Milheto, braquiárias, crotalárias e outras plantas podem entrar na lavoura sem a intenção de produzir grãos para venda. O retorno aparece de outra maneira: raízes, palhada, ciclagem de nutrientes e um solo mais preparado para sustentar a soja seguinte.
À primeira vista, pode parecer contraditório. O produtor compra sementes, entra novamente com máquinas na área e estabelece uma cultura que, em muitos casos, não será colhida nem terá sua produção comercializada. Depois de cumprir sua função, ela é manejada para dar lugar à soja.
Mas aquilo que permanece na lavoura pode ser justamente o produto mais importante desse cultivo.
As chamadas plantas de cobertura transformam a entressafra em uma etapa ativa do sistema produtivo. Enquanto crescem, suas raízes exploram diferentes camadas do perfil; a parte aérea produz biomassa; nutrientes são absorvidos e posteriormente devolvidos ao sistema; e a superfície deixa de permanecer simplesmente exposta entre duas culturas comerciais.
É por isso que a pergunta econômica não deveria ser apenas quanto aquela cultura rende diretamente, mas quanto ela pode ajudar a proteger e melhorar o ambiente no qual será produzida a próxima soja.
Uma cultura plantada para trabalhar para o solo
O princípio é diferente daquele de uma lavoura convencional destinada à comercialização. Milheto, braquiárias, crotalárias e diferentes misturas de espécies podem ser utilizadas justamente para produzir biomassa e raízes.
No Sistema Plantio Direto, isso é particularmente importante. Não basta deixar de revolver o solo; é preciso manter cobertura e diversificar o sistema ao longo do tempo.
A palhada funciona como uma camada de proteção sobre a superfície. Ela ajuda a reduzir o impacto direto das gotas de chuva, dificulta processos erosivos e cria condições mais favoráveis à conservação da umidade. Dependendo da espécie e das condições ambientais, também pode permanecer por períodos diferentes antes de sua decomposição.
Abaixo da superfície acontece uma transformação menos visível.
As raízes exploram o perfil do solo e deixam canais após sua decomposição. Ao mesmo tempo, alimentam processos biológicos e participam da construção de um ambiente físico mais favorável às culturas seguintes.
É uma diferença importante: o benefício da planta de cobertura não está apenas naquilo que o produtor enxerga acima do solo.
Nutrientes não desaparecem quando a cobertura é dessecada
Outro mecanismo importante é a ciclagem de nutrientes.
Durante seu desenvolvimento, a planta absorve elementos disponíveis no solo e os incorpora à biomassa. Depois do manejo e da decomposição dos resíduos, parte desses nutrientes volta gradativamente ao sistema.
Pesquisa realizada no Cerrado goiano avaliou Urochloa ruziziensis, Urochloa brizantha, milheto e uma combinação de Urochloa ruziziensis com guandu. Os resultados mostraram que as duas braquiárias apresentaram maior eficiência no acúmulo e na liberação de nutrientes, principalmente potássio.
Isso não significa produzir fertilizante gratuitamente nem eliminar a necessidade de adubação. A lógica é outra: parte dos nutrientes presentes no sistema pode ser capturada, temporariamente armazenada na biomassa e posteriormente reciclada, reduzindo perdas e alterando sua dinâmica ao longo do ciclo agrícola.
Em uma agricultura pressionada pelo custo dos insumos, compreender essa movimentação passa a ter também importância econômica.
Nem toda cobertura entrega o mesmo resultado
É justamente aqui que o assunto se torna mais complexo do que simplesmente recomendar “plantar cobertura”.
A escolha precisa considerar clima, solo, janela disponível, cultura seguinte, quantidade de biomassa desejada, velocidade de decomposição, disponibilidade de água e problemas fitossanitários existentes na propriedade.
Em trabalho da Embrapa Milho e Sorgo realizado na região Central de Minas Gerais, diferentes espécies foram cultivadas exclusivamente para cobertura antes da soja. As forrageiras apresentaram destaque na produção final de matéria seca, e a maior produtividade de grãos da soja subsequente foi observada sobre o capim BRS Quênia naquele experimento. Sorgo biomassa e capim ruziziensis também apareceram como opções para o sistema avaliado.
O resultado ajuda a mostrar por que não existe uma receita universal.
Uma espécie excelente para produzir grande volume de palha pode não ser a melhor opção para determinado problema de nematoide. Outra pode oferecer rápida ciclagem de nutrientes, enquanto o produtor procura justamente uma cobertura capaz de permanecer mais tempo protegendo o solo.
A cobertura precisa ser escolhida pela função que deverá desempenhar.
O efeito pode chegar também aos nematoides
A diversificação do sistema ganha importância adicional em áreas com problemas fitossanitários.
Um estudo de longa duração publicado na Pesquisa Agropecuária Brasileira avaliou sistemas envolvendo monocultivo, sucessão e rotação de culturas durante aproximadamente uma década. Os sistemas com sucessão e rotação favoreceram maior produtividade da soja e apresentaram redução da população do nematoide de cisto da soja, Heterodera glycines, nas condições avaliadas.
Isso não significa que qualquer planta de cobertura controle qualquer nematoide.
Ao contrário: a espécie utilizada precisa ser cuidadosamente definida, porque plantas diferentes apresentam comportamentos diferentes diante das espécies de nematoides presentes na propriedade. Uma escolha inadequada pode não entregar o efeito esperado.
O ponto central é que a entressafra também pode fazer parte da estratégia fitossanitária da fazenda, em vez de ser tratada apenas como intervalo entre duas safras.
Mais palhada significa automaticamente mais soja?
Não.
E essa talvez seja uma das informações mais importantes para o produtor.
Há experimentos em que determinadas coberturas melhoraram componentes do sistema sem produzir diferença estatisticamente significativa na produtividade da soja imediatamente seguinte. Pesquisa conduzida no Cerrado de Goiás, por exemplo, encontrou diferenças importantes na ciclagem de nutrientes entre as coberturas avaliadas, mas não detectou efeito significativo delas sobre a produtividade de grãos da soja naquele estudo.
Outro trabalho avaliando plantas de cobertura e épocas de dessecação também mostrou que o manejo interfere no resultado. Para algumas espécies, realizar o manejo químico muito próximo da semeadura da soja provocou redução significativa de produtividade, enquanto outras responderam de maneira diferente.
É justamente por isso que cobertura vegetal deve ser tratada como sistema agronômico, e não como produto milagroso.
O ganho pode aparecer na produtividade, mas também pode surgir na conservação de água, redução da erosão, ciclagem de nutrientes, supressão de determinadas plantas daninhas, construção de matéria orgânica, melhoria do ambiente radicular e maior estabilidade da lavoura diante de condições adversas.
O que acontece debaixo da palhada importa tanto quanto aquilo que será colhido
Em regiões de produção intensiva de soja, especialmente onde a janela entre safras permite estabelecer outra espécie, deixar o solo simplesmente em pousio pode significar abrir mão de meses nos quais raízes poderiam continuar trabalhando dentro do perfil.
E essa percepção muda a conta.
Uma cultura de cobertura possui custos de sementes, implantação e manejo. Portanto, o retorno precisa ser avaliado dentro do sistema de produção e ao longo do tempo, e não presumido apenas porque existe palhada sobre o terreno.
Por outro lado, limitar a análise ao fato de aquela planta não produzir uma carga de grãos para venda também ignora parte importante do seu valor agronômico.
A Embrapa destaca as plantas de cobertura como componentes importantes do Sistema Plantio Direto e vem avaliando diferentes espécies justamente porque características como produção de matéria seca, permanência dos resíduos e adaptação ambiental determinam sua eficiência.
A cultura que não chega à colheitadeira pode participar da próxima safra
É essa a aparente contradição das plantas de cobertura.
Elas podem sair da lavoura sem produzir uma única saca comercial e, ainda assim, deixar um patrimônio agronômico para a cultura seguinte.
O produtor não está necessariamente plantando para colher aquela espécie. Está utilizando uma planta para executar funções que um solo descoberto simplesmente não executaria sozinho: produzir raízes e biomassa, movimentar nutrientes, proteger a superfície e diversificar biologicamente o sistema.
O efeito final dependerá da espécie escolhida, das condições da propriedade e da qualidade do manejo. Não existe garantia de aumento imediato da produtividade da soja — e a própria pesquisa brasileira demonstra isso.
Mas é justamente essa visão de longo prazo que explica por que uma cultura aparentemente “sem colheita” pode fazer sentido econômico.
Na agricultura de alta produtividade, nem tudo aquilo que gera valor precisa passar pela colheitadeira.
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