Parasita raro invade cérebro de cavalos Crioulos e revela desafio para pesquisadores no Brasil

Estudo com dois animais do Rio Grande do Sul faz a primeira caracterização filogenética brasileira do Halicephalobus gingivalis, nematoide ambiental associado a doença neurológica grave e de difícil diagnóstico

Dois cavalos da raça Crioula desenvolveram alterações neurológicas rapidamente progressivas no Rio Grande do Sul. Apatia, sonolência e perda de coordenação evoluíram para um quadro tão grave que ambos foram submetidos à eutanásia. A investigação identificou no cérebro dos animais um agente incomum: o Halicephalobus gingivalis, nematoide de vida livre capaz de infectar mamíferos e provocar inflamação severa no sistema nervoso.

Os casos integram um estudo publicado em 29 de setembro de 2026, na revista Veterinary Research Communications, com participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e outras instituições. O trabalho apresenta a primeira descrição filogenética do parasita no Brasil, permitindo comparar geneticamente os isolados brasileiros com aqueles encontrados em outros países.

Os episódios ocorreram em 2021 e 2023, em propriedades diferentes. A publicação não descreve um surto atual nem apresenta evidência de aumento da doença entre cavalos Crioulos em 2026. Sua principal contribuição é ampliar o conhecimento sobre uma infecção rara, cujas formas de entrada no organismo e disseminação ainda não estão completamente esclarecidas.

Dois cavalos de propriedades diferentes apresentaram evolução semelhante

O primeiro caso ocorreu em julho de 2021, envolvendo uma égua Crioula de 11 anos, proveniente de um criatório de Capivari do Sul. O segundo foi registrado em maio de 2023, em um macho Crioulo de 12 anos, de uma propriedade localizada em Garibaldi.

Ambos foram encaminhados ao Hospital de Clínicas Veterinárias da UFRGS. Apesar da distância entre as propriedades e do intervalo de quase dois anos, os animais apresentaram históricos clínicos semelhantes.

Segundo os proprietários, as alterações haviam começado aproximadamente três a cinco dias antes do atendimento. Entre os sinais relatados estavam:

  • Apatia e sonolência;
  • Ataxia, caracterizada pela perda de coordenação;
  • Redução da propriocepção, relacionada à percepção da posição do corpo e dos membros;
  • Ranger de dentes;
  • Redução da motilidade intestinal;
  • Pressão da cabeça contra superfícies.

Esse último comportamento, conhecido como head pressing, merece atenção quando é persistente e acompanhado de alterações de consciência ou coordenação. Nessas condições, pode estar associado a comprometimento do sistema nervoso central.

Diante da gravidade dos quadros e do prognóstico desfavorável, os dois animais foram submetidos à eutanásia entre 24 e 48 horas após a internação.

A microscopia revelou o parasita no tecido nervoso

As necropsias mostraram que a intensidade dos sinais neurológicos nem sempre corresponde a alterações facilmente visíveis no cérebro.

Na primeira égua, os pesquisadores observaram pequenos pontos avermelhados, de aproximadamente 1 a 2 milímetros, em uma região do hemisfério cerebral esquerdo. No segundo cavalo, não foram identificadas lesões cerebrais macroscópicas.

A análise microscópica, entretanto, revelou inflamação granulomatosa associada a estruturas parasitárias. Os nematoides apareciam próximos aos vasos sanguíneos e também livres no tecido nervoso.

As estruturas observadas mediam aproximadamente 150 a 200 micrômetros de comprimento por 15 a 20 micrômetros de largura. Um micrômetro corresponde à milésima parte de um milímetro, o que ajuda a explicar por que a identificação depende de exames especializados.

As características eram compatíveis com Halicephalobus, mas a equipe utilizou ferramentas moleculares para confirmar a espécie.

Análise do DNA trouxe a principal novidade científica

O exame molecular de uma região do gene 28S rRNA confirmou a presença de Halicephalobus gingivalis. No trecho analisado, as sequências apresentaram 100% de cobertura e identidade com registros do parasita obtidos de cavalos dos Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão e Itália, além de amostras ambientais.

A análise filogenética — que investiga relações genéticas entre organismos — posicionou os isolados brasileiros na Linhagem 3, já associada a infecções equinas em diferentes partes do mundo. Essa caracterização é inédita no país.

O resultado permite inserir as amostras brasileiras nas comparações internacionais. Entretanto, a identificação da linhagem, por si só, não esclarece onde os animais se infectaram nem permite reconstruir a origem da infecção.

O que é o Halicephalobus gingivalis

Diferentemente dos vermes normalmente associados ao trato gastrointestinal dos cavalos, o H. gingivalis é um nematoide de vida livre, encontrado em ambientes como matéria orgânica em decomposição.

Ocasionalmente, ele consegue infectar mamíferos. A doença, chamada halicefalobose, já foi descrita em equinos, bovinos e seres humanos. Quando o agente alcança o sistema nervoso central, pode provocar meningoencefalite e evolução fatal.

Uma das principais lacunas científicas está na compreensão de como a infecção começa. A hipótese discutida na literatura é que as larvas penetrem por lesões na pele ou nas mucosas, incluindo as regiões oral e nasal. Depois, poderiam se disseminar pelas vias sanguínea e linfática.

A presença dos parasitas junto aos vasos nos cavalos estudados é compatível com essa possibilidade. Ainda assim, o ciclo biológico e a patogênese não estão completamente esclarecidos, e o trabalho não permite atribuir os casos a uma prática específica de manejo.

A infecção também atingiu rins e linfonodos

No segundo cavalo, os achados demonstraram que o problema ultrapassava o sistema nervoso.

Os rins apresentavam nódulos firmes, de coloração branca a amarelada, medindo 2 a 7 centímetros, com envolvimento do córtex e da medula renal. Os linfonodos ilíacos também estavam aumentados, chegando a aproximadamente 10 × 6 × 3,5 centímetros.

Ao microscópio, essas áreas apresentavam intensa reação inflamatória associada a numerosas larvas.

O conjunto dos achados caracterizou uma infecção multissistêmica, com comprometimento de diferentes órgãos. Entretanto, a distribuição das lesões não permite determinar com precisão a sequência em que cada tecido foi atingido.

Diagnóstico em vida e tratamento são desafios

A halicefalobose pode ser difícil de reconhecer porque os sinais neurológicos não são exclusivos dessa infecção. Perda de coordenação, alterações comportamentais e redução da propriocepção também aparecem em outras enfermidades.

Nos dois casos, amostras de cérebro e medula foram examinadas para investigação de raiva, com resultados negativos. A identificação do nematoide foi esclarecida pela combinação de necropsia, histopatologia e análise molecular.

O tratamento representa outro obstáculo, especialmente quando há comprometimento cerebral. Embora a literatura registre tentativas com anti-helmínticos, a barreira hematoencefálica dificulta que determinados medicamentos alcancem concentrações adequadas no sistema nervoso central.

Por isso, os casos neurológicos apresentam prognóstico particularmente desfavorável. Os autores destacam que a maioria dos relatos dessa apresentação terminou em morte ou eutanásia.

Dois casos em Crioulos não demonstram predisposição da raça

A ocorrência em dois animais Crioulos chama atenção, mas não constitui evidência de maior suscetibilidade racial.

O estudo descreve dois cavalos adultos, de propriedades diferentes, e não foi desenhado para comparar o risco entre raças. A doença já foi relatada mundialmente em equinos de diferentes perfis.

Da mesma forma, a publicação não permite concluir que o parasita tenha surgido recentemente no Brasil. Casos anteriores já haviam sido descritos nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste.

A novidade está na caracterização filogenética dos isolados brasileiros, e não na primeira presença do agente no território nacional.

Infecções humanas são raras e não indicam transmissão pelos cavalos

O H. gingivalis também possui capacidade de infectar seres humanos, com relatos de meningoencefalite fatal em outros países. Essa característica explica o interesse dos pesquisadores pela relevância do agente para a saúde humana e animal.

O contexto, porém, é essencial: as infecções humanas são extremamente raras, e os autores informam que nenhum caso humano havia sido relatado no Brasil.

Além disso, o estudo não demonstra transmissão direta de cavalos para pessoas. Trata-se de um organismo com existência ambiental, cujas vias de infecção ainda precisam ser mais bem compreendidas.

O que o estudo muda para criadores e veterinários

Para quem cria cavalos, a aplicação prática está na atenção às alterações neurológicas. Perda de coordenação, mudanças de consciência e pressão persistente da cabeça contra paredes exigem avaliação veterinária imediata, independentemente da suspeita inicial.

Esses sinais podem ter diferentes causas. O H. gingivalis integra uma possibilidade rara a ser considerada pelo veterinário quando o histórico e os achados clínicos e patológicos forem compatíveis.

A pesquisa não sustenta medidas extraordinárias nos criatórios nem alterações generalizadas nos programas de vermifugação. Também não permite identificar uma medida específica capaz de impedir essa infecção.

Para a ciência, os dois casos fornecem uma referência genética brasileira e reforçam a necessidade de ampliar os estudos sobre transmissão, distribuição ambiental e possíveis diferenças entre linhagens. O diagnóstico detalhado de uma doença rara pode ajudar a esclarecer futuros episódios que, apenas pelos sintomas, seriam difíceis de distinguir de outras enfermidades neurológicas.

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