Depois de um recorde nas exportações em 2025, produtores enfrentam queda nas cotações e redução da área plantada; seleção de características valorizadas pelo mercado ganha espaço.
O mercado brasileiro de amendoim vive um momento de ajuste. Depois de alcançar um recorde nas exportações em 2025, o setor enfrenta um cenário menos favorável de preços, com impacto direto sobre as margens dos produtores e sobre as decisões de plantio para a safra seguinte O movimento coloca em evidência uma questão que vai além do aumento da produtividade e passa pela capacidade de capturar mais valor em um mercado internacional cada vez mais orientado por especificações de qualidade.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. No ano passado, o Brasil exportou 311,5 mil toneladas de amendoim descascado, 37,3% mais do que em 2024. A receita, entretanto, cresceu apenas 1,9%, para US$ 366,9 milhões, refletindo a forte queda das cotações. O preço médio das exportações recuou de US$ 1.636,75 para US$ 1.317,3 por tonelada no período. O país vendeu mais, mas recebeu praticamente o mesmo valor por unidade.
O impacto chegou ao campo às decisões de plantio. Na safra 2025/26, a área cultivada com amendoim em São Paulo, principal estado produtor, recuou 8,7%, segundo o Instituto de Economia Agrícola (IEA). A produção caiu 2,8%, apesar de um ganho de 6,4% na produtividade. O estado responde por aproximadamente 80% da produção brasileira.
O cenário evidencia uma mudança na equação econômica da cultura. Em um ambiente de preços pressionados, a capacidade de diferenciar o produto e atender mercados dispostos a pagar mais por determinadas características ganha importância.
Uma dessas características é o teor de ácido oleico. Variedades de amendoim com alto teor de ácido oleico são valorizadas pela indústria de alimentos por apresentarem maior estabilidade oxidativa e vida de prateleira mais longa. A característica também ganhou relevância nas cadeias voltadas à exportação, nas quais especificações técnicas e padrões de qualidade têm peso crescente na escolha dos fornecedores.
O desafio começa antes mesmo de a lavoura chegar ao campo. Para produzir um determinado padrão de grão, é preciso conhecer as características do material que será semeado. A análise de sementes passa, assim, a ser uma ferramenta para reduzir incertezas e orientar a escolha de cultivares de acordo com o mercado que se pretende atender.
É nesse ponto que novas ferramentas de análise ganham evidência. Uma tecnologia desenvolvida pela startup FIT em parceria com a Embrapa Instrumentação utiliza ressonância magnética nuclear para analisar sementes de amendoim e identificar características como teor de óleo e percentual de ácido oleico. A técnica permite avaliar grandes quantidades de sementes de forma mais rápida do que métodos laboratoriais convencionais, como a cromatografia gasosa. “O ponto central não é apenas analisar a semente, mas gerar uma informação que possa ser utilizada antes do plantio. Quanto mais cedo o produtor conhece as características do material que vai levar para o campo, maior é sua capacidade de tomar decisões alinhadas ao mercado”, afirma Daniel Consalter, CEO da FIT.

A tecnologia é particularmente relevante para uma cadeia na qual a qualidade também está associada à segurança dos alimentos. Para acessar mercados como o europeu, o amendoim brasileiro precisa atender a requisitos rigorosos de controle, incluindo limites para contaminantes como as aflatoxinas. Nesse ambiente, rastreabilidade, padronização e capacidade de comprovar características do produto tornam-se elementos importantes da competitividade.
A importância do mercado externo tende a manter essa pressão. Em 2025, o Brasil exportou amendoim descascado para 86 países. Rússia, China e Argélia concentraram 54% dos volumes, enquanto os Países Baixos responderam por 8% e funcionam também como importante porta de entrada para o mercado europeu.
Ao mesmo tempo, o país amplia a agregação de valor à produção. As exportações de óleo de amendoim alcançaram US$ 264,6 milhões em 2025, alta de 147,4% sobre o ano anterior, segundo dados do Ministério da Agricultura. O movimento indica que a cadeia brasileira vem ocupando diferentes espaços no mercado internacional, do grão às matérias-primas processadas.
No mercado doméstico, o amendoim também desempenha um papel particular no sistema produtivo paulista. A cultura é tradicionalmente utilizada na rotação com a cana-de-açúcar, contribuindo para a recuperação das condições do solo entre os ciclos da cana.
“A combinação de pressão sobre preços, exigências crescentes dos compradores e avanço das exportações coloca em evidência a importância da aplicação de tecnologias sofisticadas de análise que permitem definir qual o produto que se busca produzir e para qual mercado. Para o amendoim brasileiro, essa pode ser uma das principais fronteiras de competitividade nos próximos anos”, conclui Daniel Consalter.
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ℹ️ Conteúdo publicado por Myllena Seifarth sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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