Piracanjuba assume operação de laticínio em Goiás e poderá dobrar processamento de leite

Parceria com a Complem envolve planta de Morrinhos, marca Compleite e cerca de 200 trabalhadores; unidade tem previsão inicial de processar 300 mil litros de leite por dia.

Um novo movimento de consolidação da indústria brasileira de lácteos avança em Goiás. O Grupo Piracanjuba firmou uma parceria estratégica com a Complem para assumir a operação de sua unidade de lácteos em Morrinhos (GO), em um acordo que amplia a estrutura industrial da companhia sem retirar da cooperativa a relação direta construída com os produtores de leite.

A operação será realizada por meio do arrendamento dos ativos industriais e da marca Compleite, tradicional no mercado goiano há mais de quatro décadas. A fábrica deverá processar inicialmente cerca de 300 mil litros de leite por dia, mas os investimentos previstos em equipamentos e modernização poderão levar a capacidade a aproximadamente 600 mil litros diários.

A conclusão da transação ainda está condicionada à aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Enquanto não houver decisão definitiva do órgão, Piracanjuba e Complem continuam operando de maneira independente.

Piracanjuba fica com a indústria; Complem permanece com o produtor

O desenho da parceria chama atenção porque separa duas etapas importantes da cadeia.

A Complem continuará responsável pela captação do leite, atendimento aos cooperados, assistência técnica e pagamento aos produtores. A matéria-prima captada pela cooperativa será encaminhada para industrialização pelo Grupo Piracanjuba.

Já a Piracanjuba ficará responsável pela operação do laticínio, processamento da matéria-prima e produção e comercialização dos produtos da Compleite.

Na prática, o produtor associado continua mantendo seu relacionamento comercial com a cooperativa, enquanto a etapa industrial passa para uma companhia que já possui distribuição e presença nacional no mercado de lácteos.

As discussões para estruturar o projeto, segundo informações divulgadas pela própria cooperativa, começaram ainda em 2025.

“As discussões sobre o projeto tiveram início em 2025 e foram conduzidas de forma cuidadosa, responsável e estratégica, sempre tendo como prioridades a preservação dos ativos, dos empregos e da marca Compleite”, afirmou Sérgio Penido, presidente do Conselho de Administração da Complem.

Compleite será mantida no mercado

Outro ponto relevante é o destino da Compleite.

Em vez de retirar a marca regional do mercado, o acordo prevê sua continuidade. O Grupo Piracanjuba passará a produzir e distribuir os produtos Compleite, aproveitando uma marca que já possui reconhecimento principalmente em Goiás e no Distrito Federal.

Ao mesmo tempo, a fábrica de Morrinhos também poderá produzir itens do portfólio Piracanjuba.

É justamente essa combinação que torna a operação estrategicamente interessante: o grupo amplia sua capacidade industrial utilizando uma estrutura já existente e, simultaneamente, incorpora ao negócio uma marca regional consolidada.

“Essa parceria reúne duas instituições que construíram histórias de credibilidade, qualidade e compromisso com o desenvolvimento de Goiás. Para o Grupo Piracanjuba, ela representa mais um passo em nossa estratégia de crescimento”, afirmou Luiz Claudio Lorenzo, presidente do Grupo Piracanjuba.

Planta poderá chegar a 600 mil litros de leite por dia

A dimensão industrial é um dos principais pontos do negócio.

A previsão divulgada é de aproximadamente 300 mil litros de leite processados diariamente no Distrito Industrial de Morrinhos. Entretanto, estão previstos investimentos em modernização da fábrica, atualização de equipamentos e ampliação da estrutura.

Com essas melhorias, a capacidade da unidade poderá dobrar.

Caso todo esse potencial seja utilizado, a fábrica poderia alcançar aproximadamente 600 mil litros/dia, aumentando a demanda industrial por matéria-prima em uma região tradicionalmente ligada à produção leiteira.

O movimento ocorre dentro de uma estratégia mais ampla de expansão do Grupo Piracanjuba. A companhia informa atualmente capacidade superior a 7 milhões de litros de leite por dia em sua estrutura industrial.

Cerca de 200 trabalhadores entram na operação

O acordo também tem impacto direto sobre os empregos ligados à fábrica.

A previsão é de que aproximadamente 200 profissionais atualmente vinculados à operação de lácteos da Complem sejam incorporados à estrutura do Grupo Piracanjuba, preservando mão de obra que já conhece os processos e a rotina da unidade.

Piracanjuba e Complem continuarão ainda dividindo o mesmo complexo industrial em Morrinhos.

Além do laticínio, o local reúne armazenamento de grãos, fábrica de nutrição animal e estruturas comuns de apoio. Por isso, determinadas áreas precisarão funcionar de maneira integrada mesmo depois da mudança na gestão da indústria de lácteos.

O que muda para a Complem

A parceria não representa a saída da Complem do agronegócio — nem mesmo da cadeia leiteira.

A cooperativa continuará trabalhando diretamente na captação do leite e pretende concentrar esforços em outras frentes de negócio, incluindo grãos, nutrição animal, lojas agropecuárias, supermercados e serviços destinados aos cooperados.

Essa divisão permite que a Complem reduza sua exposição direta à complexidade da industrialização e comercialização nacional de lácteos, enquanto preserva justamente um de seus principais ativos: a ligação com sua base de produtores.

Para a Piracanjuba, ocorre o movimento inverso. O grupo ganha capacidade industrial, uma nova plataforma produtiva em seu estado de origem e uma estrutura instalada dentro de uma importante região produtora.

Uma operação que vai além dos 300 mil litros

A relevância da parceria está, portanto, menos no volume inicial e mais no desenho do negócio.

Piracanjuba amplia sua capacidade industrial sem precisar construir uma fábrica do zero; a Complem preserva a captação e sua relação com os cooperados; a Compleite permanece no mercado; cerca de 200 postos de trabalho ligados à operação são preservados; e a fábrica ganha perspectiva de expansão.

Há ainda potencial para novas relações comerciais. O acordo prevê oportunidades de atuação conjunta em Goiás, inclusive na oferta de insumos agrícolas aos produtores de leite relacionados às operações das empresas.

Para uma cadeia que enfrenta custos elevados, margens apertadas e necessidade crescente de escala e eficiência industrial, a movimentação em Morrinhos mostra uma tendência importante: cooperativas e grandes indústrias podem buscar modelos de parceria nos quais produção, relacionamento com o produtor, processamento e acesso ao mercado sejam divididos de acordo com a especialidade de cada empresa.

Se a expansão prevista se concretizar depois das aprovações necessárias, a fábrica que começa essa nova etapa processando cerca de 300 mil litros por dia poderá alcançar o dobro desse volume, aumentando o peso de Morrinhos dentro da estrutura leiteira de Goiás e também na estratégia nacional do Grupo Piracanjuba.

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