Polícia investiga sumiço de 2.388 bovinos de pecuarista de 91 anos; prejuízo passa de R$ 11 milhões

Diferença entre o rebanho registrado e a quantidade encontrada nas propriedades levou à Operação Apropriare, no Rio Grande do Sul; seis pessoas estão sob investigação

Uma diferença de 2.388 bovinos no rebanho de um produtor rural de 91 anos levou a Polícia Civil do Rio Grande do Sul a abrir uma investigação que agora tenta reconstruir o caminho dos animais. Os registros vinculados ao pecuarista indicavam 4.793 cabeças, mas uma contagem realizada nas propriedades encontrou 2.405 bovinos. O prejuízo estimado pode ultrapassar R$ 11 milhões.

O caso resultou na Operação Apropriare, realizada em 21 de outubro em Santiago e São Vicente do Sul. Cinco mandados de busca e apreensão foram cumpridos e aproximadamente 400 bovinos ficaram apreendidos durante a ação. Também foram atingidos por medidas judiciais uma caminhonete, um imóvel rural, contas bancárias e criptoativos relacionados aos investigados. As autoridades não informaram, até o momento, que todos os animais apreendidos façam parte das 2.388 cabeças cuja ausência está sendo apurada. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Diferença no rebanho apareceu após conferência dos animais

A apuração começou depois de o próprio pecuarista procurar as autoridades e comunicar a existência de possíveis irregularidades.

A partir daí, investigadores passaram a confrontar os dados do rebanho registrados na Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Rio Grande do Sul com a quantidade efetivamente encontrada nas propriedades.

A conta mostrou uma diferença expressiva: dos 4.793 bovinos registrados, 2.405 foram localizados, deixando um déficit de 2.388 cabeças.

Segundo a Polícia Civil, o principal investigado é um ex-gerente que ficou responsável pela administração das propriedades e do rebanho entre 2016 e 2025. Ele deixou a função depois da identificação das irregularidades.

Situações envolvendo dificuldades para identificar o destino de grandes quantidades de animais já apareceram em outras ocorrências recentes. No Norte de Minas, por exemplo, a polícia passou a investigar um funcionário após o desaparecimento de aproximadamente 80 bovinos e 20 equinos.

GTAs, notas fiscais e movimentações financeiras entraram na investigação

Para tentar entender como o rebanho foi movimentado ao longo dos anos, os investigadores analisaram Guias de Trânsito Animal, notas fiscais e informações bancárias obtidas mediante autorização judicial.

Entre os pontos investigados estão movimentações de bovinos dos registros do produtor para o cadastro rural de um familiar de um dos investigados sem identificação de pagamento correspondente.

Também foram encontradas situações em que nascimentos de terneiros teriam sido registrados nos cadastros dos investigados em datas coincidentes com transferências de animais para outras propriedades.

Outro elemento sob análise envolve notas fiscais relacionadas à comercialização de gado sem que os investigadores encontrassem movimentação financeira equivalente entre as partes.

Esses elementos são tratados como indícios dentro do inquérito. A existência dos registros, isoladamente, não representa condenação nem comprova a responsabilidade individual das pessoas investigadas.

O controle documental do rebanho também apareceu como peça relevante em uma investigação sobre mais de 2 mil bovinos no Paraná, na qual as autoridades passaram a apurar inclusive mecanismos que poderiam ter sido usados para dar aparência regular à circulação dos animais.

Patrimônio adquirido também passou a ser investigado

A Polícia Civil ampliou a apuração para verificar movimentações patrimoniais atribuídas aos investigados.

Uma caminhonete teria sido adquirida em janeiro de 2026, enquanto uma área rural localizada em Santiago entrou no patrimônio em julho do mesmo ano.

Nesse imóvel, chamou a atenção dos investigadores a diferença entre o valor declarado e as movimentações financeiras encontradas. A escritura apontava R$ 50 mil, enquanto os dados bancários analisados indicariam pagamentos que chegaram a R$ 179 mil ao vendedor.

A discrepância passou a integrar uma linha de investigação relacionada a possível falsidade ideológica.

Seis pessoas estão sob investigação

Ao todo, seis pessoas são investigadas na Operação Apropriare.

Dependendo da participação individual que venha a ser comprovada, a Polícia Civil apura possíveis crimes de apropriação indébita, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

As medidas adotadas até aqui fazem parte da investigação e não representam condenação. A definição de eventual responsabilidade criminal dependerá da conclusão do inquérito, da análise das provas e das etapas posteriores do processo judicial.

Destino dos 2.388 bovinos ainda precisa ser esclarecido

Uma das principais questões ainda em aberto é o destino da diferença de 2.388 animais identificada entre os registros e a contagem física.

Embora cerca de 400 bovinos tenham sido apreendidos durante a operação, a divulgação oficial não estabelece que todo esse lote tenha origem comprovadamente ligada ao rebanho investigado.

A Polícia Civil informou que as diligências continuam justamente para descobrir o destino dos animais e identificar outros bens que possam ter relação com o caso.

A investigação também evidencia a importância do controle permanente do rebanho. Em propriedades de maior porte, a conferência entre estoque físico, documentos fiscais, nascimentos, mortes, transferências e registros sanitários pode revelar inconsistências antes que elas se acumulem por longos períodos.

O acompanhamento documental tende a ganhar ainda mais importância com a ampliação da identificação individual de bovinos no país. O Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos prevê uma implantação gradual até 2032, com o objetivo de ampliar a rastreabilidade dos animais ao longo da cadeia produtiva.

No caso da Operação Apropriare, entretanto, ainda cabe à investigação determinar o que efetivamente ocorreu com o rebanho, como os animais teriam sido movimentados e qual foi a participação de cada pessoa investigada.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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