Por que o suor do cavalo pode formar uma espuma branca?

A espuma que aparece principalmente no pescoço, peito e entre as pernas após exercícios intensos não é sabão nem sinal automático de problema: ela está ligada a uma proteína presente no suor dos equinos e revela uma adaptação importante para o controle da temperatura corporal.

Quem acompanha cavalos em provas, treinamentos ou mesmo durante um trabalho mais intenso provavelmente já viu a cena: o animal começa a suar e, depois de algum tempo, uma espuma branca aparece sobre a pelagem, especialmente nas regiões onde existe maior atrito. À primeira vista, a aparência pode causar estranhamento. Mas existe uma explicação fisiológica bastante interessante por trás do fenômeno.

O responsável é, em grande parte, um componente natural do suor dos equinos: uma proteína chamada latherina. Diferentemente do suor humano, relativamente pobre em proteínas, o suor do cavalo possui quantidade significativa delas. A latherina funciona como um surfactante natural e ajuda a explicar não apenas a espuma, mas também como esses animais conseguem utilizar a transpiração de maneira eficiente para perder calor.

O cavalo enfrenta um desafio particular quando precisa se resfriar.

Durante exercício intenso, seus músculos produzem grande quantidade de calor. Para evitar que a temperatura corporal suba excessivamente, uma das principais ferramentas do organismo é a evaporação do suor na superfície corporal.

Existe, porém, uma barreira: diferentemente dos humanos, o cavalo possui uma pelagem que dificulta o deslocamento rápido da água da pele até a superfície dos pelos.

É justamente nesse ponto que entra a latherina.

Pesquisas conduzidas por cientistas da Universidade de Glasgow mostraram que essa proteína apresenta forte atividade surfactante, ou seja, reduz a tensão superficial da água. Na prática, ela ajuda o suor a molhar e atravessar uma superfície naturalmente mais resistente à água, espalhando o líquido pela pelagem e aumentando a área disponível para evaporação.

É uma solução biológica sofisticada para um problema bastante simples: levar água até a superfície da pelagem para que ela possa evaporar e retirar calor do organismo.

E de onde vem a espuma branca?

A mesma propriedade que torna a latherina eficiente para espalhar o suor também favorece a formação da espuma.

Quando o suor rico nessa proteína é movimentado e misturado ao ar, pequenas bolhas podem se formar. O atrito potencializa esse processo, razão pela qual a espuma costuma ficar mais evidente em pontos de contato e movimentação, como entre as pernas, no peito, pescoço, região da sela e áreas onde equipamentos encostam na pelagem.

Estudos sobre a latherina indicam que a espuma é essencialmente um efeito secundário das propriedades surfactantes dessa proteína. Ou seja: o organismo do cavalo não produz latherina para fabricar espuma. A função mais provável é favorecer o resfriamento; a espuma surge como consequência.

Por isso, a comparação popular com um “sabão natural” ajuda a visualizar o fenômeno, embora não seja tecnicamente perfeita.

Espuma significa que o cavalo trabalhou demais?

Não necessariamente.

A presença de espuma, isoladamente, não permite concluir que um cavalo esteja exausto, desidratado ou submetido a esforço excessivo. Intensidade do exercício, temperatura ambiente, umidade, quantidade de suor, condicionamento do animal e atrito da pelagem interferem na aparência final.

Um cavalo bem condicionado também pode apresentar espuma durante exercícios.

O que merece atenção é o conjunto de sinais apresentado pelo animal, especialmente em dias quentes. Frequência respiratória e cardíaca persistentemente elevadas, fraqueza, alterações de comportamento, dificuldade de recuperação e sinais de desidratação exigem atenção.

Existe inclusive uma situação potencialmente mais preocupante do que encontrar um cavalo bastante suado: um animal submetido ao calor e ao exercício que deveria estar suando, mas praticamente não transpira.

A incapacidade parcial ou total de produzir suor é conhecida como anidrose e compromete uma das principais formas utilizadas pelo cavalo para dissipar calor.

Suar muito também significa perder eletrólitos

A espuma pode chamar mais atenção visualmente, mas há outra consequência do suor muito mais relevante para o manejo: a perda de água e minerais.

O suor dos cavalos apresenta concentrações importantes de sódio, cloreto e potássio, além de perdas de outros eletrólitos. Em animais submetidos a exercício prolongado ou mantidos em ambientes quentes, essas perdas podem se tornar expressivas.

Em condições de calor, um cavalo pode perder grandes volumes de líquido através da transpiração. Material recente da University of Florida cita perdas que podem chegar a 15 litros de fluido por hora no verão, dependendo das condições e da intensidade do exercício.

É por isso que água limpa e fresca, recuperação adequada e manejo nutricional compatível com o nível de atividade são tão importantes. Em animais de esporte ou submetidos a trabalho intenso, a reposição de eletrólitos precisa considerar o esforço, as condições ambientais, a alimentação e o estado de hidratação.

Uma adaptação que diferencia os equinos

A latherina torna o fenômeno ainda mais curioso porque cavalos e outros equídeos apresentam uma estratégia incomum entre os mamíferos.

Uma pesquisa publicada na PLOS ONE identificou a proteína em diferentes espécies de equídeos e mostrou que sua atividade surfactante ocorre mesmo em concentrações relativamente baixas. Os pesquisadores associam essa característica justamente à necessidade de transportar rapidamente a água do suor através de uma pelagem espessa e naturalmente resistente à água.

Estudos posteriores avançaram na compreensão da estrutura molecular da proteína e reforçaram sua capacidade de interagir com interfaces entre água e superfícies menos favoráveis à umidade. Curiosamente, a latherina também está presente na saliva dos cavalos, onde pode contribuir para umedecer e processar alimentos secos e fibrosos.

Portanto, aquela espuma branca vista depois de uma cavalgada, treinamento ou competição é muito mais do que uma curiosidade visual.

Ela é consequência de um mecanismo biológico que ajuda o cavalo a transformar suor em uma eficiente ferramenta de resfriamento. A latherina facilita a distribuição da água sobre a pelagem; a evaporação retira calor do corpo; e o movimento e o atrito podem transformar parte desse suor rico em proteínas na característica espuma branca.

Entender esse processo também ajuda a separar um fenômeno fisiológico normal dos sinais que realmente merecem atenção durante exercícios e períodos de calor intenso.

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