,8% de todo o metano emitido no Brasil naquele ano, segundo a 13ª coleção do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG).
O tamanho da participação coloca a pecuária no centro das estratégias de mitigação. Em publicação lançada em agosto de 2026, o SEEG reuniu 37 alternativas para diminuir as emissões brasileiras de metano, das quais 15 estão relacionadas à agropecuária. As propostas vão da gestão territorial e acesso ao crédito até mudanças diretamente aplicadas à alimentação, ao rebanho, às pastagens e aos resíduos da produção animal.
Metano do agro está concentrado na bovinocultura
Entre os animais, os bovinos destinados à produção de carne exercem o maior peso sobre o resultado. O gado de corte respondeu por 87,9% das emissões de fermentação entérica em 2024, enquanto a bovinocultura leiteira representou outros 9,1%. Juntas, as duas atividades concentraram 97% do metano calculado nessa categoria.
A fermentação entérica é consequência da própria fisiologia dos ruminantes. Durante a transformação de alimentos fibrosos dentro do rúmen, microrganismos produzem gases, entre eles o CH₄, posteriormente liberado principalmente pela eructação.
Isso significa que zerar a emissão desse processo não é uma possibilidade simples para a pecuária. A discussão técnica está, portanto, concentrada em outro ponto: como produzir mais carne ou leite com menos metano ao longo do ciclo produtivo.
É justamente aí que manejo, nutrição, genética e qualidade das pastagens passam a ter relevância econômica e ambiental.
Menos tempo até o abate pode reduzir emissões acumuladas
Manter um bovino por mais tempo na propriedade significa prolongar também o período em que ele produz metano.
Por isso, entre as estratégias mapeadas está a redução da idade de abate. O objetivo não é simplesmente acelerar o ciclo, mas criar condições para que o animal alcance o peso desejado mais cedo por meio de alimentação adequada, pastagens produtivas, sanidade, genética e bom manejo.
A lógica também aparece no Plano ABC+, do Ministério da Agricultura e Pecuária. A Terminação Intensiva foi incorporada ao programa como uma das práticas capazes de elevar a eficiência produtiva e diminuir a intensidade das emissões. Segundo o Ministério, o fornecimento mais eficiente de energia na fase final pode contribuir tanto para alterações na fermentação ruminal quanto para encurtar o ciclo até o abate.
Na prática, o indicador que ganha importância não é apenas quanto um animal emite por dia, mas quanto metano foi necessário para produzir cada quilo de carne.
Qualidade da alimentação entra na conta do metano do agro
A composição da dieta influencia diretamente a fermentação que ocorre no rúmen.
Forragens de melhor qualidade, suplementação adequada e dietas formuladas para atender às necessidades do animal podem elevar o aproveitamento dos nutrientes e melhorar o desempenho produtivo. Em determinadas estratégias, esse ganho reduz a quantidade de CH₄ associada a cada unidade de produto entregue.
O tema também inclui tecnologias voltadas especificamente à fermentação ruminal. O catálogo de soluções aborda o uso de aditivos capazes de interferir nas rotas responsáveis pela formação de metano, além de práticas para aumentar a eficiência alimentar dos bovinos.
A adoção, porém, depende das características do sistema produtivo. Dieta, categoria animal, tipo de manejo, custo e disponibilidade das tecnologias interferem no resultado, o que impede tratar uma única solução como resposta universal para toda a pecuária brasileira.
Pasto degradado pode prolongar um problema que começa no rúmen
A discussão sobre emissão animal também passa pelo solo.
Em áreas degradadas, a menor oferta e a pior qualidade da forragem podem comprometer o ganho de peso. Com desempenho abaixo do potencial, o animal tende a precisar de mais tempo para atingir as condições comerciais desejadas.
Pesquisa disponibilizada pela Embrapa relaciona sistemas de pastagens de baixo potencial produtivo ao aumento da idade de abate e, consequentemente, a uma maior emissão acumulada de metano entérico. Em contrapartida, pastagens bem manejadas e sistemas integrados podem melhorar a qualidade nutricional disponível aos bovinos e reduzir a emissão por unidade de produto.
Não por acaso, recuperar ou renovar pastagens degradadas é uma das frentes do Plano ABC+. O programa associa a melhoria da capacidade produtiva do pasto à intensificação sustentável da pecuária, com menor pressão para abertura de novas áreas.
Integração amplia as possibilidades dentro da propriedade
Outra alternativa é combinar diferentes atividades na mesma área.
Os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta permitem organizar componentes agrícolas, pecuários e florestais em consórcio, sucessão ou rotação. A proposta é aproveitar melhor a terra e aumentar a produtividade sem depender exclusivamente da expansão da área utilizada.
Para a pecuária, o efeito sobre o metano do agro está ligado principalmente à melhoria do sistema de produção. Pastagens mais produtivas, melhor oferta de alimento e desempenho superior dos animais podem diminuir a intensidade de emissão da carne ou do leite.
É importante, no entanto, separar dois conceitos: reduzir a emissão por quilo produzido não significa necessariamente diminuir o volume absoluto de metano da atividade. Caso a produção ou o número de animais cresçam fortemente, o total liberado pode continuar elevado mesmo com avanços importantes em eficiência.
Genética pode ajudar a fazer mais com o mesmo rebanho
A eficiência também pode ser trabalhada antes mesmo de o animal entrar na fase de engorda.
Programas de melhoramento genético permitem selecionar características relacionadas a desempenho, fertilidade, conversão alimentar, adaptação e precocidade. Quanto melhor o desempenho produtivo, menor pode ser a quantidade de recursos e de tempo necessária para entregar o mesmo volume de produto.
Dentro das estratégias de mitigação avaliadas pelo SEEG, o melhoramento genético animal aparece ao lado de mudanças na dieta e do abate precoce como uma das rotas capazes de reduzir a intensidade das emissões da bovinocultura.
O impacto não ocorre isoladamente. Um animal geneticamente superior colocado em pasto ruim ou submetido a manejo inadequado dificilmente expressará todo o potencial esperado. Por isso, os ganhos tendem a ser maiores quando as diferentes tecnologias são adotadas de maneira complementar.
Solução não está concentrada em uma única tecnologia
As 15 medidas destinadas à agropecuária no novo catálogo ajudam a mostrar a dimensão desse desafio.
Além das intervenções diretamente ligadas ao animal, o documento inclui assistência técnica, financiamento, planejamento territorial, recuperação de pastagens, sistemas integrados, eficiência zootécnica, redução da idade ao abate, manejo alimentar, genética, gestão dos resíduos da produção animal, cultivo de arroz e redução das queimadas agrícolas.
A diversidade das propostas mostra que diminuir as emissões não depende apenas da descoberta de um novo aditivo para o gado.
Parte do resultado passa por tecnologias já conhecidas pela pecuária: fazer o pasto produzir melhor, entregar alimentação compatível com a necessidade do rebanho, selecionar animais eficientes, reduzir ciclos improdutivos e utilizar melhor cada hectare da propriedade.
Há ainda um desafio de escala. Investimentos em infraestrutura, recuperação do solo, assistência técnica e genética têm custos e diferentes períodos de retorno, especialmente para pequenos e médios produtores. Crédito adequado e acesso a conhecimento técnico, portanto, tornam-se componentes da própria estratégia climática.
Reduzir o metano do agro pode significar aumentar a eficiência
Os números brasileiros deixam claro por que a pecuária ocupa posição central nessa discussão. Ao mesmo tempo, a concentração das emissões oferece um alvo mais definido para políticas públicas, pesquisa e investimento privado.
A questão deixa de ser apenas quanto metano um bovino produz e passa a incluir quanto alimento, terra e tempo são necessários para transformar aquele animal em produção comercial.
Nesse cenário, eficiência produtiva e redução da intensidade de emissões podem caminhar juntas.
Para o produtor, medidas que aumentem ganho de peso, melhorem o aproveitamento das pastagens ou reduzam períodos pouco produtivos também podem representar melhor uso dos recursos disponíveis. Para o país, a disseminação dessas práticas será determinante para saber se o crescimento da pecuária conseguirá ocorrer sem reproduzir, na mesma proporção, o avanço das emissões.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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