Entre a desmama e a terminação está uma das fases mais desafiadoras — e também uma das maiores oportunidades — da pecuária. Em entrevista ao Compre Rural, o zootecnista e assessor técnico da Connan, Gustavo Paranhos, explica como pastagem, suplementação, genética e planejamento podem acelerar o ganho de peso e reduzir o custo da arroba produzida
Na pecuária de corte, muita atenção costuma ser direcionada às duas pontas do sistema: de um lado, a cria e o preço do bezerro; do outro, a terminação e a cotação da arroba do boi gordo. No meio desse caminho, porém, está uma fase capaz de determinar boa parte da rentabilidade da atividade: a recria.
É justamente nesse período, entre a desmama e a entrada na terminação, que o pecuarista encontra uma enorme oportunidade para acelerar o ganho de peso, reduzir a permanência do animal na propriedade e aumentar o giro do capital. Quando mal conduzida, entretanto, a recria pode se transformar em meses adicionais de permanência no campo, maior custo por arroba e dinheiro imobilizado.
Em entrevista ao Compre Rural, o zootecnista e assessor técnico da Connan, Gustavo Paranhos, destacou que a duração dessa etapa varia enormemente conforme o sistema adotado. “Esse período que a gente chama de recria pode ser um período curto, de até 12 meses, mas também pode se estender de 22 a 24 meses”, explicou. Para ele, é justamente aí que surge a oportunidade de melhorar o ganho de peso e acelerar o giro dos animais.
A discussão ganha ainda mais relevância em um cenário no qual as margens da pecuária exigem eficiência dentro da porteira. Não basta produzir mais peso: é necessário entender quanto custa cada quilo adicional e, consequentemente, cada arroba produzida.
Pasto continua sendo a grande vantagem competitiva
Uma das maiores vantagens da pecuária brasileira é a possibilidade de produzir carne predominantemente sobre pastagens. O clima e a extensão das áreas forrageiras permitem sistemas que dificilmente podem ser replicados nas mesmas condições por alguns dos principais concorrentes internacionais.
Mas possuir pasto não significa necessariamente utilizá-lo com eficiência.
Segundo Paranhos, ainda existe um espaço considerável para evolução. “O produtor precisa melhorar o manejo desse pasto para que o animal tenha disponibilidade de forragem o ano inteiro. A forragem é o alimento mais barato que o animal vai consumir. É a base da alimentação, e o que falta da forragem o produtor complementa com o concentrado”, afirmou.
Um dos problemas está na falta de planejamento entre águas e seca. Durante o período chuvoso, a propriedade pode apresentar abundância de capim, mas isso não significa que haverá alimento suficiente alguns meses depois. Quando o produtor chega à seca sem reserva adequada e utiliza excessivamente a pastagem, compromete não apenas o desempenho imediato do gado, mas a própria capacidade de recuperação do capim na estação seguinte.
O manejo eficiente passa, portanto, pelo acompanhamento de indicadores como taxa de lotação, capacidade de suporte e oferta de forragem. A intensidade e a frequência de pastejo precisam respeitar a capacidade de recuperação da planta. Entre as ferramentas disponíveis está o pastejo rotacionado, com divisão das áreas em piquetes e alternância entre ocupação e descanso, estratégia que pode favorecer recuperação do capim, qualidade da forragem, lotação e produção de peso por hectare.
O objetivo final não é simplesmente colocar mais bois na mesma área. É conseguir mais carne por hectare sem destruir a base produtiva que sustenta o sistema.
De 400 para 200 dias: o impacto de uma recria acelerada
Um dos exemplos apresentados por Gustavo Paranhos durante a entrevista mostra com clareza o tamanho da oportunidade.
Considere um animal entrando na recria com 200 quilos, tendo como objetivo chegar aos 400 quilos para seguir à terminação. São 200 quilos que precisam ser adicionados.
Com ganho médio de 1 kg por dia, seriam necessários aproximadamente 200 dias. Se o mesmo animal apresentar ganho de apenas 500 gramas por dia, o período necessário sobe para aproximadamente 400 dias.
Ou seja, no exemplo, dobrar o ganho diário pode significar reduzir pela metade o tempo necessário para acrescentar os mesmos 200 quilos.
A consequência vai muito além de colocar peso mais rapidamente.
“Esse animal que ganha mais peso encurta muito a recria, fazendo com que o produtor tenha maior giro desse animal, maior giro de capital e esse animal vá para a terminação mais rápido”, explicou Paranhos.
É uma mudança importante na forma de enxergar produtividade. Um boi que permanece meses adicionais na propriedade continua ocupando área, consumindo recursos e mantendo capital imobilizado. Por isso, tempo também precisa entrar na conta do custo de produção.
Ganhar 1 kg por dia não é uma receita pronta
A intensificação da recria vem ganhando espaço justamente pela possibilidade de acelerar o ciclo. Entretanto, Paranhos faz uma ressalva importante: perseguir 1 kg de ganho médio diário não deve se transformar em uma regra aplicada indiscriminadamente a qualquer propriedade.
Na seca, por exemplo, atingir esse patamar pode não ser viável ou economicamente interessante. O animal pode apresentar ganhos próximos de 700 ou 800 gramas/dia e posteriormente superar 1 kg/dia durante as águas, formando uma média compatível com a estratégia anual da fazenda.
“A gente fala de 1 kg por dia, mas não é uma receita”, destacou o zootecnista. Segundo ele, a meta precisa ser construída considerando a capacidade de investimento, disponibilidade de pastagem, suplementação e objetivos produtivos de cada sistema.
Essa talvez seja uma das principais diferenças entre simplesmente aumentar o fornecimento de suplemento e efetivamente intensificar uma fazenda. Intensificação precisa gerar margem.
O comunicado técnico que deu origem à discussão reforça essa lógica: o objetivo não é apenas fazer o animal ganhar mais peso, mas produzir cada quilo adicional de maneira economicamente eficiente. Quando ganho individual e produção por hectare aumentam de maneira equilibrada, os custos podem ser diluídos, a terminação antecipada e o capital girar mais rapidamente.
A recria tem uma vantagem biológica importante
Apesar de seus desafios, a recria possui uma característica particularmente interessante: a eficiência do animal jovem.
Segundo Paranhos, nessa fase o bovino está desenvolvendo principalmente músculos e estrutura corporal, apresentando eficiência alimentar favorável em comparação com etapas mais avançadas da terminação.
“A gente enxerga a recria como uma grande oportunidade para o produtor. Ela tem seus desafios, tem seus problemas, mas é uma fase em que o animal tem uma alta eficiência alimentar, porque está ganhando músculos e desenvolvendo estrutura”, explicou.
Isso ajuda a explicar por que perder meses de desempenho nessa etapa pode ser particularmente prejudicial. É justamente quando existe grande potencial biológico para crescimento que falhas de alimentação, pastagem, sanidade ou manejo podem impedir o aproveitamento dessa eficiência.
O primeiro grande gargalo aparece na desmama
E os problemas podem começar logo na entrada da recria.
A desmama representa uma mudança profunda para o bezerro. O animal é separado da mãe e pode enfrentar simultaneamente alterações de ambiente, alimentação e rotina. Esse conjunto de fatores provoca estresse e pode resultar em perda de peso justamente no momento em que o objetivo deveria ser manter uma curva crescente de desenvolvimento.
Paranhos relata que, sem um protocolo adequado, é comum observar animais perdendo peso nesse período. Na entrevista, ele citou um protocolo de condicionamento utilizado para reduzir esse impacto, com fornecimento de aproximadamente 1 kg de concentrado por animal/dia após a desmama. Segundo os dados apresentados pelo especialista, a estratégia pode resultar em diferença de até 10 kg de peso frente aos animais que não recebem a suplementação.
O exemplo evidencia uma questão importante: antes de pensar em grandes ganhos, o produtor precisa evitar os retrocessos.
Perder peso significa produzir novamente quilos que o animal já possuía.
Por isso, uma recria eficiente começa antes mesmo de o lote estar plenamente adaptado à nova fase. Manejo de desmama, adaptação nutricional, disponibilidade de água, sanidade e observação dos animais tornam-se fundamentais para preservar o desempenho.
A seca não pode pegar a fazenda de surpresa
Depois da desmama, um dos principais obstáculos apontados pelo especialista é atravessar o período de menor produção e qualidade das pastagens.
O planejamento precisa começar quando ainda existe abundância.
Se a propriedade não terá pasto suficiente no pico da seca, precisa antecipadamente estruturar alternativas de volumoso e suplementação. O princípio é simples: o calendário nutricional do gado não pode começar quando o capim já acabou.
O comunicado técnico reforça que não existe estratégia única de suplementação para a recria. O aporte deve considerar qualidade e disponibilidade da forragem, peso dos animais, época do ano e, principalmente, a meta de ganho definida pela fazenda.
Pasto e cocho, portanto, não são estratégias concorrentes. Em sistemas bem planejados, são complementares: o pasto fornece a base mais econômica possível e a suplementação preenche a diferença entre aquilo que a forragem entrega e aquilo que a meta produtiva exige.
Intensificar não significa simplesmente gastar mais
Esse ponto é especialmente importante diante da elevação dos custos de produção. A lógica da intensificação não pode ser resumida a comprar mais suplemento, aumentar indiscriminadamente a lotação ou realizar investimentos sem mensurar retorno.
A conta precisa começar pelo objetivo.
Qual peso o animal possui? Qual peso precisa atingir? Em quanto tempo? Qual ganho médio diário será necessário? Quanto de forragem estará disponível? Quanto deverá ser complementado? Qual será o custo desse ganho? E quanto valerá o animal ao final?
Paranhos enfatizou justamente a necessidade de calcular o custo da arroba produzida e a margem do sistema. A meta de desempenho precisa caber na realidade produtiva e financeira de cada propriedade.
É essa análise que separa produtividade de rentabilidade. Afinal, o maior ganho de peso possível não necessariamente corresponde ao maior lucro possível.
Não adianta oferecer comida de primeira para genética que não responde
Outro ponto levantado na entrevista é frequentemente esquecido quando se discute recria intensiva: a qualidade do animal que entra no sistema.
Isso ganha importância especialmente para recriadores que compram bezerros ou garrotes de terceiros.
Segundo Paranhos, animais que passaram por uma cria adequada e possuem potencial genético compatível tendem a responder melhor aos planos nutricionais. Por outro lado, histórico de restrição alimentar e genética inadequada podem limitar o desempenho mesmo quando o produtor possui pastagem, suplementação e capacidade de investimento.
Em outras palavras, não basta montar um sistema capaz de entregar alto desempenho se o animal adquirido não tiver capacidade de transformar esse ambiente em ganho de peso.
Por isso, origem, histórico, desenvolvimento corporal e características do lote precisam fazer parte da decisão de compra.
Para propriedades de ciclo completo, a construção dessa eficiência começa ainda mais cedo. Paranhos defende atenção desde a seleção das matrizes e reprodutores, passando pela nutrição da vaca e pelo desenvolvimento do bezerro durante a cria. Uma boa recria, portanto, não começa necessariamente na desmama: ela pode estar sendo construída desde a escolha dos pais daquele animal.
A arroba mais importante pode ser aquela produzida dentro da porteira
O mercado continuará determinando quanto o frigorífico paga pelo boi gordo e quanto o pecuarista desembolsa pelo bezerro. São variáveis fundamentais, mas sobre as quais individualmente o produtor possui pouca capacidade de interferência.
Dentro da fazenda, a situação é diferente.
Manejo do pasto, planejamento da seca, taxa de lotação, estratégia de suplementação, desempenho na desmama, escolha dos animais, ganho médio diário e duração da recria estão, em diferentes graus, sob gestão do pecuarista.
É justamente por isso que a recria merece deixar de ser vista simplesmente como o intervalo entre a cria e a engorda.
Bem planejada, ela pode ser uma das grandes ferramentas para produzir uma arroba competitiva, aproveitar a eficiência biológica do animal jovem, aumentar a produção por hectare e acelerar o giro do capital. Mal conduzida, pode acrescentar meses ao ciclo e corroer silenciosamente a margem.
Como mostrou Gustavo Paranhos ao longo da entrevista ao Compre Rural, não existe número mágico ou receita universal. Existe uma combinação que precisa ser ajustada à realidade de cada propriedade: animal adequado, pasto bem manejado, suplementação estratégica, planejamento e controle econômico.
No fim das contas, a pergunta mais importante não é apenas quanto peso o boi ganhou, mas quanto custou produzir esse peso e quanto tempo foi necessário para colocá-lo no animal.
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