Dos campos do Pampa Gaúcho à Esplanada dos Ministérios, animais criados durante até cinco anos ajudam a preservar a história da Cavalaria e também cumprem missões em locais onde veículos não conseguem chegar
Quando a Cavalaria surge na Esplanada dos Ministérios durante o desfile de 7 de Setembro, o público vê apenas os minutos finais de uma preparação que começa anos antes, a mais de 2 mil quilômetros de Brasília. Por trás dos conjuntos perfeitamente alinhados estão genética, seleção, manejo e treinamento conduzidos com precisão militar.
Grande parte desses animais nasce na Coudelaria de Rincão, uma fazenda do Exército Brasileiro localizada em São Borja, no extremo oeste do Rio Grande do Sul. É nos campos do Pampa Gaúcho que são produzidos os cavalos destinados às cerimônias de Estado, às escolas militares, ao patrulhamento e às competições equestres.
A presença dos cavalos no Dia da Independência vai além da beleza do desfile. A Cavalaria representa uma ligação direta com a formação histórica e territorial do Brasil, preservando tradições militares anteriores à chegada dos veículos blindados.
Cavalaria conecta o 7 de Setembro à história do Brasil
O cavalo ocupa um lugar central no imaginário da Independência. A representação mais conhecida de Dom Pedro I às margens do riacho Ipiranga mostra o então príncipe montado, cercado por integrantes de sua comitiva.
Embora historiadores ressaltem que viagens longas daquele período eram frequentemente realizadas em mulas, e não nos imponentes cavalos retratados nas pinturas, a imagem da tropa montada tornou-se um dos principais símbolos do 7 de Setembro.
Essa tradição permanece especialmente viva no 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, conhecido como Dragões da Independência. Sediada em Brasília, a unidade participa de cerimônias oficiais, realiza escoltas de autoridades e ajuda a preservar os costumes da antiga Guarda de Honra Imperial.

Os uniformes históricos utilizados pelos Dragões, com cores marcantes, capacetes e lanças, reforçam essa conexão com o período imperial. A unidade retomou essa caracterização no desfile de 7 de Setembro de 1927.
Há também uma tradição relacionada à pelagem dos animais. O comandante do regimento monta um cavalo baio, referência ao animal utilizado pelo marechal Deodoro da Fonseca durante a Proclamação da República. Baio, nesse caso, designa a pelagem e não uma raça específica.
Onde nascem os cavalos do Exército?
Os animais que aparecem nas solenidades militares são resultado de um dos mais estruturados programas de criação equina do país. Fundada em 1922 e reativada oficialmente em 1988, a Coudelaria de Rincão ocupa aproximadamente 15 mil hectares de campos nativos em São Borja.
Ela é a última remanescente de uma rede de nove fazendas que produziam cavalos para as Forças Armadas. Com a mecanização das unidades militares e a redução das tropas montadas, Rincão permaneceu como a única coudelaria do Exército Brasileiro em funcionamento.
A propriedade mantém cerca de mil cavalos. Anualmente, aproximadamente 150 a 170 animais são preparados e distribuídos para organizações militares, segundo informações reunidas pelo Compre Rural.
O processo completo pode levar até cinco anos. Ele começa no planejamento dos acasalamentos, passa pela gestação, nascimento, desmama e recria dos potros e chega à doma e ao treinamento militar.
Durante esse período, os animais são avaliados não somente pela aparência. Saúde, estrutura corporal, movimentação, inteligência, coragem, capacidade de aprendizado e equilíbrio comportamental são características fundamentais.
Um cavalo militar precisa permanecer controlado diante de bandas, multidões, bandeiras, veículos, ruídos intensos e salvas de tiros. A imponência vista no desfile depende, portanto, de um animal fisicamente preparado e emocionalmente confiável.
Quais raças são utilizadas?
O Brasileiro de Hipismo, conhecido pela sigla BH, é a principal raça produzida pela Coudelaria de Rincão. O Exército mantém um dos maiores plantéis do país.
São animais de grande porte, atléticos e com aptidão para salto, adestramento e Concurso Completo de Equitação. A combinação entre força, agilidade, inteligência e docilidade torna o BH adequado tanto para o esporte quanto para as funções militares.
A fazenda também trabalha com cavalos das raças Crioula, Puro-Sangue Inglês, Bretã e Polo Argentino. Cada uma contribui com características diferentes.
O Crioulo se destaca pela rusticidade, resistência e capacidade de deslocamento em terrenos difíceis. O Puro-Sangue Inglês acrescenta velocidade e desempenho atlético. O Polo Argentino é conhecido pela agilidade e pelas mudanças rápidas de direção.
Já as éguas Bretãs, animais de maior estrutura corporal e reconhecidas pela docilidade e produção de leite, são utilizadas como receptoras no programa de transferência de embriões. A técnica permite acelerar a multiplicação da genética considerada mais adequada ao serviço militar.
Muito além das cerimônias
Apesar de serem vistos principalmente em solenidades, os cavalos do Exército não têm função apenas decorativa. Eles também são utilizados em instrução militar, patrulhamento, competições de hipismo, pentatlo militar e deslocamentos por áreas de difícil acesso.
Em determinados terrenos, o cavalo consegue chegar a locais inacessíveis para viaturas. Também se movimenta com menor ruído e pode atuar em regiões rurais, matas, áreas montanhosas e faixas de fronteira.
Parte dos animais produzidos em Rincão pode ser destinada às polícias militares que mantêm unidades montadas. A coudelaria também participa de ações de cooperação com forças armadas de países vizinhos.
A atuação da unidade ainda alcança a preservação ambiental. Seus 15 mil hectares conservam uma extensa área de vegetação nativa do Pampa, conciliando a produção de equinos com a manutenção de um dos biomas mais característicos do Sul do Brasil.
Dos campos gaúchos à Esplanada
Quando os cavalos atravessam a avenida diante do público no 7 de Setembro, carregam mais do que cavaleiros uniformizados. Cada animal representa anos de seleção, trabalho veterinário, manejo nutricional, treinamento e convivência com militares.
Eles também mostram como uma atividade profundamente associada ao meio rural continua presente na defesa e nas cerimônias oficiais do país.
A tecnologia transformou a Cavalaria em uma arma predominantemente mecanizada e blindada, mas não eliminou o papel dos animais. A tropa montada permanece como patrimônio histórico e como recurso operacional para missões específicas.
Assim, por trás de uma das imagens mais tradicionais do Dia da Independência existe uma cadeia que começa no campo. Dos potros criados livres no Pampa aos cavalos rigorosamente alinhados em Brasília, a Coudelaria de Rincão mantém viva uma história centenária da Cavalaria brasileira.
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