Investigação aponta que estrutura ligada ao setor sucroenergético teria sido usada para ocultar patrimônio e movimentar recursos destinados à aquisição de uma grande distribuidora de combustíveis
Uma usina sucroalcooleira do interior de São Paulo entrou no centro de uma nova investigação sobre lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial deflagrada nesta quinta-feira, 24 de setembro. A apuração faz parte da Operação Crédito Oculto, desdobramento da Operação Carbono Oculto, e investiga estruturas financeiras que teriam sido utilizadas para esconder os verdadeiros beneficiários de empresas e ativos.
Segundo a Receita Federal, uma das empresas financeiras envolvidas no esquema investigado movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. A operação também identificou uma movimentação de cerca de R$ 370 milhões envolvendo direitos creditórios da usina, além da passagem de R$ 100 milhões pelas contas da empresa sucroalcooleira em uma operação relacionada à aquisição de uma grande distribuidora de combustíveis. (Serviços e Informações do Brasil)
A ação reúne Receita Federal, Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Secretaria da Fazenda de São Paulo, Procuradoria-Geral do Estado, Polícia Militar e Polícia Civil. Também há apoio de unidades do Gaeco de outros seis estados.
Ao todo, estão sendo cumpridos mandados em endereços vinculados a 13 pessoas físicas e 19 pessoas jurídicas, distribuídos por São Paulo, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Santa Catarina.
Investigação aponta ocultação do controle da usina
Uma das primeiras frentes da investigação busca esclarecer quem efetivamente controlava economicamente uma empresa sucroalcooleira instalada no interior paulista.
Formalmente, a participação na companhia estaria distribuída entre fundos de investimento e outras empresas que aparentavam atuar de maneira independente. Os investigadores, porém, afirmam ter encontrado indícios de que essa estrutura teria sido organizada para manter o controle econômico da usina sem revelar os beneficiários finais.
Posteriormente, um operador financeiro ligado a fintechs e outras empresas teria utilizado a própria estrutura societária para movimentar recursos e adicionar novas camadas de ocultação sobre a titularidade da empresa.
O documento utilizado como base desta reportagem também descreve a suspeita de utilização da usina justamente como um dos pontos de passagem e integração dos recursos ao ambiente empresarial formal.
Operação de R$ 370 milhões chama atenção

Entre os negócios analisados aparece uma operação de aproximadamente R$ 370 milhões em direitos creditórios ligados à usina.
Conforme a Receita Federal, uma empresa vinculada a uma sociedade de investimentos teria adquirido esses créditos por meio da transferência de cotas de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, o FIDC.
A análise financeira apontou que uma parcela relevante dos recursos empregados na aquisição teria origem em fundos controlados pelo mesmo grupo investigado.
A suspeita é de que o modelo tenha produzido um fluxo financeiro circular, dando aparência regular às operações e dificultando a identificação de quem efetivamente se beneficiava dos recursos.
R$ 100 milhões teriam passado pela usina
Outro ponto considerado relevante pelos investigadores envolve a aquisição de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.
Segundo a Receita Federal, a operação teria utilizado uma estrutura formada por banco, fundos de investimento, escritório de advocacia, holdings, empresas patrimoniais e companhias consideradas de fachada.
Nesse arranjo, a usina sucroalcooleira teria recebido R$ 100 milhões enviados pelo grupo investigado para contribuir com o financiamento da aquisição.
Os valores teriam passado rapidamente por contas de três empresas, utilizando estruturas mantidas em fintechs, antes de chegarem à companhia sucroalcooleira.
Depois disso, a usina teria sido incorporada à carteira de um fundo de investimento criado especificamente para a operação.
Fundos e empresas teriam funções diferentes no esquema
A investigação aponta que cada peça da estrutura financeira teria desempenhado uma função específica.
As fintechs seriam utilizadas para circulação e fragmentação dos recursos, enquanto a empresa sucroalcooleira teria o papel de receber os valores e incorporá-los a uma atividade econômica formal.
Fundos de investimento aparecem como financiadores das operações, enquanto holdings e outras empresas teriam sido empregadas nas aquisições e na criação de distâncias adicionais entre a origem do dinheiro e seus beneficiários finais.
Fundos imobiliários também estão no radar. Segundo os investigadores, imóveis relacionados aos investigados teriam sido transferidos para empresas patrimoniais e posteriormente incorporados a fundos, dificultando a identificação direta dos ativos controlados pelo grupo.
Empresa financeira movimentou R$ 11,6 bilhões
O maior número revelado nesta etapa da operação envolve a empresa financeira que, segundo a investigação, teria participado da aquisição simulada da companhia sucroalcooleira.
A Receita Federal afirma que essa empresa movimentou cerca de R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
Para os investigadores, o volume financeiro, associado às demais evidências levantadas, reforça os indícios de utilização de empresas, fundos e instrumentos financeiros para ocultação patrimonial, dissimulação da origem de recursos e possível lavagem de dinheiro.
A Operação Crédito Oculto agora busca aprofundar a identificação dos responsáveis pelas operações, dos beneficiários finais dos ativos e do caminho percorrido pelos recursos.
Importante destacar que as informações divulgadas até o momento dizem respeito a suspeitas e indícios investigados pelas autoridades. A existência da operação, por si só, não representa condenação dos envolvidos.
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