Por que AgroTaigo aposta no norte de Mato Grosso mesmo com crédito difícil e custos altos?

Tomando um tereré na Fazenda Pitú, recém-arrendada, produtor fala sobre o potencial do solo, o desafio de colher sob chuva, os custos da lavoura e as oportunidades para quem consegue investir

Conhecido nas redes sociais como AgroTaigo, o produtor rural compartilha a rotina de quem planta soja, cultiva milho e cria gado. Seus vídeos combinam cenas do trabalho na fazenda com explicações sobre manejo, custos e comercialização. Em uma conversa gravada na Fazenda Pitú, área que acaba de arrendar no norte de Mato Grosso, ele mostrou como faz as contas antes de começar uma safra — e por que continua vendo oportunidades na região, apesar do crédito difícil e das margens apertadas.

A fazenda fica às margens da MT-320, entre os municípios de Nova Santa Helena e Colíder. Enquanto tomava um tereré e acompanhava os preparativos na propriedade, AgroTaigo contou que assumiu a área há menos de um mês. Nesse curto intervalo, a equipe já havia aplicado calcário e adubo para preparar a terra para o plantio.

O produtor conhece bem o ritmo da região: afirma estar se preparando para sua 13ª safra no norte mato-grossense. É ali que pretende continuar plantando e ampliar a operação. Mas, como deixa claro ao longo da conversa, gostar da terra não dispensa fazer contas. A produtividade potencial é alta; o custo para alcançá-la também.

Terra argilosa produz mais, mas pede investimento

Um dos pontos que mais chamaram a atenção de AgroTaigo na Fazenda Pitú foi o solo. Segundo ele, a área tem aproximadamente 75% de argila, característica que considera favorável ao cultivo de soja e milho. Na sua avaliação, uma terra assim pode alcançar produtividades superiores às de áreas mais arenosas, desde que receba a correção e o manejo adequados.

A vantagem vem acompanhada de uma despesa maior no início. “Para você corrigir o solo e deixar ela preparada para produzir, vai gastar mais do que em uma área mais arenosa”, explica. Ele relata que já aplicou duas toneladas de calcário por hectare na propriedade e pretende aprofundar o trabalho com agricultura de precisão.

Nesse sistema, amostras de solo coletadas em diferentes pontos da fazenda ajudam a identificar o que cada parte da área precisa. Com os resultados em mãos, o agricultor pode ajustar a aplicação de corretivos e fertilizantes, em vez de tratar toda a propriedade como se o solo fosse uniforme.

AgroTaigo dá atenção especial ao fósforo, nutriente que considera um dos pontos mais importantes da fertilidade das áreas que cultiva. Na sua explicação, corrigir a acidez do solo com calcário é uma etapa necessária para melhorar o aproveitamento do adubo pelas plantas. Construir bons níveis de fertilidade exige tempo e dinheiro, mas pode dar mais opções ao produtor em anos de preços ruins.

A escolha das sementes é outra decisão que, para ele, não pode ser feita apenas pelo potencial anunciado de uma variedade. É preciso observar se a cultivar se adapta à região e definir corretamente a população de plantas. “Muito importante é você acertar nas variedades certas para plantar a lavoura, tanto da soja quanto do milho. Isso influencia totalmente no negócio”, afirma.

Ele cita dias de campo como uma oportunidade para comparar variedades e acompanhar seu desempenho antes de decidir o que plantar. Máquinas e tecnologia ajudam, diz o produtor, mas não compensam uma escolha inadequada de sementes ou falhas no manejo.

A soja abre a janela; o milho pode trazer a margem

A possibilidade de fazer duas safras é uma das razões pelas quais AgroTaigo aposta no norte de Mato Grosso. Segundo ele, as chuvas costumam começar em setembro e seguir até abril. Nesse intervalo, o produtor busca plantar a soja, colhê-la a tempo e semear o milho na sequência.

É uma operação em que o calendário vale dinheiro. AgroTaigo estima que o custo de uma lavoura de soja, somando arrendamento, insumos e demais despesas da produção, fique em torno de 60 sacas por hectare no cenário que apresenta. Ele inclui o arrendamento nessa conta mesmo quando a terra pertence ao agricultor, por entender que a área poderia gerar renda se fosse arrendada a outra pessoa.

Com esse custo, a margem da soja pode ficar apertada. Por isso, na estratégia descrita por ele, a primeira safra também precisa ser planejada para permitir uma boa segunda safra. “Você tem que se preocupar muito com a janela, plantar cedo para poder plantar o milho na sequência. O lucro do lavoureiro está no milho”, diz.

Para mostrar o potencial dessa combinação, AgroTaigo faz uma conta com milho colhido a 180 sacas por hectare e custo equivalente a 120 sacas. Restariam 60 sacas por hectare. Ao preço de R$ 50 por saca citado por ele no vídeo, a diferença corresponderia a R$ 3 mil por hectare. Em uma área de mil hectares, seriam R$ 3 milhões.

É uma simulação feita pelo produtor, e não uma previsão de lucro para qualquer fazenda. O resultado depende do rendimento efetivo da lavoura, do preço recebido, do custo dos insumos e das condições de cada operação. Ainda assim, o exemplo ajuda a entender por que ele considera o milho decisivo na conta regional.

AgroTaigo também associa a demanda pelo cereal à presença de usinas de etanol de milho no estado. Na sua avaliação, essas indústrias ampliam as alternativas de venda e ajudam a sustentar os preços nas áreas próximas às unidades.

Na colheita, poucas horas de sol fazem diferença

Ter chuva suficiente para produzir duas safras não significa que o clima facilite todas as etapas. AgroTaigo aponta a colheita da soja sob alta umidade como um dos maiores desafios do norte mato-grossense. Entre o fim de janeiro e março, período em que as máquinas entram no campo, a chuva pode interromper repetidamente o trabalho.

“Às vezes você vai ter uma semana com duas horas de sol”, relata. A colhedora precisa esperar condições adequadas para operar, mas o produtor não pode perder a janela do milho. Se a retirada da soja atrasa, a segunda cultura também começa mais tarde.

Por isso, ele defende que o agricultor dimensione bem a frota de colhedoras. A capacidade de colher rapidamente nos períodos de tempo firme pode ser tão importante quanto a velocidade para plantar. Em dias úmidos, conta, o trabalho frequentemente só começa quando o sol já aqueceu o suficiente para permitir a operação.

Essa sequência explica o ritmo que AgroTaigo descreve como típico da região: preparar a terra, plantar no momento certo, colher assim que o tempo permite e semear o milho sem desperdiçar a janela. Um atraso em uma etapa pode afetar as duas safras.

Armazém próximo ajuda, mas armazenagem ainda falta

A localização da Fazenda Pitú entra na conta de AgroTaigo. Segundo ele, a propriedade está a cerca de sete quilômetros de um armazém geral. Como ainda não tem estrutura própria para guardar toda a produção, essa proximidade facilita a operação.

Ele prefere usar um armazém geral porque entende que isso lhe dá mais liberdade para escolher o momento da venda e negociar com diferentes compradores. Ter um armazém próprio é um objetivo futuro, mas, por enquanto, ele paga pelo serviço de terceiros.

Ao mesmo tempo, AgroTaigo vê a capacidade de armazenagem como uma deficiência da região. Para uma operação de soja e milho, não basta produzir bem: é preciso ter onde receber os grãos e avaliar o custo de guardá-los. A distância até o armazém, as condições de contratação e as possibilidades de comercialização podem mudar o resultado do negócio.

O transporte dos insumos apresenta outro desafio. Ele relata que o adubo destinado à Fazenda Pitú percorreu aproximadamente 1.200 quilômetros desde Miritituba, no Pará. O calcário utilizado veio de Nobres, em Mato Grosso. A negociação, o frete e o prazo de entrega precisam, portanto, começar muito antes do plantio.

AgroTaigo chama atenção especialmente para a compra antecipada de fertilizantes em grandes volumes. Na sua experiência, deixar a encomenda para a última hora pode tornar difícil encontrar o produto desejado a tempo de atender à lavoura.

Encontrar terra para arrendar também ficou mais difícil

Embora queira crescer no norte de Mato Grosso, AgroTaigo afirma que encontrar áreas disponíveis para arrendamento não é simples. Parte das terras já está ocupada pela agricultura, enquanto a pecuária continua forte na região. Segundo ele, há pecuaristas que preferem manter suas propriedades para consolidar o próprio negócio.

Os valores variam conforme a localização, a qualidade do solo, a necessidade de correção e a estrutura existente — como sede e barracões. Na conversa, ele menciona arrendamentos a partir de cerca de 10 sacas de soja por hectare, com condições que podem subir conforme as características da propriedade e incluir compromissos relacionados à produção de milho.

Isso ajuda a explicar por que uma área produtiva nem sempre representa um negócio vantajoso. Antes de fechar o contrato, o agricultor precisa calcular quanto gastará para preparar a terra, por quanto tempo poderá utilizá-la e se terá estrutura e logística suficientes para trabalhar nela.

Com o banco mais restritivo, cresce o papel das revendas

AgroTaigo vê oportunidades no momento atual para quem tem condições de investir. Ele observa que alguns custos, como o calcário no exemplo da sua operação, recuaram em relação aos valores que encontrou quando a soja estava mais cara. Máquinas e outros itens também podem se tornar mais acessíveis em determinadas negociações.

O obstáculo, segundo ele, é conseguir o dinheiro necessário. “Hoje é muito difícil o recurso, o financiamento. É muito dificultoso arrancar um dinheiro no banco para você trabalhar”, afirma.

Nesse cenário, as revendas de insumos ocupam um espaço central na rotina do agricultor. Além de vender fertilizantes, sementes e defensivos, elas oferecem assistência técnica e participam do financiamento da lavoura. AgroTaigo destaca a presença de agrônomos nessas empresas e o peso das revendas privadas no norte mato-grossense.

Uma modalidade comum nas negociações descritas por ele é o barter. Nela, o produtor recebe insumos e assume o compromisso de pagar com uma quantidade acertada de grãos após a colheita. A operação permite iniciar o plantio sem desembolsar todo o valor à vista, mas também compromete antecipadamente parte da produção.

É por isso que AgroTaigo insiste em acompanhar o custo por hectare e o volume de soja já negociado. Quando o agricultor fixa o preço de uma parcela da safra, ganha previsibilidade para pagar despesas. Se a cotação subir muito depois, porém, essa mesma parcela já estará comprometida ao preço combinado. Por outro lado, manter toda a produção sem preço definido deixa o negócio exposto a uma eventual queda do mercado.

Comprar à vista pode trazer descontos, especialmente em determinados insumos, mas exige capital e atenção à comercialização da safra. Para AgroTaigo, não existe uma única escolha adequada a todos: o produtor precisa saber quanto custa plantar, como pagará a operação e qual risco pode assumir.

Produtividade, sozinha, não fecha a conta

Ao fim da conversa, a mensagem de AgroTaigo vai além do potencial de colher muitos grãos por hectare. A Fazenda Pitú tem solo que ele considera promissor, fica perto de um armazém e está em uma região onde é possível fazer soja e milho. Ainda assim, exigiu investimento imediato em correção, depende de insumos transportados por longas distâncias e terá de enfrentar uma colheita sujeita à chuva.

O produtor afirma que pretende crescer ali porque conhece a região e gosta de plantar no norte de Mato Grosso. Sua aposta, porém, vem acompanhada de uma regra prática repetida ao longo do relato: para aproveitar as oportunidades, é preciso organizar cada etapa antes que a safra comece.

Na visão de AgroTaigo, a diferença entre uma área de grande potencial e uma lavoura rentável está na combinação de solo corrigido, variedade adequada, janela de plantio, máquinas disponíveis, insumos comprados a tempo e custos sob controle. É essa engrenagem que ele tenta colocar para funcionar na Fazenda Pitú, começando por uma safra preparada em prazo curto e com planos de permanecer na região.

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