Por que o diesel das máquinas é mais barato nos EUA? Agrônomo brasileiro mostra na prática

Engenheiro agrônomo Ramon Araujo apresenta o abastecimento das máquinas e chama atenção para o diesel com tratamento tributário diferenciado; apoio ao agricultor americano também inclui seguro subvencionado, proteção de renda e assistência para desastres.

Antes de as colheitadeiras avançarem sobre a lavoura, a operação começa ao lado de um tanque de combustível sobre rodas. Puxado por uma caminhonete, o trailer leva o diesel até as máquinas e concentra parte da estrutura necessária para colocá-las novamente em trabalho.

É essa rotina que o engenheiro agrônomo brasileiro Ramon Araujo, que vive nos Estados Unidos, apresenta em um vídeo sobre o dia a dia da colheita. Entre mangueiras, reservatórios e máquinas de grande porte, ele mostra como o abastecimento é organizado para aproveitar o tempo disponível no campo.

“É assim que a gente começa o dia aqui nos Estados Unidos, abastecendo as máquinas”, conta.

O equipamento chama atenção pelo tamanho: segundo Ramon, o tanque transporta 3.740 litros de combustível, enquanto cada colheitadeira apresentada comporta, em média, 1.250 litros. Para encher três máquinas dessa capacidade, partindo de tanques vazios, seriam necessários 3.750 litros — praticamente toda a carga do trailer.

Mas a demonstração vai além da logística. Ao explicar que as máquinas recebem diesel vermelho, com tributação diferente daquela aplicada ao combustível rodoviário, o agrônomo abre uma discussão sobre custo de produção e apoio público à agricultura americana.

Um posto móvel na lavoura — e uma cor que identifica o tratamento tributário

Na operação descrita por Ramon, o abastecimento reúne dois produtos: o diesel e o DEF, fluido equivalente ao Arla 32 utilizado no Brasil. Cada um tem reservatório e circuito próprios.

O DEF atua no sistema de tratamento dos gases de escape dos motores equipados com redução catalítica seletiva, o SCR. É uma solução de ureia de alta pureza e água desmineralizada, abastecida em tanque separado; não deve ser misturada ao diesel.

Ramon destaca as mangueiras e a praticidade de realizar o procedimento sozinho, enquanto grava. Depois das colheitadeiras, ele mostra o abastecimento do trator que trabalha com a carreta graneleira, conhecida no campo como “bazuca”.

“Eu sozinho, com o celular na mão, consigo fazer todo esse processo”, relata.

A lógica é levar o combustível até a frente de trabalho, reduzindo deslocamentos das máquinas para abastecer. Durante a colheita, essa organização ajuda a aproveitar as condições favoráveis de operação.

Equipamentos dessa categoria são comercializados nos Estados Unidos com diferentes capacidades. A Truck & Transportation, por exemplo, apresenta trailers FuelMate de 500, 750 e 990 galões, equivalentes a aproximadamente 1.893, 2.839 e 3.748 litros. A página também descreve uma configuração com tanques separados, bombas e mangueiras para diesel e DEF. A referência ilustra o funcionamento desse tipo de equipamento, sem permitir identificar a marca ou o modelo utilizado por Ramon.

FuelMate - abastecedor de combustivel para o campo - estados unidos
Foto: Divulgação

É ao falar do combustível que o agrônomo destaca uma diferença importante para a conta da fazenda: o diesel vermelho americano é marcado com corante para identificar sua destinação a usos com isenção de impostos rodoviários.

Chamado de red diesel ou dyed diesel, ele abastece máquinas agrícolas, mas também equipamentos de construção, geradores e outras operações elegíveis fora das rodovias. Portanto, embora seja associado ao campo, não é exclusivo dos produtores rurais.

Já o combustível usado normalmente em caminhonetes e caminhões nas estradas é o diesel rodoviário, chamado de clear diesel, sem o corante vermelho de identificação fiscal.

No vídeo, Ramon se refere a esse produto como “diesel verde”. A expressão, porém, não deve ser entendida como uma classificação tributária nacional equivalente à do vermelho. O diesel pode apresentar tonalidade esverdeada, e sua cor natural pode variar; isso, isoladamente, não define qualidade nem significa que seja combustível renovável.

Também há uma diferença importante em relação ao Brasil. Por aqui, o diesel S500 recebe corante vermelho para diferenciá-lo do S10. Assim, a semelhança visual mencionada no relato não significa que o produto brasileiro tenha a mesma isenção ou destinação fiscal do americano.

Quanto essa diferença pode representar no tanque da colheitadeira?

Para entender o impacto econômico, é necessário separar a diferença de impostos do preço efetivamente cobrado pelo fornecedor.

Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, a EIA, o diesel rodoviário tem uma carga federal de US$ 0,244 por galão: US$ 0,243 de imposto e US$ 0,001 destinado ao fundo relacionado a vazamentos de tanques subterrâneos. Os impostos e taxas estaduais somavam, em média, US$ 0,3586 por galão em janeiro de 2026.

Considerando um galão americano de aproximadamente 3,785 litros, a parcela federal de US$ 0,243 equivale a US$ 0,064 por litro. Somada à média estadual citada, a referência chega a aproximadamente US$ 0,159 por litro.

Aplicada aos volumes apresentados por Ramon, a conta fica assim:

Volume abastecidoParcela federal de US$ 0,243/galãoFederal + média estadual, se integralmente dispensadas
Colheitadeira: 1.250 litrosUS$ 80,24US$ 198,66
Trailer: 3.740 litrosUS$ 240,08US$ 594,38
Operação acumulada: 10 mil litrosUS$ 641,94US$ 1.589,26

Em um exemplo hipotético, se o diesel rodoviário custasse US$ 4 por galão e a diferença fosse exatamente US$ 0,6016 em tributos dispensados, o vermelho sairia por cerca de US$ 3,40 por galão. A redução seria de aproximadamente 15%, mantendo iguais todos os demais componentes do preço.

O valor pago na prática depende de localização, frete, volume contratado, margem comercial e tratamento tributário. Como o relato não informa estado, data de compra ou nota de abastecimento, não é possível atribuir um preço real ao combustível utilizado por Ramon.

O agrônomo também alerta para o risco de colocar diesel vermelho em uma caminhonete e circular nas estradas. Essa advertência corresponde à regra geral americana: ser proprietário rural não autoriza automaticamente o uso do combustível marcado em um veículo rodoviário, mesmo quando a viagem tem relação com a fazenda.

Há, entretanto, uma atualização relevante para quem acompanha o assunto em 2026. O IRS, órgão tributário federal americano, anunciou uma suspensão temporária das penalidades federais pelo uso rodoviário do diesel vermelho entre 1º de outubro e 31 de dezembro de 2026. A medida não altera automaticamente impostos e restrições estaduais.

Por isso, o alerta do vídeo precisa ser entendido à luz da data da gravação e da legislação aplicável. A flexibilização temporária amplia o uso do combustível; para quem já o utilizava legalmente nas máquinas agrícolas, ela não cria uma nova isenção naquele abastecimento.

Além do diesel: como o governo americano apoia seus agricultores

Ao comparar as condições de trabalho, Ramon avalia que a vida do produtor nos Estados Unidos é mais fácil que a do brasileiro. A percepção encontra eco nos comentários sobre a publicação, mas uma comparação entre os países exige considerar culturas, regiões, custos e acesso efetivo aos programas.

Ainda assim, o diesel evidencia apenas uma parte do apoio público americano. Há instrumentos que reduzem despesas, compartilham riscos e oferecem assistência financeira quando ocorrem perdas. Nem todos são subsídios diretos: empréstimos, por exemplo, precisam ser pagos.

Seguro rural com parte do prêmio paga pelo governo. O programa federal de seguro agrícola subvenciona uma parcela do custo das apólices. A participação pública varia conforme a modalidade e o nível de cobertura. Em uma das configurações de unidades empresariais previstas na tabela da Risk Management Agency, a cobertura de 75% tem subsídio de 80% do prêmio. Em uma simulação de prêmio de US$ 10 mil, seriam US$ 8 mil de participação pública e US$ 2 mil do produtor, sem considerar eventuais taxas. Isso se refere ao custo do seguro, e não a uma garantia de pagamento de 80% de qualquer prejuízo.

Proteção contra queda de preços e de receita. Dois programas centrais são o Price Loss Coverage (PLC) e o Agriculture Risk Coverage (ARC). O PLC pode gerar pagamentos quando o preço efetivo de uma commodity elegível fica abaixo do preço de referência. O ARC oferece proteção de receita por critérios relacionados ao condado ou à propriedade. Há regras de adesão, áreas de referência e limites; não se trata de um complemento automático para toda a produção comercializada.

Assistência para perdas climáticas e pecuárias. A Farm Service Agency administra programas como o Livestock Forage Disaster Program (LFP), voltado a perdas de pastagem por secas e determinadas situações de incêndio, e o Livestock Indemnity Program (LIP), que pode compensar mortes de animais acima da mortalidade normal por eventos elegíveis. A concessão depende dos critérios e da comprovação das perdas.

Crédito direto e garantias públicas. A FSA também oferece financiamento direto e garantias para empréstimos concedidos por instituições financeiras a agricultores elegíveis com dificuldade de acesso ao crédito comercial. Os recursos podem atender compra de terras, equipamentos, animais e despesas operacionais. Em determinadas modalidades, a garantia pública pode chegar a 95% do principal do empréstimo, reduzindo a exposição do credor. O produtor continua responsável pelo pagamento da dívida.

Apoio para práticas de conservação. Pelo Environmental Quality Incentives Program (EQIP), produtores podem receber assistência técnica e financeira para implementar práticas de conservação. Os projetos passam por seleção, e os pagamentos seguem critérios e valores definidos pelo programa. Esse apoio ajuda a dividir parte do custo de adequações ambientais na propriedade.

A demonstração de Ramon despertou admiração justamente por reunir praticidade operacional e uma política tributária que considera a destinação do combustível. Entre os comentários sobre o vídeo, um internauta escreveu: “Muito bom, esse é um país que empurra os agricultores pra frente”.

Outro destacou: “Sistema eficiente! País que valoriza o produtor rural é outra história!”.

Uma terceira manifestação associou a estrutura de abastecimento ao ambiente de produção, sem ignorar as dificuldades:

“Otimização, praticidade aliado ao respeito por quem produz por parte do governo e população faz toda diferença ser um ‘Farmer’ nos Estados Unidos da América. Embora não seja fácil lá também em função do clima e falta de mão de obra.”

No campo mostrado pelo brasileiro, essas questões aparecem em uma tarefa concreta: preparar máquinas que recebem mais de mil litros de diesel antes de voltar à lavoura. Nessa escala, diferenças de poucos centavos por litro se acumulam, enquanto a organização do abastecimento ajuda a preservar outro recurso decisivo durante a colheita: o tempo.

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