Especialista explica como a deriva na pulverização reduz a eficiência dos defensivos, aumenta os custos da produção e mostra as práticas que evitam perdas de até 95%.
Na busca por maior produtividade, o produtor rural costuma concentrar esforços na escolha de sementes, fertilizantes, defensivos agrícolas e máquinas cada vez mais modernas. No entanto, existe um fator muitas vezes negligenciado que pode comprometer todo esse investimento: a deriva durante a pulverização.
Embora seja frequentemente tratada como uma questão ambiental, a deriva também representa um importante problema econômico. Quando parte da calda pulverizada não alcança o alvo — seja a planta, a praga, a doença ou a planta daninha — o produtor perde eficiência operacional, desperdiça produto e reduz o retorno sobre o investimento realizado na lavoura.
Segundo Marcelo Hilário, químico industrial, mestre e pesquisador em Agronomia e responsável técnico da Sell Agro, controlar a deriva significa aumentar a eficiência da aplicação e proteger a rentabilidade da propriedade.
“A deriva é um desperdício invisível. Muitas vezes o produtor vê o tanque vazio e acredita que toda a aplicação foi eficiente, mas parte daquele produto pode nunca ter chegado ao alvo.”
O que é deriva na pulverização?
A deriva ocorre quando gotas, partículas ou vapores dos produtos aplicados são deslocados para fora da área-alvo durante ou logo após a pulverização.
Na prática, isso significa que parte do ingrediente ativo deixa de cumprir sua função, reduzindo a eficácia do tratamento fitossanitário.
As consequências incluem:
- desperdício de defensivos;
- menor controle de pragas, doenças e plantas daninhas;
- necessidade de reaplicações;
- aumento da pressão de seleção para resistência;
- maior custo operacional.
O prejuízo vai além do desperdício
De acordo com Marcelo Hilário, um dos maiores equívocos é acreditar que falhas no controle sempre estão relacionadas à qualidade do produto ou à resistência das pragas.
“A pergunta não deve ser apenas qual produto foi utilizado, mas quanto dele realmente chegou ao alvo, com que uniformidade e em quais condições ambientais.”
Em muitos casos, a baixa eficiência da pulverização está ligada à tecnologia de aplicação, e não ao defensivo utilizado.
Quando a deriva na pulverização ultrapassa a porteira
Além dos impactos econômicos, a deriva na produção pode provocar consequências ambientais e jurídicas.
Entre as áreas que podem ser atingidas estão:
- culturas vizinhas sensíveis;
- áreas de preservação permanente;
- cursos d’água;
- apiários;
- hortas;
- residências rurais;
- animais e trabalhadores.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) define deriva como o deslocamento de gotas ou partículas de pesticidas para qualquer local diferente da área pretendida durante ou logo após a aplicação.
Esse conceito reforça que o problema ultrapassa os limites da propriedade e pode gerar conflitos entre produtores, prejuízos comerciais e questionamentos por órgãos fiscalizadores.
O que provoca a deriva?
Diversos fatores interferem diretamente no comportamento das gotas durante a pulverização dos defensivos.
Os principais são:
- tamanho das gotas;
- velocidade do vento;
- temperatura;
- umidade relativa do ar;
- altura da barra de pulverização;
- pressão de trabalho;
- velocidade operacional;
- tipo de ponta utilizada.
Segundo o especialista, não existe uma gota ideal para todas as situações.
Gotas muito finas oferecem excelente cobertura, mas permanecem mais tempo suspensas no ar e evaporam com facilidade. Já gotas maiores reduzem o risco de deriva, embora possam comprometer a cobertura em alguns tipos de aplicação.
Por isso, a escolha deve considerar simultaneamente:
- o alvo biológico;
- o produto utilizado;
- o modo de ação;
- o equipamento;
- as condições climáticas.
O clima também faz parte da regulagem
Marcelo Hilário destaca que o clima é parte integrante da tecnologia de aplicação.
Temperaturas elevadas e baixa umidade aceleram a evaporação das gotas, enquanto ventos mais intensos favorecem seu deslocamento.
A Embrapa recomenda avaliar, antes da pulverização:
- temperatura;
- umidade relativa do ar;
- velocidade do vento.
Realizar aplicações fora da chamada janela climática adequada pode comprometer grande parte da eficiência do tratamento.
Barra de pulverização faz diferença
Outro fator decisivo é a altura da barra.
Quanto maior a distância entre a ponta de pulverização e o alvo, maior será o tempo em que as gotas permanecem expostas ao vento e à evaporação.
Também aumentam o risco de deriva:
- barras instáveis;
- excesso de velocidade;
- terrenos irregulares;
- falhas no controle automático de altura.
Segundo o pesquisador, tecnologia de aplicação significa integrar máquina, operador, produto, clima e alvo em uma única estratégia de manejo.
Como reduzir a deriva na pulverização?
A boa notícia é que grande parte das perdas pode ser evitada com planejamento e regulagem adequada dos equipamentos.
Entre as principais recomendações estão:
- utilizar pontas com indução de ar ou modelos antideriva;
- ajustar corretamente a pressão de trabalho;
- manter altura adequada da barra;
- escolher o adjuvante correto;
- respeitar faixas de segurança;
- realizar aplicações somente dentro da janela climática recomendada.
A FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) aponta que determinadas tecnologias redutoras de deriva podem diminuir essas perdas em mais de 95%, dependendo das condições de uso.
Agricultura digital aumenta a eficiência
O especialista também destaca o papel crescente da agricultura digital na redução da deriva.
Ferramentas como:
- estações meteorológicas;
- sensores embarcados;
- controladores de seção;
- telemetria;
- mapas de aplicação;
- registros automáticos
permitem maior rastreabilidade da operação e auxiliam na tomada de decisão.
Mesmo assim, Marcelo faz um alerta:
“Um pulverizador moderno, mal regulado e operado fora da janela climática, continua sendo uma máquina extremamente eficiente para errar com precisão.”
Gestão começa pelo registro das operações
Outra recomendação importante é registrar informações de cada aplicação.
Entre elas:
- horário;
- temperatura;
- umidade;
- velocidade do vento;
- pressão de trabalho;
- volume de calda;
- tipo de ponta utilizada;
- operador responsável.
Além de facilitar a gestão da propriedade, esses dados oferecem respaldo técnico em eventuais questionamentos e ajudam a identificar oportunidades de melhoria.
Tecnologia de aplicação transforma investimento em resultado
Embora o produtor veja o tanque vazio ao final da pulverização, isso não significa que todo o produto permaneceu sobre o alvo.
Ferramentas como papéis hidrossensíveis, inspeções de deposição, calibrações periódicas e treinamento de operadores ajudam a tornar essas perdas visíveis e permitem corrigir falhas antes que elas comprometam a produtividade.
Para Marcelo Hilário, controlar a deriva deixou de ser apenas uma exigência técnica.
“Em uma agricultura cada vez mais orientada por produtividade, rastreabilidade e responsabilidade ambiental, reduzir a deriva significa proteger a rentabilidade da lavoura, diminuir desperdícios e garantir que cada litro aplicado cumpra exatamente a função para a qual foi adquirido.”
No fim, a mensagem é clara: cada gota que chega ao alvo representa eficiência; cada gota perdida representa custo.
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