Onde o boi encontra dificuldade, búfalos avançam e rebanho cresce 25% em três anos

Rebanho argentino chegou a 205 mil cabeças em 2026 e chama atenção pela capacidade de produzir carne em ambientes mais desafiadores; produtor relata salto de 25 para 100 kg de carne por hectare na produção de búfalos

Enquanto a pecuária bovina encontra limitações produtivas em determinadas áreas de pastagens mais difíceis, uma criação ainda relativamente pequena começa a ganhar terreno na Argentina: a de búfalos. O rebanho do país alcançou 205 mil animais em 2026, crescimento de 25,3% em apenas três anos, segundo dados do Ministério da Agricultura argentino publicados originalmente pelo jornal Clarín.

Mais do que o crescimento do plantel, porém, são os números obtidos dentro das propriedades que ajudam a explicar o interesse pela espécie. Em Formosa, no Norte argentino, o produtor Diego Reynal afirma ter conseguido quadruplicar a produção de carne por hectare depois de substituir bovinos por búfalos em determinadas áreas da fazenda.

O caso foi apresentado originalmente em reportagem do jornalista Lucas Villamil, do Clarín, publicada em 11 de agosto, e posteriormente repercutido no Brasil pelo Portal DBO. A própria DBO atribui ao jornal argentino a origem das informações sobre a expansão da atividade.

Búfalos crescem justamente nas regiões mais desafiadoras

A distribuição do rebanho ajuda a entender o movimento. Corrientes, Formosa e Chaco concentram 83% dos búfalos da Argentina, regiões nas quais as características ambientais podem representar limitações para outras atividades pecuárias.

É justamente nesse ambiente que Reynal construiu sua experiência. O produtor mantém aproximadamente 12 mil búfalos em Formosa e começou a trabalhar com a espécie no início dos anos 2000.

Segundo seu relato ao Clarín, um dos primeiros sinais de que havia encontrado uma alternativa interessante apareceu na reprodução. Mesmo mantidas em pastagens que ele considerava de baixa qualidade, as búfalas apresentavam condição suficiente para produzir bezerros e voltar a emprenhar.

Os primeiros resultados chamaram sua atenção: bezerros de novilhas de primeira cria chegaram a 290 quilos, segundo o produtor. Na propriedade, a lotação relatada é de aproximadamente 2,5 hectares por cabeça.

Mas o dado mais expressivo veio da produtividade por área.

“Em apenas 3 anos, passei de produzir 25 quilos de carne por hectare com gado bovino […] para produzir 100 quilos por hectare com búfalos”, relatou Reynal ao Clarín.

Trata-se da experiência específica de uma propriedade, portanto não deve ser interpretada como uma comparação universal entre bovinos e bubalinos. Ainda assim, o resultado ajuda a explicar por que a espécie começa a ser observada como alternativa produtiva para ambientes nos quais o bovino pode encontrar maiores restrições.

A capacidade de aproveitar pastagens vira vantagem

Outro ponto destacado pelo criador é o comportamento alimentar dos animais. Segundo Reynal, os búfalos apresentam menor seletividade na utilização da vegetação disponível, característica que permite aproveitar recursos forrageiros que poderiam ter menor utilização em determinados sistemas com bovinos.

O produtor afirma ainda que percebeu mudanças no próprio manejo da vegetação. Em uma região onde as queimadas são proibidas, ele passou a enxergar os animais também como ferramenta para utilização da biomassa existente.

“Além de ganhar peso, o búfalo come de tudo; ele não seleciona o que come”, explicou ao jornal argentino.

Essa característica abre uma discussão importante para a pecuária: nem toda área precisa necessariamente ser adaptada ao animal; em alguns sistemas, pode ser economicamente mais interessante trabalhar com animais adaptados às condições da área.

É justamente nesse ponto que a bubalinocultura encontra espaço.

Fertilidade e longevidade entram na conta

A reprodução também aparece entre os argumentos apresentados pelo produtor argentino. Reynal afirma que animais bem alimentados apresentam elevada fertilidade e destaca principalmente a longevidade das matrizes.

Segundo seu relato, búfalas podem permanecer produtivas por muitos anos e chegar a produzir até 15 bezerros ao longo da vida. Ele também cita animais que alcançaram 600 quilos ainda com dentes de leite como exemplo do potencial de desenvolvimento observado em seu sistema.

São declarações baseadas na experiência do criador entrevistado e precisam ser compreendidas dentro desse contexto produtivo, mas reforçam os atributos que vêm colocando a espécie no radar de produtores argentinos: rusticidade, reprodução, longevidade e capacidade de utilização de ambientes mais limitantes.

Argentina começa a organizar também o mercado

O avanço não ocorre apenas dentro das fazendas.

Desde junho de 2026, o sistema argentino TRAZA VIEWER passou a incorporar categorias específicas relacionadas ao abate de búfalos, permitindo maior detalhamento dos animais enviados aos frigoríficos por idade e sexo.

Segundo o governo argentino, a iniciativa permite melhorar a caracterização da produção e ampliar a transparência das informações da cadeia.

Existe ainda uma pequena, mas estratégica, porta para o mercado externo. A Argentina dispõe de uma cota de 200 toneladas de carne bubalina de alta qualidade destinada à União Europeia com tarifa de importação zero, segundo as informações reunidas pelo Clarín.

Para uma cadeia que ainda possui pouco mais de 200 mil animais, o movimento pode representar o começo da construção de um mercado mais estruturado.

O que a experiência argentina diz ao produtor brasileiro

O avanço argentino merece atenção justamente porque o Brasil possui condições ambientais muito diferentes entre suas regiões, incluindo áreas úmidas, várzeas e ambientes onde sistemas pecuários tradicionais podem exigir adaptações importantes.

Isso não significa que búfalos substituirão bovinos — muito menos que sejam superiores em qualquer sistema. O que a experiência argentina demonstra é outra coisa: a espécie pode transformar limitações ambientais em vantagem competitiva quando inserida no sistema correto.

Na Argentina, uma atividade ainda considerada de nicho já ultrapassou 205 mil animais e cresceu 25,3% desde 2023. Mais relevante que o tamanho absoluto do rebanho é onde esse crescimento está acontecendo: justamente em regiões nas quais rusticidade e capacidade de aproveitar ambientes difíceis podem valer tanto quanto genética e ganho de peso.

É uma lógica simples da produção animal: o melhor animal nem sempre é aquele que produz mais em condições ideais, mas aquele capaz de transformar em resultado econômico os recursos que a propriedade realmente oferece.

Fonte original: reportagem de Lucas Villamil publicada pelo jornal argentino Clarín, em 11 de agosto de 2026, com dados do Ministério da Agricultura da Argentina e entrevista com o produtor Diego Reynal.

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