Programa oferece prazo de até 15 anos e garantia pública de até 50% em operações de até US$ 2,5 milhões; alimentos e agroindústria estão entre os setores contemplados
O Paraguai colocou em operação uma linha de crédito de US$ 100 milhões para financiar investimentos industriais, com juros de 8,5% ao ano em dólares ou 10,5% em guaranis, prazo de até 15 anos e carência de três anos. Disponíveis desde 1º de outubro, os recursos podem ser utilizados na construção de fábricas, ampliação de plantas existentes e compra de máquinas, equipamentos e tecnologia.
Batizado de Paraguay Industrial, o programa acrescenta financiamento de longo prazo à estratégia do país para estimular investimentos produtivos, principalmente de origem internacional. Para empresas brasileiras, incluindo as dos setores de alimentos e agroindústria, a iniciativa amplia os fatores a considerar na decisão sobre onde instalar ou expandir uma operação.
Além do crédito, o país criou o Fundo de Garantia para a Indústria (Fogain), que pode cobrir até 50% do risco em operações de até US$ 2,5 milhões. O mecanismo busca facilitar o acesso de empresas que não disponham de garantias suficientes para contratar o financiamento.
Capital brasileiro já tem presença na indústria paraguaia
Dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai (MIC) apontam 165 empresas do regime de Maquila com participação de capital brasileiro, integral ou misto. Nesse regime, voltado à produção para exportação, as empresas recolhem um tributo único de 1%, conforme as regras aplicáveis à operação.
Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações das indústrias maquiladoras alcançaram US$ 1,01 bilhão, crescimento de 26% sobre o mesmo período de 2025. Cerca de 60% tiveram o Brasil como destino. Autopeças responderam por 32% do valor exportado, enquanto têxteis e confecções representaram 16%.
Para Suelen Raizer, fundadora da Frontexa, consultoria que assessora empresas brasileiras na avaliação e estruturação de operações internacionais, o financiamento adiciona uma nova variável à decisão sobre onde instalar ou ampliar a capacidade produtiva.
“O Paraguai já vinha atraindo capital brasileiro por fatores tributários e de custo de produção. Agora, crédito de longo prazo e garantia passam a fazer parte dessa equação. Para uma indústria que está decidindo onde fazer sua próxima expansão, são condições que precisam entrar na comparação”, afirma.
Taxa em dólares fica abaixo da média recente do BNDES
Segundo o Banco Central, a taxa média das novas operações de financiamento de investimentos para pessoas jurídicas com recursos do BNDES ficou em 13,33% ao ano em julho de 2026. A taxa de 8,5% do programa paraguaio está 4,83 pontos percentuais abaixo dessa média.
A diferença nominal, porém, não significa que o financiamento será necessariamente mais barato para qualquer empresa brasileira. Os juros de 8,5% são cobrados em dólares. Uma companhia que assume dívida na moeda americana, mas gera receitas em reais ou guaranis, fica exposta à variação cambial.
No Brasil, o custo também varia conforme a linha contratada, o perfil da empresa, a finalidade do investimento, as garantias e a instituição financeira responsável pela operação.
“A taxa chama atenção, mas não pode ser analisada isoladamente. É preciso considerar a moeda da dívida e da receita, o custo total do financiamento, prazo, carência e garantias. Para uma indústria exportadora que recebe em dólares, por exemplo, a análise pode ser bastante diferente daquela de uma empresa voltada ao mercado doméstico”, explica Suelen.
Como funciona o Paraguay Industrial
O programa é operado pela Agência Financeira de Desenvolvimento (AFD) em parceria com o MIC. Bancos, financeiras e cooperativas credenciados fazem a análise das operações, enquanto o ministério verifica o enquadramento dos projetos.
A iniciativa contempla indústrias de médio e grande porte em setores como:
- Alimentos e agroindústria;
- Metalmecânica;
- Têxteis e confecções;
- Madeira;
- Outras manufaturas.
Os recursos podem financiar tanto a implantação de unidades industriais quanto a expansão e modernização de operações existentes. A garantia pública do Fogain complementa essa estrutura, buscando reduzir a dificuldade de acesso ao crédito por insuficiência de garantias.
Crédito industrial avança no Paraguai
A nova linha chega em um momento de expansão do financiamento à indústria no país. Em 2026, a AFD informou ter aprovado US$ 108,8 milhões para o setor, ante US$ 18 milhões no mesmo período de 2025, uma alta de aproximadamente 503%. Foram 172 operações aprovadas.
Para Suelen, o avanço do crédito amplia o conjunto de fatores que empresas brasileiras precisam considerar ao comparar projetos industriais nos dois países.
“Durante muito tempo, a discussão sobre produzir no Paraguai ficou concentrada na diferença tributária. Quando entram financiamento de longo prazo e mecanismos de garantia, a análise passa a envolver também como viabilizar o investimento inicial e a expansão da operação”, afirma.
Logística, fornecedores e câmbio pesam na decisão
Embora as condições financeiras sejam relevantes, elas representam apenas uma parte da avaliação. Mão de obra, fornecedores, infraestrutura, logística, tributação, câmbio, regras de origem e mercado consumidor podem alterar a viabilidade de cada projeto.
Para as agroindústrias, essa análise também precisa considerar a localização das matérias-primas e o custo de transporte até a unidade de processamento e os mercados de destino. A vantagem financeira deve ser avaliada junto às necessidades operacionais de cada atividade.
“Não existe uma resposta única sobre onde uma empresa deve produzir. Uma taxa menor pode ser importante, mas não compensa problemas logísticos, falta de fornecedores ou exposição cambial mal dimensionada. A decisão precisa considerar o custo e o risco da operação como um todo”, conclui Suelen.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.