Avanço repentino do mar atingiu Jaguaruna, Laguna e Imbituba após uma combinação de instabilidade atmosférica, variações de pressão e ventos de até 90 km/h; fenômeno não é causado por terremotos
Um tsunami meteorológico em Santa Catarina provocou uma elevação rápida do nível do mar no Litoral Sul do estado na manhã de segunda-feira, 21 de setembro de 2026. O fenômeno foi registrado por volta das 6h e atingiu áreas costeiras de Jaguaruna, Laguna e Imbituba, onde houve acúmulo de água e areia em vias, danos a edificações e embarcações arrastadas.
A Defesa Civil estadual confirmou o fenômeno depois de cruzar informações de radares meteorológicos, imagens de satélite, câmeras e registros dos marégrafos de Laguna e Imbituba. No momento da ocorrência, uma linha de instabilidade avançava pela região acompanhada de rajadas de vento sul entre 60 e 90 km/h e alterações na pressão atmosférica. No boletim divulgado naquele dia, não havia registro de vítimas. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
O que é um tsunami meteorológico?
Apesar do nome, o meteotsunami não precisa de terremoto, erupção submarina ou deslocamento do fundo oceânico para acontecer. Sua origem está na atmosfera.
Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), mudanças rápidas de pressão associadas a tempestades severas, linhas de instabilidade e outros sistemas atmosféricos em movimento podem transferir energia para a superfície da água e produzir ondas longas com comportamento semelhante ao de um tsunami de origem sísmica.
O fenômeno também é diferente das ondas comuns observadas na praia. A NOAA situa os meteotsunamis na faixa de períodos de aproximadamente dois minutos a duas horas, enquanto a Epagri já documentou em Santa Catarina eventos com oscilações que persistiram durante vários minutos.
Como o fenômeno se formou no Litoral Sul de SC?
No episódio de setembro, a Defesa Civil identificou uma faixa organizada de instabilidade passando pelo Litoral Sul. A perturbação atmosférica veio acompanhada de ventos intensos e mudanças de pressão justamente no período em que os marégrafos registraram a subida rápida do nível da água.
Quando uma perturbação de pressão se desloca sobre o oceano em determinadas condições, a energia atmosférica pode alimentar as ondas formadas na superfície. Se a velocidade da perturbação e a velocidade de propagação da onda na água se aproximam, pode ocorrer um processo de ressonância, aumentando a amplitude da oscilação.
Esse mecanismo já foi observado pela Epagri em episódios anteriores no litoral catarinense. A configuração do fundo oceânico e da própria costa também interfere: áreas rasas, baías, enseadas e outros formatos costeiros podem favorecer a amplificação da onda quando ela se aproxima do continente. A NOAA destaca justamente a combinação entre perturbação atmosférica, plataforma continental e características locais da costa como fatores relevantes para a intensidade de um meteotsunami.
A ocorrência aconteceu durante um período de tempo severo no Sul. Um dia antes, o Compre Rural havia acompanhado o alerta máximo para chuva intensa, granizo e ventos acima de 100 km/h na Região Sul. Isso não significa, porém, que qualquer tempestade forte possa gerar um tsunami meteorológico: é necessária uma combinação específica de condições atmosféricas e oceânicas.
Por que é tão difícil prever um meteotsunami?
O desafio está justamente nessa combinação.
Uma linha de tempestades pode atravessar a costa sem provocar qualquer alteração excepcional no mar. Para que um meteotsunami ganhe força, fatores como velocidade e direção da perturbação atmosférica, variação da pressão, intensidade dos ventos, profundidade da água e formato da costa precisam interagir de uma maneira favorável à geração e à amplificação da onda.
Por isso, a própria NOAA considera a identificação e a previsão antecipada desses eventos um desafio. Em Santa Catarina, o meteorologista Caio Guerra, da Defesa Civil estadual, também classificou o episódio de setembro como resultado de condições muito específicas, o que limita a previsibilidade.
O monitoramento por marégrafos se torna especialmente importante nesse contexto. Os equipamentos registram as oscilações do nível do mar e ajudam pesquisadores a diferenciar um meteotsunami de outras formas de agitação marítima.
Tsunami meteorológico é diferente de ressaca
Os fenômenos podem produzir avanço da água sobre a costa, mas não são equivalentes.
O tsunami meteorológico está relacionado a uma perturbação atmosférica relativamente rápida capaz de gerar uma onda longa. Já situações de ressaca e mar agitado geralmente estão ligadas à ação de sistemas meteorológicos e ventos sobre o oceano por períodos mais prolongados.
Essa distinção apareceu no próprio boletim catarinense. Depois do meteotsunami de segunda-feira, a Defesa Civil previa mar agitado entre terça e quinta-feira, com ondas entre 2 e 3 metros, mas deixou claro que essa condição posterior correspondia à agitação marítima habitual provocada pelo vento sul e pelas instabilidades, e não à repetição do tsunami meteorológico.
Santa Catarina já registrou outros episódios
O fenômeno é raro, mas não inédito no estado.
Em 11 de novembro de 2023, a Praia do Cardoso, em Laguna, foi atingida por um meteotsunami registrado pelos marégrafos da Epagri em Laguna e Imbituba. Os equipamentos identificaram uma sequência de ondas com períodos muito superiores aos observados nas ondas normais da praia.
Outro episódio ocorreu na madrugada de 2 de dezembro de 2024, em Jaguaruna. Naquele caso — e somente naquele caso — a estação maregráfica de Balneário Rincão registrou uma oscilação expressiva do nível do mar. A análise da Epagri relacionou o evento a uma intensa linha de instabilidade, com fortes ventos e queda brusca da pressão atmosférica.
Os episódios anteriores ajudam a compreender o fenômeno de 2026, mas suas medições não podem ser transferidas para o evento atual. Até o momento, a Defesa Civil não divulgou uma altura oficial para a onda registrada em 21 de setembro.
Quais são os riscos para pesca e atividades no litoral?
No evento de 2026, os efeitos confirmados incluem embarcações arrastadas, danos em edificações e invasão de água e areia em vias costeiras. Isso coloca pescadores e trabalhadores que operam diretamente na faixa litorânea entre os grupos mais expostos a uma mudança tão rápida no nível do mar.
Para pesca e aquicultura, alterações abruptas podem representar risco para embarcações, estruturas próximas à costa, equipamentos e operações no mar. Entretanto, não há balanço oficial que permita afirmar que o episódio de setembro tenha provocado perdas produtivas ou financeiras específicas nesses setores.
Também é necessário separar os danos provocados pelo meteotsunami daqueles relacionados às tempestades que atingiram o Sul no mesmo período. Vendavais, granizo e chuva intensa podem afetar lavouras, instalações pecuárias, energia elétrica e estradas rurais, mas são consequências das tempestades, e não do tsunami meteorológico.
A sequência de eventos severos já vinha sendo acompanhada ao longo do mês, incluindo episódios de tornados, microexplosões, granizo e vendavais no Centro-Sul.
Pode acontecer novamente?
Não existe base para afirmar que um novo episódio ocorrerá apenas porque o mar permanece agitado.
Na atualização que confirmou o evento, em 21 de setembro, a Defesa Civil informou que a chegada de uma massa de ar mais frio e seco reduziria as condições necessárias para a formação de novas linhas de instabilidade sobre o mar nos dias seguintes. Naquele momento, portanto, não havia indicação de outro tsunami meteorológico em curto prazo.
O caso reforça, contudo, a importância do monitoramento meteorológico e oceanográfico. Diferentemente de um temporal convencional, o risco não depende somente da intensidade da tempestade: é a interação entre atmosfera, oceano e características da costa que determina se a perturbação poderá ser amplificada.
Para quem trabalha no mar, a orientação oficial durante períodos de instabilidade continua sendo acompanhar os alertas da Defesa Civil, evitar atividades náuticas quando houver aviso de agitação marítima e respeitar restrições locais.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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