Doença causada por papilomavírus bovinos exige atenção ao manejo quando novos casos surgem em sequência; higiene dos equipamentos, redução de ferimentos e avaliação das lesões ajudam a limitar o problema enquanto tratamentos apresentam resultados variáveis
Uma verruga isolada pode parecer apenas um problema estético, mas a situação muda quando novos casos de papilomatose bovina começam a surgir em diferentes animais do mesmo lote. A doença é provocada por papilomavírus bovinos, os BPVs, capazes de produzir papilomas e fibropapilomas na pele e em mucosas. A maioria dessas lesões é benigna, porém a disseminação dentro do rebanho pode aumentar o risco de traumatismos, sangramentos, infecções secundárias e dificuldades de manejo.
O ponto mais importante para o produtor é que o desaparecimento das verrugas e o controle da circulação do vírus são problemas diferentes. Parte das lesões pode regredir com a própria resposta imunológica do bovino, enquanto o agente continua encontrando oportunidades de transmissão em animais suscetíveis. Por isso, quando há aumento de casos, concentrar toda a estratégia em “secar a verruga” pode deixar de lado justamente o manejo que reduz novas infecções.
Como a papilomatose bovina consegue avançar pelo lote?
Os papilomavírus têm afinidade pelas células epiteliais. A infecção é favorecida quando o vírus encontra pequenas lesões ou abrasões na pele, condição destacada por estudo brasileiro publicado em 2025 nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.
Isso torna relevantes procedimentos aparentemente rotineiros no curral. Uma publicação técnica da Escola de Medicina Veterinária da Purdue University descreve cordas, cabrestos e instrumentos de identificação como possíveis fontes indiretas de transmissão e chama atenção para equipamentos de tatuagem e colocação de brincos quando utilizados entre animais sem higienização adequada. A publicação é antiga, de 1992, mas esse mecanismo é compatível com o conhecimento atual de que abrasões favorecem a infecção pelo BPV.
Os bovinos mais jovens merecem atenção especial. A literatura veterinária aponta maior frequência da papilomatose em animais com menos de dois anos, embora bovinos adultos também possam desenvolver a doença.
As lesões não aparecem obrigatoriamente no mesmo ponto. Cabeça, pescoço, região dorsal, abdômen, tetos e áreas genitais estão entre as localizações descritas. Um conteúdo anterior sobre a diferença entre papilomatose e outras doenças de pele em bezerros também ajuda a entender por que nem toda alteração crostosa ou elevada na pele deve ser automaticamente tratada como verruga.
O que fazer quando começam a surgir vários animais com verrugas?
Quando o número de casos aumenta, a primeira resposta deve ser sanitária, não medicamentosa.
- Identificar e registrar os animais afetados. Fotografias e anotações permitem acompanhar se as lesões estão aumentando, diminuindo ou surgindo em outros pontos do corpo.
- Rever materiais compartilhados no manejo. Alicates de identificação, equipamentos que entrem em contato com a pele e outros utensílios reutilizáveis precisam ser devidamente higienizados e desinfetados. Agulhas não devem ser compartilhadas entre animais.
- Reduzir traumatismos desnecessários. Ferimentos e abrasões criam condições favoráveis para a entrada do vírus.
- Quando viável, manejar os animais mais acometidos separadamente ou por último. A medida reduz oportunidades de levar material contaminado diretamente de um bovino lesionado para animais sem verrugas aparentes.
- Avaliar a localização e a gravidade das lesões. Verrugas numerosas, traumatizadas ou instaladas em pontos que interferem na alimentação, reprodução ou ordenha justificam avaliação veterinária mais rápida.
Essas medidas não garantem a eliminação do BPV da propriedade, inclusive porque um bovino pode estar infectado sem apresentar lesões evidentes. Elas diminuem, porém, oportunidades de transmissão associadas ao manejo.
Quando a verruga deixa de ser apenas um problema visual?
Em muitos animais, pequenos papilomas cutâneos causam pouca repercussão clínica e podem regredir. O risco muda conforme quantidade, tamanho e localização.
Papilomas maiores podem sofrer traumatismos e sangrar. Nos tetos, as lesões podem interferir na ordenha e na mamada dos bezerros e deixar o tecido mais vulnerável a complicações secundárias. Estudos de papilomatose mamária em bovinos também descrevem associação com prejuízos de manejo e risco de mastite.
Lesões próximas aos olhos, boca, genitais ou em regiões constantemente traumatizadas também exigem atenção. Da mesma forma, uma massa com aparência incomum, ulceração persistente ou evolução diferente das demais não deve ser classificada apenas pela aparência.
O diagnóstico costuma começar pelo exame clínico, mas trabalhos científicos descrevem histopatologia e métodos moleculares entre os recursos capazes de confirmar a infecção ou esclarecer casos atípicos.
Papilomatose bovina tem tratamento?
É justamente nessa pergunta que começam muitas das divergências.
Cirurgia, crioterapia, ivermectina, levamisol, imunomoduladores, auto-hemoterapia e vacinas autógenas aparecem em diferentes estudos e relatos veterinários. O fato de um método ter produzido regressão em determinada pesquisa, entretanto, não significa que exista um protocolo universalmente eficaz para qualquer rebanho.
Um estudo publicado pela Veterinaria Italiana em 2023 acompanhou 60 bovinos, distribuídos aleatoriamente em seis grupos de dez animais. Em três meses de observação, os pesquisadores registraram regressão completa em 10 de 10 animais tratados com vacina autógena, sete de dez no grupo que recebeu ivermectina e resultados intermediários com outros protocolos. Nenhum dos dez animais do grupo controle apresentou regressão durante o período analisado.
O resultado merece atenção, mas não permite transformar a autovacina em solução garantida. Além do tamanho reduzido dos grupos, os próprios autores estudaram bovinos mantidos em pequenas propriedades e relataram condições inadequadas de alimentação, instalações e lotação em parte da população avaliada. A extrapolação para diferentes sistemas de produção, portanto, deve ser feita com cautela.
Outra pesquisa, publicada em 2023 na Frontiers in Veterinary Science, é mais conservadora: os autores afirmam que não existe uma terapia efetiva amplamente estabelecida para a papilomatose bovina e que abordagens vacinais continuam sendo objeto de desenvolvimento.
Essa aparente contradição entre trabalhos é justamente um dos motivos para não vender ao produtor a ideia de uma cura simples.
E a vacina autógena?
A vacina autógena é produzida a partir de material das próprias lesões e aparece há anos em pesquisas sobre papilomatose. Há estudos com resultados favoráveis, como o experimento de 2023, mas a evidência ainda não permite afirmar que todos os rebanhos terão a mesma resposta.
Também é fundamental diferenciar preparação laboratorial controlada de uma receita improvisada na fazenda. No estudo citado, o material passou por processamento, inativação, filtração e testes para verificar ausência de contaminação bacteriana e fúngica antes da aplicação.
Pesquisa brasileira publicada em 2025 avançou justamente nessa direção ao desenvolver experimentalmente uma formulação contendo vírus inativado associado a nanopartículas de quitosana. Os resultados mostraram características laboratoriais promissoras, mas o trabalho tratou a tecnologia como um protótipo de vacina, e não como produto cuja eficácia clínica já estivesse comprovada no campo.
Portanto, a informação mais segura hoje é: há linhas de pesquisa promissoras, mas não existe vacina contra a papilomatose bovina com eficácia preventiva universalmente consolidada.
Ivermectina resolve verruga em bovino?
Há pesquisas que encontraram regressão de papilomas após o uso de ivermectina, inclusive o estudo de 2023, no qual sete dos dez bovinos desse grupo apresentaram desaparecimento das lesões durante os 90 dias de acompanhamento.
Isso não transforma a ivermectina em antiviral específico contra BPV nem justifica o uso indiscriminado. O próprio conjunto da literatura apresenta taxas de resposta bastante diferentes entre estudos e protocolos. Além disso, a regressão da papilomatose depende da resposta imunológica do animal e pode ocorrer naturalmente.
Na prática, utilizar medicamentos apenas porque “derrubaram as verrugas” em outro rebanho pode significar custo sem benefício previsível e ainda estimular uso inadequado de produtos veterinários.
Cortar ou arrancar as verrugas é uma boa ideia?
A remoção cirúrgica é uma possibilidade descrita na literatura, especialmente quando poucas lesões estão em locais que comprometem a função do animal. O estudo da Veterinaria Italiana observa que intervenções operatórias podem produzir resultado mais rápido em casos selecionados.
Isso é diferente de arrancar verrugas indiscriminadamente no curral.
Lesões vascularizadas podem sangrar, e qualquer procedimento cria uma ferida que precisa de controle sanitário. A decisão deve considerar localização, número de papilomas, tamanho da lesão e benefício real da remoção.
Imagens de diferentes apresentações clínicas podem ser vistas em um conteúdo anterior sobre papilomatose bovina e suas diferentes formas de apresentação.
O principal sinal de alerta é a mudança no padrão do rebanho
Uma única verruga e dezenas de novos casos em poucas semanas não devem ser encarados da mesma maneira.
Quando a ocorrência começa a se concentrar em determinado lote ou faixa etária, o produtor precisa olhar também para o processo de manejo que esses animais compartilham: identificação, contenção, instrumentos, instalações e situações que causam ferimentos.
O tratamento individual pode ser necessário em determinados bovinos, principalmente diante de lesões extensas ou problemáticas. Mas, quando a papilomatose começa a se disseminar, o controle depende igualmente de impedir que o próprio manejo continue criando oportunidades para novas infecções.
E é justamente aí que a evidência disponível é mais consistente: diante de um problema para o qual ainda não existe uma cura universal, diagnóstico correto, biossegurança e avaliação criteriosa de cada caso pesam mais do que receitas aplicadas indistintamente em todo o rebanho.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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