Projeto aprovado prevê pagamento de R$ 100 por cada javali abatido

Projeto aprovado pela Alesc prevê incentivo financeiro para caçadores e empresas autorizadas realizarem o controle do javali-europeu; medida busca reduzir prejuízos ao agronegócio, proteger a sanidade animal e conter uma das principais espécies invasoras do país.

O avanço do javali-europeu (Sus scrofa) segue preocupando produtores rurais e autoridades ambientais em Santa Catarina. Em resposta ao crescimento da população da espécie invasora e aos prejuízos causados às lavouras, à pecuária e à biodiversidade, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) aprovou um projeto de lei que prevê o pagamento de R$ 100 por animal abatido a controladores devidamente autorizados.

A proposta, aprovada pelo plenário na última quarta-feira (15), estabelece um incentivo financeiro para pessoas físicas e jurídicas cadastradas nos órgãos ambientais competentes e autorizadas a realizar o manejo da espécie. O objetivo é ampliar o número de controladores, reduzir a burocracia e fortalecer o combate a uma das maiores ameaças atuais ao campo catarinense.

Como funcionará o pagamento

Pelo texto aprovado, o incentivo será destinado exclusivamente a caçadores ou empresas que possuam autorização legal para atuar no controle do javali.

Para receber o benefício será necessário:

  • estar regularmente cadastrado junto aos órgãos ambientais;
  • possuir autorização para o manejo da espécie;
  • comprovar que o abate ocorreu dentro das normas legais;
  • apresentar autorização do proprietário quando a ação ocorrer em área privada.

O projeto ainda precisa seguir as próximas etapas do processo legislativo para que a medida entre efetivamente em vigor.

Javali: Uma praga que já atinge quase todo o estado

O incentivo surge em meio ao crescimento acelerado da população de javalis em Santa Catarina.

Segundo estimativas apresentadas durante a tramitação da proposta, mais de 200 mil animais já estão distribuídos por 236 municípios, o equivalente a aproximadamente 80% do território catarinense.

Com a redução de alimentos nas áreas de mata, grupos que podem reunir até 50 javalis passaram a invadir propriedades rurais, áreas urbanas e até rodovias, ampliando os riscos para produtores e para a população.

As regiões mais afetadas incluem:

  • Serra Catarinense;
  • Meio-Oeste;
  • Oeste do estado;
  • municípios como Lages, Campos Novos, São Joaquim, Capão Alto, Água Doce e Campo Belo do Sul;
  • entorno do Parque Nacional das Araucárias.

Prejuízos vão muito além das lavouras

Os danos provocados pelo javali ultrapassam as perdas agrícolas.

A espécie destrói plantações de:

  • milho;
  • soja;
  • feijão;
  • trigo;
  • hortaliças;
  • pastagens.

Também causa prejuízos a granjas de aves e propriedades de suínos, além de atacar a fauna nativa e comprometer áreas de preservação ambiental.

Outro fator que preocupa especialistas é sua elevada capacidade reprodutiva. As fêmeas podem gerar, em média, duas ninhadas por ano, com aproximadamente oito filhotes em cada gestação, acelerando ainda mais a expansão da população.

Além disso, a ausência de predadores naturais favorece o crescimento da espécie, que ainda pode cruzar com porcos domésticos, originando os chamados javaporcos, considerados ainda mais difíceis de controlar.

Risco para a sanidade animal

A preocupação não se limita aos prejuízos econômicos.

Os javalis podem atuar como vetores de doenças de grande impacto para a suinocultura brasileira, entre elas:

  • peste suína africana;
  • peste suína clássica;
  • febre aftosa.

O tema ganha ainda mais relevância em Santa Catarina, estado que ocupa posição estratégica na produção nacional de proteínas animais. O estado é líder brasileiro na produção e exportação de carne suína, segundo maior produtor de carne de frango e terceiro maior produtor de leite.

Desde 2007, Santa Catarina possui reconhecimento internacional como zona livre de febre aftosa sem vacinação e também é reconhecida como livre da peste suína clássica. Uma eventual introdução dessas enfermidades poderia provocar prejuízos expressivos ao setor produtivo e às exportações.

Mais de 120 mil javalis já foram abatidos

Apesar de o controle da espécie já ser autorizado pela legislação federal, os números mostram que o desafio permanece enorme.

Entre 2019 e 2024, mais de 120 mil javalis foram abatidos em Santa Catarina. Ainda assim, a população estimada continua elevada, evidenciando que o ritmo atual de controle não tem sido suficiente para reduzir a expansão da espécie.

Entre os principais obstáculos apontados estão:

  • número insuficiente de controladores;
  • burocracia para obtenção das autorizações;
  • alto custo das operações;
  • riscos enfrentados durante as ações de manejo.

Faesc defende integração entre setor produtivo e poder público

Na avaliação da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), o enfrentamento ao problema exige uma atuação conjunta entre produtores, órgãos ambientais e governo.

A entidade defende a desburocratização do manejo, o fortalecimento das equipes autorizadas e maior integração entre o poder público e o setor produtivo para reduzir os impactos causados pelo javali.

Segundo a federação, a presença da espécie invasora deixou de ser apenas uma questão agrícola e passou a representar também um desafio para a biodiversidade, a saúde pública, a segurança sanitária e a economia catarinense.

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