Projeto inclui financiamento de quadriciclos pelo Pronaf; entenda

Proposta em análise na Câmara estabelece regras para financiar veículos destinados exclusivamente ao trabalho rural, em meio ao avanço do uso de quadriciclos no manejo, transporte e rotina das propriedades

O avanço dos quadriciclos como ferramenta de trabalho nas propriedades rurais chegou ao Congresso Nacional. O Projeto de Lei 2.290/2026 inclui veículos utilitários leves, como quadriciclos, entre os itens financiáveis pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), estabelecendo critérios para que o crédito seja direcionado exclusivamente a equipamentos utilizados nas atividades produtivas.

A proposta, de autoria do deputado Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES), está em análise na Câmara dos Deputados e altera a Lei 15.223/2025, que instituiu o Pronaf. Pelo texto, o financiamento deverá ser destinado a veículos comprovadamente caracterizados como instrumentos de trabalho, sem possibilidade de utilização dos recursos subsidiados para aquisição de modelos destinados ao lazer ou à prática esportiva.

A discussão ocorre justamente em um momento em que quadriciclos e outros pequenos veículos utilitários ganham espaço nas fazendas brasileiras, especialmente pela capacidade de realizar deslocamentos e trabalhos leves sem a necessidade de mobilizar tratores, caminhonetes ou máquinas de maior porte.

Quadriciclos avançam como ferramenta de trabalho no agro

Durante muito tempo associados principalmente ao lazer, às trilhas e às atividades esportivas, os quadriciclos passaram a ocupar uma função diferente dentro das propriedades rurais.

Na pecuária, por exemplo, podem ser utilizados para vistoria de cercas, acompanhamento de animais, deslocamento entre piquetes, transporte de ferramentas, medicamentos, sal mineral e pequenas cargas, além de apoio às atividades de manejo.

Na agricultura, os veículos também podem auxiliar no deslocamento de trabalhadores e na inspeção de lavouras e instalações, especialmente em propriedades nas quais as distâncias internas tornam os deslocamentos frequentes uma parte relevante da operação.

Fabricantes do segmento já oferecem modelos, implementos e acessórios direcionados especificamente ao trabalho agrícola e pecuário, reforçando a transformação desses veículos em utilitários de apoio à atividade rural.

O interesse está principalmente na combinação entre tamanho reduzido, capacidade de circulação em terrenos irregulares e agilidade.

Isso não significa substituir tratores ou outras máquinas agrícolas. A função é diferente. Em determinadas tarefas, colocar um trator ou uma caminhonete em operação apenas para transportar ferramentas, percorrer cercas ou verificar animais pode representar um uso desnecessário de um equipamento maior.

É nesse espaço que o quadriciclo vem conquistando terreno.

O que prevê o Projeto de Lei 2.290/26

De acordo com informações oficiais da Agência Câmara de Notícias, o PL 2.290/26 estabelece que o financiamento seja exclusivo para veículos comprovadamente utilizados como instrumentos de trabalho rural.

Entre as atividades previstas estão manejo, manutenção e logística interna da propriedade.

Os equipamentos também poderão ser utilizados para deslocamento de trabalhadores rurais e transporte de ferramentas, insumos e pequenas cargas.

No caso específico dos quadriciclos, a proposta determina que os veículos tenham cilindrada entre 250 cm³ e 700 cm³, além de potência compatível com operações de carga e tração leve.

Modelos classificados como de alto desempenho esportivo ficam excluídos da nova regra.

O objetivo é estabelecer uma separação clara entre o quadriciclo utilizado como equipamento auxiliar da propriedade e aquele destinado predominantemente ao lazer ou às competições.

Uso recreativo poderá antecipar pagamento da dívida

O projeto também estabelece mecanismos para impedir que recursos destinados ao fortalecimento da agricultura familiar sejam utilizados para outras finalidades.

Caso o veículo financiado seja utilizado em atividades recreativas, esportivas ou para finalidade alheia à atividade rural prevista, o saldo devedor poderá ter seu vencimento antecipado.

A medida busca garantir que o benefício seja direcionado efetivamente à modernização e à melhoria das condições de trabalho dos agricultores familiares.

Segundo o deputado Evair Vieira de Melo, equipamentos convencionais podem elevar o custo de capital do agricultor familiar. Para o parlamentar, a inclusão desses veículos pode contribuir para otimizar a composição do parque de máquinas das propriedades.

Pronaf 2026/27 já contempla veículos adaptados ao trabalho rural

Existe, porém, uma diferença importante entre a proposta que tramita no Congresso e as atuais regras operacionais do crédito rural.

No Plano Safra 2026/27, o Conselho Monetário Nacional já estabeleceu, por meio da Resolução CMN nº 5.323, de 30 de junho de 2026, a possibilidade de financiamento, no âmbito do Pronaf Mais Alimentos, de motocicletas, triciclos, quadriciclos e veículos utilitários adaptados à atividade rural e destinados às atividades produtivas do estabelecimento.

A resolução estabelece condições próprias para essas operações dentro do Pronaf.

O PL 2.290/26, por sua vez, pretende incluir a previsão expressamente na legislação que instituiu o programa, além de estabelecer requisitos específicos para os veículos contemplados.

Essa distinção é importante porque o projeto não deve ser interpretado simplesmente como a criação, do zero, da possibilidade de um produtor financiar um quadriciclo. A proposta busca inserir esse tipo de veículo diretamente na lei e delimitar as condições para sua utilização como instrumento de trabalho.

Por que esses veículos interessam à agricultura familiar?

Para pequenas e médias propriedades, a discussão envolve principalmente eficiência operacional.

Nem todo trabalho dentro de uma fazenda exige uma máquina de grande porte. Percorrer uma cerca, levar ferramentas até um ponto distante, transportar pequenas quantidades de insumos ou acompanhar animais são exemplos de atividades que podem ser realizadas por equipamentos menores.

Entre as possíveis aplicações estão:

  • vistoria e manutenção de cercas;
  • deslocamento entre piquetes;
  • acompanhamento e manejo de animais;
  • transporte de ferramentas e equipamentos;
  • transporte de pequenas cargas;
  • distribuição de pequenos volumes de insumos;
  • deslocamento de trabalhadores dentro da propriedade;
  • inspeção de lavouras, pastagens e instalações.

Em propriedades pecuárias, especialmente aquelas com áreas extensas de pastagem, a possibilidade de percorrer rapidamente diferentes pontos da fazenda também transforma a mobilidade em uma questão de produtividade.

Quadriciclo não substitui o trator

A ampliação desses veículos no campo não representa uma substituição das máquinas agrícolas tradicionais.

Tratores continuam indispensáveis para operações que demandam potência, capacidade de tração e utilização de implementos. Caminhonetes também cumprem funções de transporte que um quadriciclo não consegue executar.

O espaço dos pequenos utilitários está justamente entre essas operações pesadas e os deslocamentos cotidianos mais simples.

Em vez de mobilizar uma máquina maior para cada tarefa, o produtor pode utilizar um equipamento dimensionado para trabalhos leves e deslocamentos internos.

Essa especialização ajuda a explicar por que quadriciclos e UTVs vêm encontrando espaço em propriedades rurais e por que o tema passou a fazer parte das políticas de financiamento voltadas ao produtor.

Segurança também precisa acompanhar o crescimento

A expansão do uso desses equipamentos exige atenção às condições de operação.

Apesar do porte reduzido, quadriciclos possuem características próprias de condução e estabilidade. Inclinações acentuadas, excesso de carga, velocidade incompatível com o terreno e utilização inadequada podem aumentar o risco de acidentes.

O produtor deve observar as especificações do fabricante, capacidade máxima de carga e reboque, condições do terreno e equipamentos de proteção recomendados para cada operação.

Ou seja, transformar o quadriciclo em ferramenta de trabalho também exige uso profissional e treinamento adequado.

Projeto ainda precisa avançar no Congresso

O Projeto de Lei 2.290/26 ainda não é lei.

Segundo a Câmara dos Deputados, a proposta será analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; Finanças e Tributação; e Constituição e Justiça e de Cidadania.

Para entrar definitivamente na legislação, o texto ainda precisa cumprir a tramitação no Congresso Nacional.

Independentemente do resultado, a discussão evidencia uma transformação que já pode ser observada nas propriedades rurais: o quadriciclo deixou de ser visto exclusivamente como veículo de lazer e passou a conquistar espaço como ferramenta auxiliar do produtor.

Para a agricultura familiar, onde custo, versatilidade e aproveitamento dos equipamentos pesam diretamente na rentabilidade, ampliar o acesso a máquinas compactas pode significar mais uma alternativa para modernizar a propriedade sem necessariamente recorrer a equipamentos de maior porte.

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