Pesquisa brasileira busca cabras e ovelhas mais resistentes ao clima extremo

Projeto liderado pela Uece reúne pesquisadores do Brasil, Argentina e Uruguai para investigar respostas biológicas e produtivas de pequenos ruminantes às mudanças climáticas

Como cabras e ovelhas respondem a ambientes que se tornam mais desafiadores para a produção? Uma nova rede de pesquisa coordenada pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) pretende buscar respostas para essa questão por meio do estudo da epigenética, metabolismo, comportamento e reprodução dos animais. A proposta envolve pesquisadores brasileiros e parceiros da Argentina e do Uruguai.

O ponto central é que a pesquisa ainda será realizada. Portanto, não há uma nova linhagem, raça ou tecnologia pronta capaz de garantir animais resistentes ao clima extremo. A proposta é produzir conhecimento que, no futuro, possa orientar sistemas de criação mais preparados para lidar com os efeitos das mudanças ambientais sobre a ovinocaprinocultura. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Pesquisa vai analisar quatro frentes nos pequenos ruminantes

O projeto é coordenado pelo professor Davide Rondina, da Faculdade de Veterinária da Uece. Também integram a equipe da universidade os pesquisadores Dárcio Ítalo Alves Teixeira e Ana Paula Rodrigues Ribeiro.

O estudo pretende cruzar informações de epigenética, metabolismo, comportamento e reprodução. Na prática, a ideia é compreender melhor como os organismos dos animais reagem às alterações ambientais e quais características podem estar relacionadas à capacidade de manter desempenho produtivo e reprodutivo em condições adversas.

A epigenética é uma das áreas que podem ajudar nessa investigação. Ela estuda mudanças na atividade dos genes que ocorrem sem alterar a sequência do DNA. Associar essas informações a dados metabólicos, reprodutivos e comportamentais pode ampliar a compreensão sobre a resposta dos pequenos ruminantes ao ambiente.

Isso é diferente de afirmar que a pesquisa produzirá, necessariamente, uma “cabra resistente à seca” ou uma “ovelha imune ao calor”. O objetivo científico é identificar mecanismos e estratégias que possam contribuir para sistemas produtivos mais resilientes.

Ceará reúne mais de 3,7 milhões de ovinos e caprinos

A escolha do Ceará como centro da iniciativa ganha importância pelo peso dos pequenos ruminantes na pecuária estadual.

Dados mais recentes da Pesquisa da Pecuária Municipal, do IBGE, mostram que o Ceará terminou 2025 com 2.616.875 ovinos e 1.114.107 caprinos. Somados, os dois rebanhos ultrapassam 3,7 milhões de cabeças.

No Brasil, o rebanho de ovinos alcançou 22.308.942 animais em 2025, enquanto o de caprinos chegou a 13.524.707 cabeças.

A concentração da atividade no Nordeste torna pesquisas relacionadas à adaptação ambiental especialmente relevantes. Sistemas produtivos do Semiárido precisam conviver com limitações hídricas, irregularidade na oferta de forragem e temperaturas elevadas, fatores que podem interferir na alimentação, reprodução e produtividade dos rebanhos.

Outras linhas de pesquisa já tentam reduzir essas limitações. Na Caatinga, por exemplo, estudos com Integração Lavoura-Pecuária-Floresta adaptada ao Semiárido investigam formas de ampliar a disponibilidade de alimento durante períodos secos.

Projeto foi selecionado preliminarmente pelo CNPq

A proposta integra a Chamada Pública MCTI/CNPq nº 02/2026, vinculada ao Programa de Cooperação Latino-Americana e Caribenha em Ciência, Tecnologia e Inovação — PROSUL Pepe Mujica.

O edital apoia redes científicas em áreas como mudanças climáticas, sustentabilidade, agricultura, segurança alimentar e sistemas produtivos resilientes.

No resultado preliminar, o projeto coordenado por Rondina aparece na área de Medicina Veterinária, tendo a Universidade Estadual do Ceará como instituição executora.

A proposta recebeu nota 9,81, parecer recomendado, situação favorável e R$ 480.161,30 como valor aprovado na relação preliminar. O processo identificado pelo CNPq é o 444391/2026-6.

O cuidado com a palavra “preliminar” é necessário porque o CNPq informou que o prazo para apresentação de recursos administrativos termina em 30 de outubro de 2026. O resultado geral divulgado no dia 20 selecionou preliminarmente 378 propostas em diferentes áreas de pesquisa.

Rede conecta pesquisadores de três países

No Brasil, a articulação científica inclui, além da Uece, pesquisadores ligados à Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e à Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco).

O Uruguai participa por meio da Universidad de la República. Já na Argentina, a divulgação oficial da Uece informa a participação de instituições ligadas à pesquisa agropecuária e florestal, sem detalhar todos os nomes.

A cooperação entre regiões distintas pode ser relevante porque permite observar animais e sistemas produtivos expostos a diferentes condições ambientais e modelos de manejo.

O que a pesquisa pode significar para o produtor

Os resultados ainda não existem, mas as perguntas investigadas têm aplicação direta no campo.

Compreender quais animais utilizam melhor os recursos disponíveis, mantêm a reprodução em condições adversas ou apresentam respostas metabólicas mais eficientes pode, futuramente, contribuir para seleção genética, manejo nutricional, reprodução e planejamento dos sistemas de criação.

Esse movimento já aparece em outras áreas da ovinocaprinocultura. A Embrapa, por exemplo, mantém uma avaliação de eficiência alimentar de caprinos e ovinos para identificar animais capazes de apresentar melhor desempenho no aproveitamento da alimentação.

A nova rede acrescenta a variável climática a esse debate. Segundo a Uece, os estudos também devem avaliar conhecimentos capazes de contribuir para produtividade, resultado econômico dos criadores, captura de carbono e redução das emissões de gases de efeito estufa.

O avanço do projeto deverá ser acompanhado em etapas. Primeiro, pela conclusão definitiva da chamada do CNPq. Depois, pelo desenvolvimento dos experimentos e pela publicação dos resultados científicos.

Até que essas evidências sejam produzidas, a conclusão correta é uma só: a ciência brasileira está investigando maneiras de tornar a criação de cabras e ovelhas mais preparada para as mudanças climáticas, mas ainda não existe um resultado que permita afirmar que animais mais resistentes foram desenvolvidos.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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