Aplicada com chama controlada, prática remove pelos que acumulam sujeira e podem dificultar a preparação para a ordenha, mas exige capacitação e não substitui os cuidados sanitários
A aproximação de uma chama do úbere de uma vaca pode causar espanto, mas algumas propriedades leiteiras adotam esse procedimento para retirar os pelos da região. Conhecida como queima controlada ou chamuscamento dos pelos, a técnica busca facilitar a limpeza realizada antes da ordenha.
Os pelos mais compridos podem reter esterco, lama, umidade e resíduos da cama. Quando isso acontece, a preparação dos tetos se torna mais trabalhosa e aumenta a possibilidade de sujeiras permanecerem próximas ao conjunto de ordenha.
Um programa de biossegurança da Embrapa considera o controle dos pelos do úbere e da cauda uma medida capaz de diminuir o acúmulo de sujidades. O documento, entretanto, não determina que essa retirada seja feita obrigatoriamente com fogo.
O objetivo não é queimar a pele
O procedimento utiliza uma chama de propano amarela ou alaranjada, aplicada rapidamente e sem contato prolongado com o animal. Essa chama é considerada mais fria do que a chama azul de um maçarico convencional, mas continua oferecendo risco se for manejada incorretamente.
Orientações técnicas sobre o chamuscamento do úbere indicam que a aplicação deve durar poucos segundos. Como não há contato físico com a pele nem o ruído produzido por uma máquina de tosquia, algumas vacas podem permanecer mais tranquilas durante o manejo.
Antes do procedimento, o úbere precisa estar livre de esterco, palha e outros resíduos capazes de entrar em combustão. A técnica também não deve ser realizada próxima de feno, madeira, papel ou demais materiais inflamáveis.
A retirada dos pelos evita mastite?
Manter o úbere limpo é importante para a qualidade do leite. Entre as fontes de contaminação do leite cru estão os quartos mamários infectados, a pele dos tetos, os equipamentos de ordenha, os utensílios e as mãos do ordenhador.
Isso não significa, porém, que retirar os pelos seja suficiente para prevenir mastite ou reduzir a carga bacteriana.
Um estudo experimental comparou glândulas mamárias com os pelos chamuscados e regiões mantidas sem o procedimento. Os pesquisadores não encontraram diferenças significativas na quantidade de bactérias recuperadas da pele dos tetos ou do leite.
Outra pesquisa científica, realizada em quatro propriedades orgânicas, identificou redução significativa de alguns grupos de esporos bacterianos no leite em pó produzido após a retirada dos pelos. No leite cru, contudo, as mudanças não foram estatisticamente significativas. Os autores também reconheceram que o pequeno número de fazendas limita a aplicação dos resultados a outros sistemas produtivos.
Portanto, o chamuscamento deve ser entendido como uma ferramenta auxiliar para facilitar a higiene, e não como tratamento ou proteção garantida contra doenças.
Procedimento não deve ser improvisado
Mesmo sendo rápida, a exposição ao fogo pode provocar queimaduras ou incêndios quando realizada sem equipamento apropriado. Um código de bem-estar voltado aos bovinos leiteiros reconhece a técnica, mas ressalta que a execução correta é indispensável para evitar ferimentos.
A adoção deve ocorrer com orientação profissional, capacitação dos responsáveis e avaliação das condições da propriedade. Também não substitui limpeza das instalações, pré e pós-dipping, secagem dos tetos, manutenção da ordenhadeira e acompanhamento veterinário.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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