Pecuaristas cruzam Pantanal para mostrar como se produz preservando a natureza

Produtores rurais, pesquisadores e lideranças percorreram 500 km em quatro dias para ouvir famílias pantaneiras e transformar as demandas do território em propostas para fortalecer a pecuária, a preservação ambiental e a cultura do Pantanal

O Pantanal é reconhecido mundialmente por sua biodiversidade exuberante, suas paisagens alagadas e sua rica fauna silvestre. Mas há outro patrimônio igualmente valioso que ajuda a manter esse bioma vivo há gerações: as famílias pantaneiras que construíram sua história na pecuária, aprendendo a produzir em harmonia com a natureza. Foi justamente para ouvir essas pessoas e compreender, diretamente no território, os desafios e as oportunidades da produção sustentável que nasceu a Comitiva Pecuária Tropical pelo Clima.

Durante quatro dias, a iniciativa percorreu aproximadamente 500 quilômetros pelo Pantanal sul-mato-grossense em uma grande jornada de escuta promovida pelo Instituto Pecuária Tropical pelo Clima, por meio do projeto Vozes da Pecuária. A expedição reuniu produtores rurais, pesquisadores, profissionais do agronegócio, lideranças locais e representantes da sociedade civil com um objetivo claro: transformar as demandas genuínas do campo em propostas que serão apresentadas aos candidatos das próximas eleições e às instituições ligadas ao setor.

A comitiva foi liderada pelos pecuaristas Leonardo Leite Barros, Stefano Rettore e José Feliciano Lima Baptista, que percorreram fazendas, comunidades e entidades representativas para construir um diagnóstico baseado na realidade de quem produz no Pantanal.

A primeira parada aconteceu no Sindicato Rural de Rio Negro, onde produtores, comerciantes e técnicos participaram de uma ampla roda de conversa. Segurança jurídica, legislação ambiental, infraestrutura e os desafios específicos da pecuária pantaneira estiveram entre os principais temas debatidos. Mais do que levantar reivindicações, o encontro buscou construir um ambiente de diálogo capaz de transformar experiências vividas no campo em propostas concretas para fortalecer a atividade.

Entre os participantes estava René Miranda Alves, produtor rural e representante de uma tradicional família pantaneira. Segundo ele, a convivência equilibrada entre produção e conservação ambiental faz parte da identidade da região. Para o produtor, é fundamental que a sociedade urbana compreenda que os pecuaristas do Pantanal preservam a natureza, investem nas pessoas e trabalham para manter viva uma cultura construída ao longo de gerações.

A segunda etapa da expedição levou o grupo até a Pousada Baía das Pedras, na região da Nhecolândia, um dos destinos mais tradicionais do turismo pantaneiro. O encontro proporcionou um diálogo pouco comum entre produtores rurais e turistas que visitavam o bioma. Pela primeira vez, muitos visitantes puderam conhecer a realidade da pecuária pantaneira diretamente pela voz de quem vive e trabalha diariamente naquele ambiente.

A produtora rural Rita Maria Coelho Lima e Jurgielewicz, descendente de uma das famílias pioneiras da região e proprietária da pousada, destacou que a convivência entre o gado e a fauna silvestre faz parte da rotina do Pantanal. Segundo ela, o peão pantaneiro compreende que também é guardião daquele ecossistema, convivendo naturalmente com antas, cervos, capivaras, jacarés e inúmeras outras espécies sem romper o equilíbrio ambiental.

Na avaliação dos organizadores, essa aproximação entre visitantes e produtores mostrou como a informação pode aproximar diferentes visões sobre a conservação do Pantanal e contribuir para políticas públicas baseadas no conhecimento e na educação ambiental.

A terceira parada aconteceu na Fazenda Baía Negra, em Aquidauana, propriedade do produtor Pedro Manoel Corrêa da Costa, presidente da Associação Brasileira de Produtores Orgânicos (ABPO). Ali, a discussão aprofundou temas relacionados à produção de carne orgânica, às particularidades da pecuária em áreas alagáveis e aos impactos da legislação ambiental sobre quem produz no bioma.

Os participantes destacaram que o conhecimento acumulado pelas famílias pantaneiras ao longo de décadas representa um patrimônio estratégico para a construção de políticas públicas mais eficientes, capazes de conciliar produção, conservação e desenvolvimento regional.

Encerrando a jornada pelas propriedades rurais, a comitiva visitou a histórica Fazenda Taboco, administrada por Gabriel Ribeiro, representante da quinta geração da família que ocupa a propriedade desde 1840. O local simboliza o equilíbrio entre tradição e inovação, reunindo tecnologia, manejo sustentável e forte investimento na qualidade de vida dos colaboradores.

Além da atividade pecuária, a fazenda mantém estrutura educacional para atender cerca de 60 crianças da região, reforçando a importância da permanência das famílias no campo e da sucessão das novas gerações. Para Gabriel Ribeiro, embora a formação acadêmica seja essencial, o Pantanal ensina diariamente que produzir naquele ambiente exige adaptação constante às cheias, à seca e às limitações de infraestrutura típicas do bioma.

A expedição foi concluída durante o Pantanal Tech, em Aquidauana, onde os principais aprendizados da jornada foram apresentados em uma roda de conversa que reuniu produtores, pesquisadores, representantes da universidade, da Embrapa Pantanal e integrantes do movimento. O grupo também apresentou a iniciativa ao governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel.

Segundo os organizadores, o projeto Vozes da Pecuária busca construir um documento nacional reunindo propostas elaboradas a partir da realidade de dez diferentes territórios brasileiros. A intenção é colocar o produtor rural no centro do debate sobre sustentabilidade, produção de alimentos, conservação ambiental e desenvolvimento econômico.

Ao percorrer estradas, fazendas e comunidades pantaneiras, a Comitiva Pecuária Tropical pelo Clima reforçou uma mensagem importante: preservar o Pantanal e fortalecer sua pecuária não são objetivos opostos. Pelo contrário, caminham lado a lado há gerações, sustentados pelo conhecimento de quem aprendeu que produzir alimento começa pelo respeito ao tempo da natureza e pela valorização das pessoas que vivem no campo.

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