Rastreabilidade, controle de resíduos, certificações, sustentabilidade das embalagens e eficiência logística ampliam os requisitos para produtores e empresas que querem disputar mercados externos
A exportação de frutas brasileiras passa por uma transformação que vai muito além da aparência, sabor e qualidade do produto. Compradores internacionais estão aumentando a atenção sobre a origem dos lotes, os controles realizados durante a produção, o uso de defensivos, as condições de beneficiamento, a documentação fitossanitária e até os materiais usados nas embalagens.
A mudança ocorre enquanto o Brasil amplia sua presença no comércio externo. Segundo a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), as exportações brasileiras do setor alcançaram US$ 1,45 bilhão em 2025, com crescimento de 12% em valor e de 19,6% em volume na comparação anual.
Nos oito primeiros meses de 2026, a entidade registrou US$ 880,52 milhões em embarques de frutas e nozes não oleaginosas, frescas ou secas, avanço de 23,67% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Apesar do desempenho, existe uma diferença expressiva entre a capacidade brasileira de produzir e de vender frutas ao exterior. A Abrafrutas estima produção superior a 40 milhões de toneladas anuais, mas aponta que apenas uma pequena parcela chega aos mercados internacionais.
Exportação de frutas exige mais controle sobre a origem
Entre as mudanças mais relevantes está a importância crescente da rastreabilidade dos alimentos.
Para determinadas operações, produtores e exportadores precisam manter registros que permitam identificar a origem da fruta, tratamentos realizados na lavoura, informações do lote, etapas de beneficiamento, embalagem e destino da mercadoria.
Esse acompanhamento permite localizar rapidamente a origem de eventuais problemas sanitários ou de qualidade e facilita auditorias realizadas por compradores.
Na prática, a rastreabilidade das frutas destinadas à exportação deixou de representar apenas um controle administrativo e passou a ter peso comercial na negociação com importadores.
Certificações podem determinar quem consegue vender
Outro fator que ganhou relevância são as certificações privadas.
A GLOBALG.A.P., por exemplo, estabelece padrões relacionados às boas práticas agrícolas, segurança dos alimentos, meio ambiente, trabalhadores e rastreabilidade.
A certificação, entretanto, não é uma obrigação legal para toda fruta brasileira exportada.
O que acontece é que supermercados, distribuidores e importadores podem exigir determinados protocolos antes de aceitar um fornecedor. Nessas situações, uma certificação voluntária passa a funcionar como condição comercial de acesso àquele cliente.
Por isso, o produtor interessado no mercado externo precisa primeiro identificar o destino e os potenciais compradores para, depois, verificar quais certificações serão necessárias.
A mesma lógica começa a atingir critérios ambientais. A adoção de práticas de sustentabilidade na produção destinada ao exterior vem sendo considerada por compradores e cadeias de abastecimento internacionais.
Requisitos fitossanitários variam conforme o mercado
No campo regulatório, cada país pode estabelecer exigências específicas para autorizar a entrada de produtos vegetais.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), a exportação depende dos requisitos fitossanitários definidos pelo país importador. Dependendo da fruta e do destino, podem ser exigidos procedimentos relacionados ao controle de pragas, inspeções, tratamentos, unidades produtoras e casas de embalagem.
Quando necessário, o Certificado Fitossanitário emitido pelo Mapa comprova oficialmente que a mercadoria atende às exigências informadas pelo país comprador.
O Brasil também vem ampliando a utilização do sistema eletrônico conhecido como ePhyto, que permite o intercâmbio digital de certificados fitossanitários entre autoridades nacionais.
Em 2026, o sistema brasileiro superou a marca de 100 mil certificados fitossanitários eletrônicos emitidos, reduzindo a dependência de documentos físicos nas operações habilitadas.
Controle de resíduos pode definir a entrada da fruta
Outra preocupação está nos resíduos de defensivos agrícolas.
A União Europeia estabelece Limites Máximos de Resíduos (LMR) para diferentes produtos e substâncias. De acordo com a Comissão Europeia, os mesmos limites valem para alimentos produzidos dentro do bloco e para mercadorias importadas.
Isso exige atenção do produtor brasileiro porque uma substância autorizada no País não necessariamente terá os mesmos limites permitidos no mercado de destino.
Para quem trabalha com exportação, o manejo da lavoura precisa considerar antecipadamente quais mercados serão atendidos.
Registros de aplicação, dose utilizada, período de carência e análises laboratoriais podem se tornar fundamentais para reduzir o risco de uma carga apresentar resíduos acima dos limites permitidos.
Uma irregularidade pode provocar retenção, rejeição ou aumento da fiscalização sobre determinados produtos.
Novas exigências também chegam às embalagens
As exigências ambientais estão avançando para além da propriedade rural.
Desde 12 de agosto de 2026, começou a aplicação gradual do novo regulamento europeu para embalagens e resíduos de embalagens, conhecido pela sigla PPWR.
Entre as primeiras medidas estão limites relacionados à presença de determinadas substâncias do grupo PFAS em embalagens que entram em contato com alimentos.
Outras regras previstas pela União Europeia serão implementadas de maneira progressiva, incluindo critérios relacionados à reciclabilidade, redução de resíduos e rotulagem.
Isso significa que caixas, bandejas, filmes e outros materiais utilizados para transportar frutas podem precisar atender às especificações estabelecidas pelo mercado importador.
Para o exportador, torna-se necessário avaliar também a documentação e a conformidade dos fornecedores de embalagens.
Logística ainda pesa na competitividade
Atender às exigências técnicas é apenas uma parte do processo.
Frutas frescas têm vida útil limitada e dependem diretamente da eficiência da cadeia logística. Disponibilidade de contêineres refrigerados, transporte rodoviário, tempo de trânsito marítimo, frequência de embarques e manutenção da temperatura interferem na qualidade entregue ao comprador.
Uma fruta pode sair da propriedade dentro de todos os padrões exigidos e ainda perder valor comercial caso encontre atrasos durante o transporte.
Por isso, a expansão das exportações brasileiras depende também de uma estrutura logística mais eficiente para a fruticultura, especialmente para destinos mais distantes.
Europa segue como um dos mercados mais importantes
A União Europeia permanece entre os principais destinos das frutas brasileiras.
Ao mesmo tempo em que oferece um mercado consumidor relevante, o bloco mantém requisitos rigorosos de segurança dos alimentos, sanidade vegetal, rastreabilidade e sustentabilidade.
Em algumas cadeias, mudanças comerciais também criam novas oportunidades. Em 2026, por exemplo, os primeiros embarques de uvas brasileiras começaram a aproveitar condições tarifárias mais favoráveis no comércio com o bloco.
A redução das tarifas sobre as uvas brasileiras na União Europeia aumenta a competitividade, mas não elimina os requisitos técnicos para entrada do produto.
Planejamento começa antes da fruta chegar ao campo
As novas exigências mostram que a decisão de exportar precisa começar antes do embarque — e, em muitos casos, antes mesmo da produção.
Definir antecipadamente o mercado ajuda o produtor a identificar quais produtos fitossanitários podem ser utilizados, quais registros precisam ser mantidos, se haverá necessidade de certificações privadas e quais padrões de embalagem e qualidade serão exigidos.
Produzir primeiro e buscar comprador depois aumenta o risco de descobrir, no fim da safra, que determinada fruta não atende integralmente às condições de um mercado.
Essas transformações devem estar entre os temas discutidos durante a Fruit Attraction 2026, marcada para ocorrer entre 6 e 8 de outubro, em Madri, na Espanha.
Organizada pela IFEMA Madrid e pela Federação Espanhola de Associações de Produtores Exportadores de Frutas, Hortaliças, Flores e Plantas Vivas (Fepex), a feira reúne produtores, importadores, distribuidores, fornecedores de tecnologia e operadores logísticos.
Empresas brasileiras participarão por meio do projeto Frutas do Brasil, desenvolvido pela Abrafrutas em parceria com a ApexBrasil.
Para o setor brasileiro, o desafio agora não é apenas produzir frutas competitivas. O acesso aos mercados mais disputados depende cada vez mais da capacidade de comprovar origem, segurança, conformidade, regularidade e eficiência ao longo de toda a cadeia.
VEJA MAIS:
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias
Não é permitida a cópia integral do conteúdo acima. A reprodução parcial é autorizada apenas na forma de citação e com link para o conteúdo na íntegra. Plágio é crime de acordo com a Lei 9610/98.