Juros elevados, crédito restrito e margens cada vez menores levaram o agronegócio a registrar o maior crescimento de recuperações judiciais do país, acendendo um alerta para produtores de todos os portes
Por Dr. Túlio Parca* – Durante muitos anos, o agronegócio brasileiro foi visto como um setor praticamente imune às crises econômicas. Afinal, mesmo diante de instabilidades políticas e financeiras, o campo continuava produzindo, exportando e sustentando boa parte do PIB nacional. Mas essa percepção mudou. Hoje, o maior desafio do produtor rural não está na produtividade, na tecnologia ou mesmo na capacidade de colher boas safras. O maior inimigo passou a ser o custo do dinheiro.
Os números divulgados pelo Monitor RGF-Bizdoc confirmam aquilo que nós, que atuamos diariamente ao lado dos produtores rurais, já percebemos há bastante tempo. O agronegócio tornou-se o setor que mais cresce em número de recuperações judiciais no Brasil. Apenas no primeiro semestre de 2026, o país chegou a 1.263 produtores rurais em RJ, um crescimento de 66% em relação ao mesmo período do ano anterior e de 21,4% apenas nos seis primeiros meses deste ano.
Não estamos diante de uma crise de produção. Pelo contrário. O Brasil continua colhendo boas safras, mantendo elevados índices de produtividade e batendo recordes de exportação. O problema é financeiro.
“O produtor rural continua fazendo sua parte dentro da porteira. O que mudou foi o ambiente econômico. Hoje, muitos trabalham apenas para pagar juros, e isso torna qualquer atividade inviável no longo prazo”, afirma Túlio Parca.
O cenário é resultado da combinação entre juros elevados, crédito cada vez mais restrito, aumento do custo de produção, oscilações nas commodities e eventos climáticos que reduziram a capacidade financeira de milhares de empresas rurais. Em muitos casos, mesmo propriedades eficientes passaram a conviver com um fluxo de caixa incapaz de suportar o peso das obrigações financeiras.
Não por acaso, o próprio estudo aponta que a principal explicação para o crescimento das recuperações judiciais continua sendo o custo do dinheiro. Mesmo com o início da redução da taxa Selic, o juro real brasileiro permanece próximo de 9% ao ano, um dos mais altos do mundo, comprometendo grande parte da geração de caixa das empresas.
Essa realidade é percebida diariamente no escritório.
“Temos recebido um número crescente de produtores que nunca imaginaram enfrentar dificuldades financeiras. São empresários rurais que produziram bem, investiram corretamente, mas acabaram sufocados pelo custo do crédito e pela falta de liquidez no mercado.”
O que mais chama atenção em 2026 é que essa crise deixou de atingir apenas grandes grupos econômicos. Ela chegou com força aos pequenos e médios produtores rurais.
A ampliação do levantamento para incluir os microprodutores revela justamente essa mudança de perfil. Muitos agricultores familiares e pecuaristas de menor porte passaram a recorrer à recuperação judicial como forma de preservar suas atividades.
Essa realidade também tem sido vivenciada na prática por Túlio Parca Advogados.
“Temos atendido muitos pequenos produtores que chegaram ao escritório praticamente à beira da falência. Em diversos casos conseguimos, por meio de decisões judiciais e negociações com os credores, obter o alongamento das dívidas, permitindo que essas famílias continuassem produzindo. Nosso maior objetivo é garantir a continuidade da atividade rural e preservar empresas que muitas vezes atravessam gerações.”
O advogado destaca que a recuperação judicial não deve ser vista como um fracasso empresarial, mas como um mecanismo legal de reorganização financeira.
“Quando utilizada no momento correto, ela protege o produtor, reorganiza o passivo, preserva empregos, mantém a produção e evita que uma dificuldade momentânea resulte na perda definitiva do patrimônio.”
Outro aspecto preocupante é que o problema não está restrito às propriedades rurais. Considerando toda a cadeia do agronegócio — incluindo fornecedores de insumos, agroindústrias e empresas de comercialização — já são 1.575 CNPJs em recuperação judicial.
A soja lidera o número de processos, mas praticamente todas as cadeias produtivas apresentam deterioração. Os produtores de leite registraram crescimento de 257% nas recuperações judiciais em relação ao fim de 2025. Também houve aumento expressivo nos segmentos de arroz, milho, café e pecuária de corte.
Enquanto isso, o número total de empresas em recuperação judicial no Brasil permanece no maior patamar da série histórica, com 6.341 empresas de maior relevância econômica nessa condição. Paralelamente, as falências voltaram a crescer, impulsionadas tanto pelo ambiente econômico adverso quanto pelas recentes mudanças na jurisprudência, que ampliaram os mecanismos de cobrança por parte da Fazenda Pública.
Mesmo com a expectativa de novas reduções da Selic, é importante compreender que seus efeitos não serão imediatos. Os próprios especialistas estimam que a melhora nas estatísticas de insolvência leve entre 12 e 18 meses para aparecer. Até lá, milhares de produtores continuarão convivendo com um crédito caro e escasso.
Por isso, o momento exige planejamento e rapidez na tomada de decisões.
“Esperar que a próxima safra resolva sozinha um problema financeiro costuma ser um erro. Quanto antes o produtor buscar orientação jurídica e financeira especializada, maiores serão as possibilidades de construir soluções que preservem sua atividade.”
O agronegócio brasileiro continua forte, competitivo e essencial para a economia nacional. Mas nenhuma empresa, por mais eficiente que seja, consegue prosperar quando o custo do dinheiro supera sua capacidade de gerar caixa. O crescimento recorde das recuperações judiciais deixa uma mensagem clara: a crise que desafia o campo hoje não nasce da produção, mas do ambiente financeiro. E enfrentar essa realidade com planejamento, estratégia e segurança jurídica será decisivo para manter milhares de produtores produzindo e alimentando o país.
Por Túlio Parca, advogado especialista em Direito do Agronegócio e fundador do escritório Túlio Parca Advogados
Tulio Parca Advogados é especialistas na defesa do produtor rural e do empresário. Crédito rural, alongamento de dívida, revisão de contratos bancários. [email protected] Mais informações entre em contato com o WhatsApp do escritório.
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