O que um país procura dentro de uma granja antes de comprar carne brasileira?

Missão da Coreia do Sul no Rio Grande do Sul revela como biosseguridade, rastreabilidade e atuação do serviço veterinário pesam na decisão de abrir novas regiões produtoras ao comércio internacional

Antes de ampliar o acesso da carne suína brasileira ao seu mercado, um país pode querer enxergar de perto aquilo que documentos e certificados descrevem no papel. Foi o que ocorreu nesta semana no Rio Grande do Sul, onde técnicos da Coreia do Sul visitaram uma granja comercial no Vale do Taquari e acompanharam procedimentos ligados à biosseguridade, rastreabilidade dos animais, controle sanitário e vigilância oficial. A missão é coordenada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e integra a análise sul-coreana sobre a cadeia produtiva gaúcha.

A visita não significa que o Rio Grande do Sul esteja automaticamente autorizado a exportar para o país asiático. As informações recolhidas serão consolidadas em relatórios e pareceres técnicos e servirão de subsídio para a decisão das autoridades sul-coreanas sobre eventual ampliação do acesso e habilitação de estabelecimentos brasileiros. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

O que os técnicos realmente procuram dentro de uma granja?

A avaliação começa pela capacidade de a propriedade reduzir o risco de entrada e disseminação de doenças. É o princípio da biosseguridade: impedir que agentes infecciosos cheguem ao plantel e, caso um problema ocorra, dificultar sua propagação.

No caso da missão sul-coreana, o governo gaúcho informou oficialmente que os visitantes conheceram medidas de biosseguridade, procedimentos de rastreabilidade, protocolos de controle sanitário e ações de vigilância executadas pelo Serviço Veterinário Oficial do Rio Grande do Sul.

Isso ajuda a entender por que uma negociação comercial pode chegar até o portão de uma granja. Para um importador, não basta avaliar apenas o frigorífico que prepara a carne para exportação. A confiabilidade do produto também depende das condições sanitárias existentes na origem dos animais.

A Embrapa define a biosseguridade na suinocultura como o conjunto de medidas destinadas a evitar a entrada e a disseminação de enfermidades no rebanho. Entre as práticas utilizadas nas propriedades estão controle do acesso de pessoas e veículos, higienização, isolamento das instalações, manejo sanitário e cuidados com água, resíduos e animais externos à produção.

No Rio Grande do Sul, esse assunto ganhou peso adicional com a implementação das exigências estaduais de biosseguridade para granjas comerciais. O Compre Rural acompanhou o prazo final de adequação das propriedades gaúchas às regras sanitárias, que incluíram medidas estruturais como cercamento, barreiras sanitárias, embarcadouros e proteção das instalações.

Rastreabilidade mostra de onde veio o animal e por onde ele passou

A segunda peça é a rastreabilidade. Para um país comprador, saber a origem de um lote não é somente uma questão comercial. Em uma emergência sanitária, registros confiáveis permitem identificar propriedades relacionadas, movimentações de animais e possíveis pontos de contato com outros rebanhos.

Quanto mais rápida essa reconstrução, maior a capacidade de delimitar um problema e impedir que ele alcance outras propriedades ou regiões.

Por isso, uma missão estrangeira também observa a conexão entre produtor, indústria e governo. O objetivo é avaliar se os registros existentes no campo podem ser utilizados pelo sistema oficial para acompanhar a cadeia produtiva e responder a uma suspeita sanitária.

As próprias diretrizes internacionais da Organização Mundial de Saúde Animal tratam biosseguridade, vigilância, diagnóstico e rastreabilidade como elementos essenciais na gestão de riscos sanitários da produção suína.

Carne suína brasileira: por que o certificado da OMSA não basta sozinho?

O Brasil alcançou em 2025 o reconhecimento da Organização Mundial de Saúde Animal como território livre de febre aftosa sem vacinação. O Mapa informa que o status passou a abranger todo o país, após décadas de políticas de erradicação e vigilância.

Mas um reconhecimento internacional não obriga automaticamente todos os compradores a atualizar seus próprios protocolos comerciais.

No caso da Coreia do Sul, a ABPA informou em 16 de setembro de 2026 que Santa Catarina continua sendo o único estado brasileiro reconhecido pelas autoridades sul-coreanas com o status exigido para as exportações de carne suína ao destino. O reconhecimento dos demais estados está justamente entre os temas em negociação.

Essa discussão já se arrasta há alguns anos. Em 2024, representantes do Mapa negociaram com autoridades sul-coreanas a expansão da área autorizada para exportar carne suína, incluindo Rio Grande do Sul e Paraná.

A missão realizada agora no território gaúcho representa, portanto, mais uma etapa técnica desse processo.

Por que a Coreia do Sul interessa tanto à suinocultura?

O mercado sul-coreano tem peso relevante no comércio mundial da proteína. Segundo a ABPA, com base em dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a Coreia do Sul foi o quinto maior importador mundial de carne suína em 2025, com 723 mil toneladas em equivalente-carcaça.

O Brasil já participa desse mercado por meio das regiões autorizadas. De janeiro a agosto de 2026, foram enviadas 19,798 mil toneladas de carne suína brasileira à Coreia do Sul, crescimento de 33,7% frente ao mesmo período de 2025. A receita somou US$ 46,992 milhões, alta de 32,9%.

Uma autorização para novos estados ampliaria o número potencial de fornecedores brasileiros, mas não significa automaticamente novos contratos nem aumento de preços pagos ao produtor. O resultado comercial dependerá das plantas efetivamente habilitadas, custos logísticos, tarifas, competitividade, câmbio e demanda do mercado asiático.

O interesse ocorre enquanto as exportações brasileiras atingem níveis elevados. Segundo a ABPA, os embarques de carne suína chegaram a 1,057 milhão de toneladas entre janeiro e agosto de 2026, avanço de 8,9% sobre igual período de 2025. A receita acumulada alcançou US$ 2,447 bilhões.

Em agosto, o Rio Grande do Sul foi o segundo maior estado exportador, com 30,369 mil toneladas, atrás de Santa Catarina, que embarcou 64,091 mil toneladas. O avanço do comércio exterior também aparece no levantamento sobre o recorde das exportações brasileiras de carne suína no primeiro semestre.

A avaliação também coloca o serviço veterinário à prova

Outro detalhe essencial é que a granja não está sendo observada de forma isolada.

O comunicado gaúcho destaca que a missão conheceu as ações do Serviço Veterinário Oficial do Rio Grande do Sul, responsável por atividades de vigilância e defesa sanitária.

Isso ocorre porque o país importador precisa avaliar não apenas se uma propriedade específica segue determinado procedimento, mas se existe uma estrutura pública capaz de fiscalizar, identificar riscos, investigar suspeitas e aplicar medidas sanitárias.

O próprio Mapa explica que auditorias internacionais podem envolver tanto visitas a estabelecimentos individuais quanto avaliações do Serviço Veterinário Oficial brasileiro. Dependendo do processo, os importadores podem aprovar estabelecimentos, exigir correções de não conformidades ou manter unidades sem habilitação.

Para o produtor, essa relação mostra que ações rotineiras dentro da propriedade fazem parte de algo maior. Controle de acesso, registros, higiene, movimentação de animais e cumprimento das regras sanitárias ajudam a construir a credibilidade de toda uma região produtora.

E o que acontece depois que a missão vai embora?

Com as visitas concluídas, começa uma etapa menos visível.

As informações obtidas no Rio Grande do Sul serão analisadas pelas autoridades sul-coreanas e transformadas em relatórios e pareceres. Até a publicação das informações oficiais disponíveis em 17 de setembro de 2026, não havia prazo divulgado para a decisão final.

Também não há confirmação de quais frigoríficos poderão ser habilitados ou de quando eventuais novos embarques gaúchos começariam.

O caso mostra por que a abertura de mercados de proteína animal costuma levar tempo. Antes de aceitar carne de uma nova região, o comprador tenta responder a uma pergunta fundamental: se surgir um risco sanitário, é possível identificar rapidamente o problema, conter sua disseminação e confiar nas informações fornecidas pelo sistema produtor?

É isso que transforma uma visita aparentemente simples a uma granja em parte de uma negociação internacional que pode influenciar produtores, indústrias e o fluxo da carne suína brasileira pelo mundo.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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