Lei 15.496/2026 começa com 2% em julho de 2027 e chega a 10% até janeiro de 2037; para a indústria de alimentos, o efeito aparece no custo e na oferta de grãos, açúcar e proteínas
Em vigor desde 4 de setembro, o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert) foi criado para reduzir a dependência brasileira de insumos importados. A Lei nº 15.496/2026 prevê uma mistura mínima de 2% de fertilizantes nacionais sintéticos e minerais a partir de julho de 2027. O percentual deve alcançar 10% até janeiro de 2037.
Para a indústria de alimentos, o programa recoloca o abastecimento agrícola na pauta da gestão de riscos, ainda que seus resultados dependam de regulamentação e de novos investimentos.
Quem ganha diretamente com o Profert são os produtores de fertilizantes e de matérias-primas instalados no Brasil. Nas fábricas de alimentos e bebidas, o efeito chega de forma indireta, pelo custo e pela oferta de grãos, óleos, açúcar, frutas e proteínas.
Mais de 80% dos fertilizantes consumidos no país vêm de fora, segundo o Banco Central. As compras externas somaram US$ 15,5 bilhões em 2025, e Rússia, China e Oriente Médio responderam por 59,2% desse valor.
O preço de referência da ureia entregue no Brasil subiu 50% em maio, na comparação com a média de janeiro e fevereiro. Como as importações se concentram no segundo semestre, o Banco Central avalia que um choque prolongado pode atingir a safra de 2027.
O portal especializado Food Connection mostrou, em análise sobre gestão de riscos na indústria de alimentos, que cerca de um terço do comércio marítimo global de fertilizantes atravessa o Estreito de Ormuz, localizado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã.
Interrupções nessa rota podem elevar preços, ampliar prazos de entrega e reduzir a previsibilidade do abastecimento, com efeitos posteriores sobre grãos, óleos e ração. O Profert acrescenta uma resposta de longo prazo à dependência brasileira, mas não elimina a necessidade imediata de mapear fornecedores, estoques e alternativas de compra.
Empresas precisam definir gatilhos
A gestão começa por identificar quais ingredientes, embalagens, serviços e matérias-primas conseguem parar a produção. O levantamento precisa alcançar também os fornecedores indiretos, as unidades de processamento, os portos e as rotas compartilhadas.
Comparar o tempo necessário para recompor um fornecimento com o tempo que a fábrica aguenta operar sem ele ajuda a ordenar prioridades. A metodologia apresentada pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) orienta decisões de estoque, homologação de fornecedores e capacidade alternativa.
A diversificação precisa considerar origem, capacidade, qualidade e rota. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) alerta que aumentar estoques ou duplicar fornecedores sem critério pode elevar custos sem garantir continuidade.
Os contratos também podem fixar fórmulas de reajuste, janelas de entrega e responsabilidades em caso de interrupção. Câmbio, preço entregue, frete, dias de estoque e prazo de homologação funcionam como indicadores, e cada um precisa ter um limite que dispara uma decisão combinada antes, como antecipar compras ou acionar outra fonte.
JBS e Nestlé apresentam práticas documentadas
No relatório anual de 2025, o frigorífico JBS informa que mapeia exposições a commodities e combina contratos a termo com instrumentos financeiros para reduzir oscilações de preços. A companhia também acompanha capacidade produtiva, custos de utilidades, câmbio e barreiras comerciais.
Já a Nestlé afirma manter planos de continuidade para unidades essenciais, gestão de preços de commodities, flexibilidade de fornecedores e mais de uma opção de abastecimento.
Os dois casos mostram o que as empresas declaram fazer e não comprovam, sozinhos, a eficácia dessas práticas. Enquanto os efeitos do Profert não chegam ao mercado, a continuidade da produção depende do que cada fábrica já mapeou, dos limites que definiu para agir e das alternativas que testou antes da primeira interrupção.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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