Aroma tão conhecido no campo envolve microrganismos do solo, compostos extremamente perceptíveis ao olfato humano e um curioso mecanismo provocado pelo impacto das gotas
O cheiro de terra molhada que aparece quando a chuva retorna depois de um período seco não nasce simplesmente da água que cai das nuvens. Uma das principais moléculas associadas ao aroma é a geosmina, composto produzido por diferentes organismos e muito conhecido pelo odor terroso que provoca. O olfato humano consegue detectá-la mesmo em concentrações inferiores a cinco partes por trilhão.
Entre os microrganismos mais associados à produção da substância estão bactérias do gênero Streptomyces, comuns no solo. Elas, porém, estão longe de ser as únicas fontes conhecidas de geosmina. A molécula já foi identificada em diferentes grupos de bactérias, cianobactérias e fungos, razão pela qual falar em uma única “bactéria responsável pelo cheiro da chuva” seria uma simplificação incorreta. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.
Por que a terra começa a cheirar quando chove?
A chuva tem papel fundamental no fenômeno, mas principalmente como um gatilho para colocar compostos presentes na superfície em circulação no ar.
Pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) analisaram em câmera de alta velocidade o impacto de gotas sobre diferentes tipos de superfícies porosas. O estudo, publicado em 2015 na Nature Communications, mostrou que pequenas bolhas de ar podem ficar presas quando a gota atinge determinados solos.
Essas bolhas atravessam a gota e, ao romperem sua superfície, produzem jatos microscópicos de água que formam aerossóis. Essas pequenas partículas podem transportar materiais presentes na superfície para o ar.
É esse mecanismo que ajuda a explicar como compostos associados ao odor da terra chegam rapidamente ao nosso nariz depois que as primeiras gotas atingem o chão.
Os pesquisadores observaram ainda que a quantidade de aerossóis depende tanto das características do solo quanto da velocidade da gota. Em alguns tipos de solos estudados, a formação ocorreu com maior intensidade em velocidades compatíveis com chuvas leves ou moderadas.
Geosmina não é exatamente a mesma coisa que petrichor
Embora os termos frequentemente apareçam juntos, eles não significam exatamente a mesma coisa.
O nome petrichor foi apresentado em 1964 pelos pesquisadores Isabel Joy Bear e Richard Grenfell Thomas, da organização científica australiana CSIRO. O trabalho publicado na revista Nature investigou o odor liberado por solos, argilas e rochas quando entram em contato com a umidade depois de períodos secos.
A geosmina é uma das moléculas associadas ao característico cheiro terroso, mas o aroma percebido após uma chuva pode resultar da combinação de diferentes compostos e processos.
Essa substância também aparece em outro contexto conhecido no meio rural: a aquicultura. Geosmina e 2-metilisoborneol, ou 2-MIB, podem provocar odores e sabores terrosos na água e em peixes de criação, fenômeno abordado pelo portal ao explicar a relação entre geosmina e o chamado gosto de barro nos peixes.
Para que os microrganismos produzem esse cheiro?
Ainda não existe uma única resposta aplicável a todos os organismos produtores de geosmina. A ampla distribuição dos genes envolvidos em sua produção indica que a molécula pode desempenhar diferentes funções ecológicas.
Um dos casos mais interessantes envolve justamente as Streptomyces.
Pesquisa publicada em 2020 na Nature Microbiology mostrou que geosmina e 2-MIB produzidos por essas bactérias conseguem atrair colêmbolos, pequenos artrópodes que vivem no solo. Os animais se alimentam das colônias bacterianas e acabam ajudando na dispersão dos esporos, tanto aderidos ao corpo quanto por meio das fezes.
Nesse caso, aquilo que para uma pessoa é apenas o conhecido cheiro de terra funciona como parte de uma interação ecológica microscópica no solo.
Cheiro forte de terra significa solo fértil?
Não.
Embora o aroma possa indicar a presença de atividade microbiana e compostos biológicos no ambiente, sentir cheiro de terra molhada não permite concluir que determinado solo seja fértil.
A fertilidade agrícola depende de diversos parâmetros que precisam ser avaliados tecnicamente, incluindo pH, matéria orgânica, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, acidez e outros indicadores químicos. A análise de solo é justamente uma das ferramentas utilizadas para determinar disponibilidade de nutrientes e orientar decisões sobre corretivos e fertilizantes.
A microbiologia também é uma peça importante desse quebra-cabeça, e tecnologias mais recentes permitem realizar até análises genéticas de bactérias e fungos presentes no solo.
Mas nenhum desses fatores, isoladamente, define toda a qualidade de uma área.
Por isso, aquele cheiro que costuma anunciar a chegada da chuva no campo conta uma história mais complexa do que parece. Microrganismos produzem compostos, o solo os acumula e as gotas ajudam a lançá-los ao ar em partículas minúsculas.
O resultado é um aroma reconhecido quase instantaneamente pelo ser humano, apesar de nascer de processos que acontecem em uma escala praticamente invisível.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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