Por que algumas vacas têm manchas ao redor dos olhos — e isso pode importar para a produção?

Muito além da aparência, as manchas ao redor dos olhos tem componente genético e pode estar relacionada à proteção ocular; estudos investigam sua associação com doenças capazes de afetar desempenho, bem-estar e vida produtiva dos bovinos.

À primeira vista, uma vaca com círculos escuros ao redor dos olhos pode simplesmente parecer ter uma característica estética curiosa. Em algumas raças, especialmente aquelas de face predominantemente branca, essas marcas chamam ainda mais atenção. Mas há uma diferença importante que o produtor precisa conhecer: uma coisa é a cor do pelo; outra é a pigmentação da pele e das pálpebras que circundam o olho.

É justamente essa segunda característica que interessa à ciência.

Pesquisas realizadas com bovinos mostram que a pigmentação das pálpebras possui forte componente genético e vem sendo estudada por sua possível relação com a susceptibilidade a problemas oculares. Em animais criados sob elevada exposição solar, como ocorre em grande parte da pecuária brasileira, essa pequena diferença visual ganha uma dimensão prática: pigmentos como a melanina ajudam a proteger tecidos contra a radiação ultravioleta.

Isso não significa que uma vaca com olhos cercados por pelos escuros esteja automaticamente protegida — nem que um animal de região ocular clara vá adoecer. A relação é mais complexa e envolve genética, pigmentação efetiva dos tecidos, ambiente, radiação solar, idade, presença de moscas, poeira e outros fatores.

A explicação começa na genética

A distribuição das cores no bovino não ocorre ao acaso. Genes envolvidos na produção, distribuição e funcionamento dos melanócitos determinam boa parte dos padrões observados na pele e nos pelos.

Um dos trabalhos mais completos sobre o assunto avaliou registros de pigmentação das pálpebras de 1.165 bovinos Hereford, além de informações genômicas de 886 animais e dados de pedigree envolvendo 4.929 indivíduos.

O resultado mostrou que a pigmentação das pálpebras é uma característica moderadamente herdável, com herdabilidade estimada em aproximadamente 0,41. Os pesquisadores também identificaram regiões em diferentes cromossomos associadas ao caráter, envolvendo genes relacionados à biologia dos melanócitos e à melanogênese.

Em outras palavras, há espaço para modificar a frequência dessa característica por meio da seleção genética.

E isso explica por que determinados criatórios conseguem, geração após geração, aumentar a ocorrência de animais com pigmentação periocular dentro de populações originalmente caracterizadas pela face branca.

A mancha que enxergamos não conta toda a história

Aqui está um detalhe importante para não transformar uma característica interessante em mito.

A chamada “mancha ao redor do olho” pode envolver simplesmente pelos pigmentados, enquanto a característica estudada do ponto de vista sanitário geralmente considera a pigmentação da pele das pálpebras e dos tecidos próximos ao olho.

Portanto, não basta olhar uma fotografia do animal e concluir que aquela mancha funciona como um “óculos de sol natural”.

Há indícios de que a pigmentação dos tecidos perioculares oferece proteção, sobretudo em determinadas condições, mas a associação não deve ser simplificada.

Um estudo da Oklahoma State University, por exemplo, avaliou vacas Angus × Hereford e não encontrou diferença significativa na ocorrência de ceratoconjuntivite infecciosa bovina simplesmente em função da cor do pelo ao redor do olho. Os pesquisadores, porém, observaram maior ocorrência nos animais que apresentavam esclera mais branca em comparação aos indivíduos com coloração mais escura ou intermediária nessa região.

A distinção é fundamental: pelo escuro e tecido ocular pigmentado não são necessariamente a mesma característica biológica.

Pigmentação pode ajudar contra problemas oculares?

Uma das principais razões para estudar essa característica está relacionada às doenças dos olhos.

A ceratoconjuntivite infecciosa bovina — popularmente conhecida como pinkeye em países de língua inglesa — pode provocar lacrimejamento intenso, dor, inflamação, opacidade da córnea, úlceras e, nos quadros mais graves, comprometimento da visão.

Além do agente infeccioso, fatores ambientais favorecem o aparecimento e a disseminação da doença. Radiação ultravioleta intensa, moscas, poeira e materiais vegetais capazes de irritar o olho estão entre eles.

Do ponto de vista produtivo, o problema não deve ser tratado apenas como desconforto. Casos de doença ocular podem resultar em menor ganho de peso, redução da produção de leite e aumento dos gastos com tratamento, além dos efeitos sobre o bem-estar dos animais.

É nesse contexto que a pigmentação ganhou interesse na seleção de algumas populações bovinas.

Pesquisas com Hereford associam baixa pigmentação das pálpebras tanto à ceratoconjuntivite infecciosa quanto ao carcinoma ocular de células escamosas, embora os próprios pesquisadores ressaltem que mais estudos são necessários para estabelecer completamente as relações genéticas entre pigmentação e essas doenças.

O sol ajuda a explicar por que isso interessa à pecuária

O carcinoma ocular de células escamosas merece atenção especial. Trata-se de uma das neoplasias oculares mais importantes dos bovinos e pode encurtar a vida produtiva do animal e provocar perdas por descarte e condenações no abate.

De acordo com o Manual Veterinário Merck, seu desenvolvimento é multifatorial. Hereditariedade, exposição solar, idade, nutrição e pigmentação das pálpebras estão entre os fatores associados. A falta de pigmentação é considerada um fator de risco, enquanto a radiação ultravioleta participa do processo de desenvolvimento das lesões.

Isso ganha relevância em sistemas de produção nos quais os bovinos passam praticamente toda a vida a campo e expostos à radiação solar.

Mas existe novamente uma ressalva importante.

Pigmentação não significa imunidade.

Uma investigação realizada com vacas Holandesas e mestiças no Paraná e em Santa Catarina encontrou carcinoma ocular inclusive em animais de pálpebras bastante pigmentadas. Os autores concluíram que a doença provavelmente resulta da interação entre fatores genéticos, fenotípicos e ambientais, reforçando que nenhuma característica isolada deve ser utilizada como garantia de proteção.

Então vale selecionar animais com olhos pigmentados?

Dependendo da raça, do sistema produtivo e dos objetivos do programa de melhoramento, a característica pode ser considerada.

No Hereford, por exemplo, a possibilidade é particularmente interessante porque existe variação visível entre animais de face branca com diferentes graus de pigmentação das pálpebras. Como a característica apresenta herdabilidade moderada, a seleção pode aumentar sua presença nas gerações seguintes.

Mas ela não deve competir com características economicamente centrais.

Fertilidade, habilidade materna, ganho de peso, eficiência alimentar, conformação, qualidade de carcaça, produção de leite, longevidade e adaptação continuam sendo determinantes conforme a finalidade do rebanho.

A pigmentação periocular deve ser entendida, portanto, como uma característica funcional complementar, especialmente quando existe histórico de problemas oculares ou elevada exposição a fatores ambientais predisponentes.

O manejo continua sendo indispensável

Mesmo um rebanho altamente pigmentado pode apresentar problemas se o ambiente favorecer doenças oculares.

No caso da ceratoconjuntivite, o controle de moscas é particularmente importante porque esses insetos podem atuar na transmissão dos agentes infecciosos. Poeira, sementes, capins e outros materiais que irritam os olhos também aumentam o risco, assim como a elevada exposição à luz solar.

Por isso, genética e manejo precisam caminhar juntos.

O produtor deve observar animais com lacrimejamento persistente, sensibilidade à luz, olho fechado, opacidade da córnea, úlceras, secreções ou crescimento anormal de tecidos. Alterações oculares aparentemente pequenas podem evoluir e devem ser avaliadas por médico-veterinário.

Uma característica visual que conta parte da história do animal

As manchas ao redor dos olhos são um bom exemplo de como características que parecem puramente estéticas podem esconder uma história genética e funcional muito mais interessante.

A ciência já demonstrou que a pigmentação das pálpebras é herdável e biologicamente diferente de uma simples mancha no pelo. Também existem evidências relacionando baixa pigmentação a maior susceptibilidade a determinadas patologias oculares, embora essas doenças sejam multifatoriais e não possam ser previstas apenas pela aparência do bovino.

Por isso, quando uma vaca de face branca aparece no curral com aqueles característicos círculos escuros em torno dos olhos, vale olhar além da beleza.

A marca pode ser resultado da genética que determina onde a melanina será depositada. E, quando essa pigmentação alcança efetivamente pálpebras e tecidos perioculares, ela pode representar uma característica funcional interessante para animais que passam anos expostos ao sol, poeira, insetos e demais desafios de um sistema de produção a campo.

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