Pecuaristas dos EUA enfrentam queda de quase US$ 40 por 100 libras no preço do gado justamente quando o país precisa reter fêmeas para reconstruir um dos menores rebanhos em décadas.
Uma nova contradição chama atenção no mercado de carne bovina dos Estados Unidos. Enquanto o consumidor continua pagando valores historicamente elevados pela proteína, o preço recebido pelos pecuaristas caiu cerca de 14% nos últimos meses, aumentando as dúvidas sobre a velocidade de recuperação do rebanho americano.
Análise da American Farm Bureau Federation (AFBF) aponta que o boi terminado perdeu aproximadamente US$ 40 por 100 libras. No mercado de reposição, alguns bezerros já são comercializados por valores entre US$ 300 e US$ 400 menores do que há apenas dois meses.
A queda acontece justamente quando os Estados Unidos precisam estimular a retenção de fêmeas. Em julho, o país contabilizava apenas 28,5 milhões de vacas de corte, enquanto o número de novilhas destinadas à reposição havia crescido 3% em relação ao ano anterior.
Mais carne importada aumenta a pressão
O movimento ganhou força após o governo Donald Trump ampliar temporariamente em 300 mil toneladas a quantidade de carne bovina que pode entrar no mercado americano em condições tarifárias mais favoráveis.
A intenção é aumentar rapidamente a oferta e aliviar principalmente os preços da carne moída. Para os pecuaristas, entretanto, existe uma preocupação: pressionar demais o preço do gado agora pode reduzir justamente o incentivo necessário para reconstruir o rebanho.
O momento também é sensível porque aproximadamente 70% dos bezerros nascidos durante a primavera americana costumam ser comercializados entre setembro e novembro.
Importações já estão em níveis elevados
Os Estados Unidos já vinham aumentando fortemente suas compras externas.
Nos primeiros seis meses de 2026, o país importou mais de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina, cerca de 12% acima do mesmo período do ano anterior.
A necessidade de produto estrangeiro permanece elevada porque a produção doméstica continua limitada. Além disso, a seca em importantes regiões pecuárias dificulta a retenção de matrizes e novilhas.
O resultado é uma situação incomum: o gado ficou mais barato para o pecuarista, mas a carne continua cara para o consumidor.
Brasil ganha espaço, mas disputa pode ficar mais política
Para o Brasil, a baixa disponibilidade de bovinos nos Estados Unidos continua criando oportunidades. Quanto mais lenta for a recomposição do rebanho americano, maior tende a ser a necessidade de carne importada.
Brasil, Austrália, Nova Zelândia, Canadá e México estão entre os fornecedores que disputam esse mercado.
Por outro lado, o avanço das importações aumenta a resistência dos pecuaristas americanos e pode fortalecer discussões sobre rotulagem de origem, tarifas e proteção da produção doméstica.
A grande questão passa a ser o comportamento do produtor.
Se a queda do preço do gado diminuir o interesse pela retenção de novilhas, a recuperação do rebanho americano poderá ser novamente adiada. E, nesse caso, os Estados Unidos continuarão dependendo fortemente do mercado internacional para equilibrar sua oferta de carne bovina — cenário que mantém o Brasil diretamente no centro dessa disputa.
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