Pesquisa revela baixa eficácia de antiparasitário e indica nova opção contra bicheira no umbigo

Pesquisa realizada em uma fazenda de Mato Grosso do Sul identificou desempenho limitado da doramectina e resultados promissores do fluralaner na proteção de bezerros recém-nascidos

A prevenção da bicheira no umbigo pode exigir uma revisão dos protocolos adotados nas fazendas brasileiras. Um experimento com bezerros recém-nascidos mostrou que a doramectina apresentou resultado próximo ao observado em animais que não receberam antiparasitário, enquanto duas formulações de fluralaner reduziram de forma expressiva a ocorrência da infestação.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com a MSD Saúde Animal, e publicado na revista científica Parasites & Vectors. A análise acompanhou 200 bezerros durante os primeiros 14 dias de vida, período em que o umbigo ainda representa uma importante porta de entrada para agentes infecciosos.

Infestação começa no cordão umbilical

A bicheira é causada pelas larvas da mosca Cochliomyia hominivorax, que se desenvolvem em ferimentos e tecidos vivos. Nos bezerros recém-nascidos, o cordão umbilical ainda úmido e exposto cria uma condição favorável para a postura dos ovos.

Após a eclosão, as larvas penetram no tecido e ampliam rapidamente a lesão. Sem identificação e tratamento, o problema pode provocar dor intensa, perda de tecido, infecções bacterianas e comprometimento do desenvolvimento do animal.

Casos graves também podem atingir estruturas mais profundas e favorecer inflamações no umbigo, nas articulações e em outros órgãos. Por isso, a inspeção dos animais nos primeiros dias após o nascimento é considerada uma etapa essencial do manejo de maternidade.

Estudo avaliou diferentes protocolos preventivos

Os pesquisadores dividiram os 200 bezerros em quatro grupos com 50 animais cada. Um grupo permaneceu sem medicamento antiparasitário, enquanto os demais receberam doramectina injetável, fluralaner pour-on ou uma formulação oral experimental de fluralaner.

Todos os animais passaram pela cura do umbigo com solução de iodo, permitindo que o estudo comparasse especificamente o desempenho dos medicamentos utilizados.

No grupo que não recebeu antiparasitário, 13 dos 50 bezerros desenvolveram miíase umbilical, o equivalente a 26%. O número confirmou que os animais estavam expostos naturalmente à mosca na propriedade onde o teste foi realizado.

Doramectina teve baixo desempenho contra bicheira no umbigo

Entre os bezerros tratados com doramectina, foram identificados casos em 22% dos animais. O resultado ficou apenas quatro pontos percentuais abaixo do grupo sem tratamento antiparasitário.

De acordo com os cálculos apresentados no estudo, a eficácia preventiva da molécula foi de 15,4%, sem diferença estatística relevante em relação ao grupo de controle.

O desempenho reforça uma preocupação já observada por pesquisadores e veterinários em diferentes propriedades da América do Sul: o uso contínuo do mesmo princípio ativo pode reduzir sua capacidade de controlar determinadas populações parasitárias.

Apesar disso, o ensaio não realizou análises genéticas para comprovar resistência da mosca à doramectina. O que os resultados demonstram é que, nas condições avaliadas, o protocolo não ofereceu proteção satisfatória aos bezerros.

Também não é recomendado elevar a dosagem por conta própria. O uso acima das orientações da bula pode aumentar o risco de intoxicação, especialmente em animais recém-nascidos.

Fluralaner apresentou maior proteção

A formulação pour-on de fluralaner, aplicada sobre o dorso dos bezerros, reduziu a ocorrência da infestação para 4%. Apenas dois animais do grupo desenvolveram a doença.

Com esse resultado, a eficácia preventiva calculada chegou a 84,6%. Os autores consideram que o comportamento das vacas após o parto pode ter influenciado o desempenho, já que as mães costumam lamber os bezerros e podem remover parte do medicamento aplicado sobre a pele.

A formulação oral experimental obteve o melhor resultado do ensaio. Nenhum dos 50 animais tratados apresentou miíase durante o acompanhamento, representando 100% de proteção no grupo analisado.

O desempenho, entretanto, não autoriza o uso oral de produtos formulados para aplicação externa. A versão administrada pela boca foi desenvolvida especificamente para a pesquisa e ainda depende de estudos adicionais e avaliação regulatória antes de uma eventual comercialização.

Nova opção para bicheira no umbigo exige avaliação técnica

O fluralaner pour-on para bovinos já está disponível no mercado brasileiro, mas sua adoção deve considerar as características de cada propriedade. Clima, concentração de moscas, sistema de criação, frequência de manejo e histórico de falhas podem alterar os resultados observados no campo.

A escolha do produto também não substitui os cuidados básicos com o recém-nascido. A prevenção eficiente depende da combinação entre medicamento adequado, cura correta do umbigo e inspeção frequente dos bezerros.

Entre as medidas recomendadas estão:

  • desinfetar completamente o cordão umbilical logo após o nascimento;
  • manter a maternidade limpa e com acesso facilitado aos animais;
  • verificar diariamente a presença de secreção, inchaço, odor ou larvas;
  • registrar falhas para avaliar o desempenho do protocolo utilizado;
  • evitar aplicações repetidas e indiscriminadas do mesmo princípio ativo;
  • buscar orientação veterinária antes de alterar medicamentos ou doses.

Resultado deve ser interpretado com transparência

A pesquisa recebeu financiamento da MSD Saúde Animal, empresa responsável pelo medicamento à base de fluralaner avaliado no experimento. Parte dos autores também declarou vínculo profissional com a companhia.

Essas informações foram apresentadas na publicação científica e devem ser consideradas na análise dos resultados. O financiamento empresarial não invalida automaticamente o trabalho, mas reforça a importância de novos testes independentes, realizados em outras regiões e sistemas produtivos.

O estudo também contou com participação acadêmica da UFMS e apoio de instituições brasileiras de pesquisa.

Manejo neonatal precisa acompanhar mudanças no campo

Os dados indicam que protocolos tradicionais não devem ser mantidos apenas pelo hábito. Quando um medicamento deixa de entregar o resultado esperado, o produtor precisa investigar as causas e discutir novas estratégias com o responsável técnico.

No caso da bicheira no umbigo, a rapidez da infestação torna a prevenção especialmente importante. Um protocolo bem planejado reduz o risco de lesões graves, tratamentos corretivos, uso de antibióticos e perdas de animais durante a fase mais vulnerável da criação.

A pesquisa aponta o fluralaner como uma alternativa promissora, mas também evidencia que nenhuma tecnologia deve ser utilizada de forma isolada. O acompanhamento dos bezerros e a revisão periódica do programa sanitário continuam sendo decisivos para proteger o rebanho.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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