Estudo da Universidade Federal de Uberlândia combina probiótico e extrato de planta brasileira e identifica resultados promissores na produção de ovos de galinhas com 80 a 100 semanas de idade.
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) está investigando alternativas para prolongar a capacidade produtiva de galinhas poedeiras, um dos principais desafios da avicultura moderna. O estudo, reconhecido em uma conferência científica internacional realizada em outubro de 2026, apresentou resultados promissores ao combinar uma bactéria benéfica com um extrato vegetal, buscando manter a produção de ovos mesmo quando as aves atingem idades mais avançadas.
A descoberta chama a atenção por abordar um problema que interfere diretamente na rentabilidade das granjas: a redução natural da postura à medida que as galinhas envelhecem. Embora os avanços genéticos tenham permitido ciclos produtivos cada vez mais longos, preservar a saúde reprodutiva, a qualidade dos ovos e a eficiência alimentar continua sendo um desafio. Nesse cenário, a pesquisa brasileira abre uma possibilidade para aumentar o aproveitamento das aves, reduzir a necessidade de reposição antecipada dos plantéis e melhorar a eficiência econômica da produção, desde que os resultados sejam confirmados em condições comerciais.
Probiótico e planta brasileira estão no centro da pesquisa
O trabalho foi desenvolvido por pesquisadores ligados à UFU, sob orientação da professora Belchiolina Beatriz Fonseca, e integra uma linha de investigação sobre saúde, metabolismo e produtividade das aves.
A pesquisa apresentada pela estudante de Zootecnia Maria Eduarda Alfenas está associada ao trabalho de pós-graduação de Jonatan Mauricio Rodriguez Segura, intitulado Supplementation with Bacillus velezensis BV03 enhances egg production by modulating ovarian metabolites.
O estudo investiga duas alternativas: a bactéria Bacillus velezensis BV03, utilizada como probiótico experimental, e o extrato da planta Libidibia ferrea, popularmente conhecida como jucá ou pau-ferro.
A combinação desses elementos apresentou resultados positivos na produção de ovos de galinhas com idades entre 80 e 100 semanas, período em que normalmente ocorre uma redução gradual do desempenho produtivo.
Os pesquisadores também identificaram indícios de que o microrganismo BV03 possa contribuir para a preservação da saúde dos ovários das aves, aspecto importante para a manutenção da atividade reprodutiva.
O diferencial está na tentativa de atuar sobre a fisiologia da ave, e não apenas estimular momentaneamente a produção. Preservar o funcionamento do aparelho reprodutor pode ser fundamental para ampliar a longevidade produtiva sem comprometer a condição dos animais.
Por que as galinhas passam a produzir menos ovos com a idade?
A diminuição da postura é um processo fisiológico natural, mas sua intensidade depende de fatores como genética, alimentação, sanidade, ambiente e condições de manejo.
Nas linhagens comerciais, as primeiras semanas de produção normalmente são marcadas pelo aumento acelerado da postura até a chegada ao pico produtivo. Posteriormente, ocorre uma redução gradual na frequência de produção dos ovos.
Ao mesmo tempo, as aves envelhecidas podem apresentar alterações metabólicas e dificuldades para manter determinados parâmetros de qualidade, especialmente relacionados à resistência da casca.
A formação completa de um ovo leva aproximadamente 25 horas, envolvendo processos complexos de ovulação, formação da clara, desenvolvimento das membranas e deposição de minerais na casca.
O ovário é responsável pelo desenvolvimento dos folículos e pela liberação da gema, enquanto outras estruturas do aparelho reprodutor participam das etapas seguintes.
Por isso, a manutenção da integridade dos órgãos reprodutivos é considerada um componente importante para a persistência de postura.
A proposta da pesquisa da UFU é justamente investigar se determinados compostos biológicos podem ajudar a preservar essa capacidade por mais tempo.
O que os pesquisadores descobriram até agora?
Os resultados divulgados pela universidade indicam que a associação do probiótico com o extrato vegetal favoreceu a produção de ovos nas aves avaliadas, além de apontar possíveis benefícios do BV03 para a saúde ovariana.
A investigação envolve a análise de metabólitos ovarianos, substâncias relacionadas ao funcionamento do metabolismo das células e dos tecidos.
Esse tipo de avaliação permite observar mudanças biológicas que podem estar associadas ao desempenho reprodutivo, contribuindo para compreender os mecanismos envolvidos na resposta ao tratamento.
Entretanto, existe uma diferença importante entre identificar um efeito positivo em pesquisa e comprovar sua aplicação comercial.
A divulgação institucional da UFU não apresenta informações suficientes sobre o número de aves utilizadas, as doses administradas, o percentual exato de aumento na postura ou o custo da intervenção.
Portanto, ainda não é possível afirmar quanto a tecnologia aumentaria a produção de uma granja ou por quantas semanas adicionais as aves poderiam permanecer economicamente produtivas.
Essas informações serão fundamentais para determinar o potencial real da descoberta.
Prolongar o ciclo produtivo pode mudar a economia das granjas
A longevidade das poedeiras ganhou importância porque o resultado econômico não depende exclusivamente da quantidade de ovos produzidos por dia.
O produtor precisa considerar todo o investimento realizado desde a aquisição das aves, passando pela recria, alimentação, vacinação, instalações, mão de obra e manutenção do plantel.
Quando uma galinha permanece produtiva por mais tempo, parte desses investimentos iniciais pode ser distribuída por uma quantidade maior de ovos comercializados.
Isso significa que um ciclo produtivo mais longo pode reduzir o custo associado à reposição do plantel por unidade produzida, desde que a produção adicional compense as despesas de manter as aves.
Há também uma possível vantagem operacional: ciclos mais duradouros podem diminuir a frequência de substituição dos lotes e melhorar o planejamento da produção.
Entretanto, prolongar a vida produtiva não significa simplesmente manter as galinhas por mais semanas.
O resultado precisa ser avaliado considerando:
- Persistência de postura: capacidade de manter uma produção economicamente satisfatória.
- Qualidade dos ovos: integridade da casca, peso, uniformidade e perdas durante a coleta.
- Consumo de ração: quantidade de alimento necessária para produzir cada dúzia.
- Saúde e bem-estar: manutenção da condição corporal, integridade óssea e sanidade das aves.
- Viabilidade econômica: relação entre produção adicional, despesas de manutenção e custo de reposição.
Uma ave pode continuar produzindo ovos em idade avançada e, ainda assim, deixar de ser rentável caso o consumo de ração, a mortalidade ou as perdas de qualidade aumentem significativamente.
Essa é uma das principais questões que pesquisas sobre longevidade produtiva precisam responder.
Mercado brasileiro de ovos amplia importância da tecnologia
O avanço científico ocorre em um momento de expansão da avicultura de postura no Brasil.
Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o país produziu aproximadamente 62,3 bilhões de ovos em 2025, consolidando-se entre os cinco maiores produtores mundiais.
Para 2026, a entidade projeta uma produção de 64,8 bilhões de unidades, crescimento potencial de 4,1% em relação ao ano anterior.
O consumo nacional também segue em expansão. A expectativa da ABPA é que a média brasileira alcance 301 ovos por habitante em 2026, diante dos 288 registrados em 2025.
Em apenas duas décadas, o consumo per capita mais que dobrou, reforçando a importância do ovo como uma fonte de proteína animal presente na alimentação dos brasileiros.
Esse crescimento, porém, aumenta a necessidade de produzir com eficiência, especialmente diante das oscilações dos preços do milho e do farelo de soja, matérias-primas essenciais na alimentação das poedeiras.
Para a indústria, tecnologias capazes de melhorar o desempenho das aves podem representar ganhos relevantes de competitividade.
E, para o produtor, a perspectiva de ampliar o ciclo de postura pode significar uma nova ferramenta para equilibrar produtividade, custos e reposição dos lotes.
Ciência brasileira busca ampliar a vida produtiva das aves
A pesquisa da UFU também se conecta a uma tendência mais ampla da avicultura internacional: desenvolver estratégias nutricionais e biológicas capazes de manter o desempenho das poedeiras durante ciclos prolongados.
No Brasil, outras instituições investigam caminhos complementares. Na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), por exemplo, uma pesquisa de mestrado apresentada em 2026 avaliou a alimentação dividida, conhecida como split feeding, em galinhas com 105 a 120 semanas de idade.
A estratégia consiste em oferecer dietas com composições diferentes ao longo do dia, acompanhando as necessidades fisiológicas relacionadas à formação do ovo.
Os resultados apresentados pela instituição indicaram manutenção do desempenho produtivo e melhorias em parâmetros de qualidade dos ovos, especialmente na resistência da casca, nas condições experimentais avaliadas.
As duas linhas de investigação mostram que prolongar a produtividade das poedeiras depende de um conjunto de fatores, que envolve nutrição, metabolismo, saúde reprodutiva e manejo.
A tendência não é apenas buscar galinhas que produzam mais no pico de postura, mas aves capazes de sustentar uma produção consistente durante uma parcela maior da vida.
Pesquisa recebeu reconhecimento internacional
O trabalho desenvolvido na UFU foi reconhecido durante a Poultry Science Latin American Scientific Conference 2026, realizada entre os dias 6 e 8 de outubro, em Foz do Iguaçu, no Paraná.
O encontro reuniu 264 trabalhos científicos, abordando temas como sanidade, nutrição, metabolismo, produtividade e sustentabilidade da avicultura.
A estudante Maria Eduarda Alfenas recebeu o Certificate of Excellence Award pela apresentação da investigação relacionada à longevidade produtiva das galinhas.
O reconhecimento integrou três premiações conquistadas pela equipe da universidade durante o evento.
A professora Belchiolina Beatriz Fonseca destacou que “a pesquisa desenvolvida na UFU pode contribuir para a saúde das aves e para uma produção avícola mais eficiente”.
O que falta para a descoberta chegar às granjas?
Apesar dos resultados promissores, a tecnologia ainda precisa avançar na avaliação de sua eficácia e aplicabilidade antes de se transformar em uma recomendação para produtores comerciais.
Entre os pontos que precisam ser esclarecidos estão a dose ideal do probiótico, a padronização do extrato vegetal, a segurança da combinação, a consistência dos resultados em diferentes lotes e os custos de utilização.
Também será importante investigar se os benefícios observados podem ser reproduzidos em diferentes linhagens, sistemas de criação e condições ambientais.
O fato de um microrganismo ou extrato vegetal apresentar resultados positivos em pesquisa não significa que qualquer formulação comercial produza o mesmo efeito. A resposta depende da cepa utilizada, da composição, da dose e das condições em que a tecnologia é aplicada.
A descoberta também não substitui os fundamentos que sustentam a produtividade da avicultura: genética adequada, recria eficiente, biosseguridade, nutrição equilibrada, conforto térmico e manejo sanitário.
Ainda assim, o trabalho da UFU representa uma contribuição relevante para uma questão estratégica da produção de ovos.
Em um setor que busca ampliar a oferta de alimentos sem elevar os custos na mesma proporção, conseguir que cada galinha produza ovos de qualidade durante mais tempo pode se tornar tão importante quanto aumentar a produtividade diária do plantel.
O próximo desafio será transformar os resultados obtidos pela ciência em uma alternativa tecnicamente segura, economicamente viável e acessível aos produtores brasileiros.
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