Brasil prepara integração nacional dos dados antes de ampliar a identificação individual do rebanho a partir de 2027; sistema deverá alcançar bovinos e búfalos de todo o país até 2032
A pecuária brasileira está entrando em uma das maiores transformações de seu sistema de controle animal. O modelo baseado principalmente na identificação de propriedades, lotes e Guias de Trânsito Animal começará a dividir espaço com uma estrutura capaz de acompanhar individualmente cada bovino e búfalo ao longo de sua vida.
A mudança faz parte do Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), conduzido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. O cronograma é gradual, mas uma etapa decisiva ocorre ainda em 2026: até 31 de dezembro, os órgãos estaduais de defesa sanitária precisam adequar seus sistemas para integração com a base nacional.
O que começa a mudar em 2027
Entre 2027 e 2029, o programa entra em sua terceira fase, com avanço da identificação individual em situações previstas pelo plano, incluindo animais submetidos a determinados manejos sanitários e aqueles vinculados a protocolos privados homologados pelo Mapa.
A expansão para o restante do rebanho está prevista entre 2030 e 2032.
O ponto de virada definitivo está marcado para 1º de janeiro de 2033. A partir dessa data, bovinos e búfalos que não estiverem identificados individualmente e cadastrados no sistema oficial não poderão ser movimentados.
A mudança é especialmente relevante pela dimensão da pecuária brasileira, que possui mais de 200 milhões de bovinos. Não se trata, portanto, apenas de ampliar o atual SISBOV ou de criar uma exigência restrita ao gado destinado à exportação.
A proposta é estabelecer uma infraestrutura nacional de identificação animal.
Da sanidade ao mercado internacional
A rastreabilidade individual pode melhorar a capacidade de resposta diante de problemas sanitários. Em caso de ocorrência de uma enfermidade de notificação obrigatória, por exemplo, torna-se possível reconstruir com maior precisão por quais propriedades determinado animal passou.
Há também uma pressão comercial crescente.
Países compradores, frigoríficos e grandes redes de alimentos vêm aumentando as exigências relacionadas à origem da carne. Além da sanidade, entram nessa discussão temas ambientais e a necessidade de conhecer toda a trajetória do bovino.
Esse ponto atinge um dos maiores desafios da cadeia brasileira: os fornecedores indiretos.
Um boi entregue ao frigorífico pode ter nascido em uma propriedade, passado pela recria em outra e somente depois chegado à fazenda responsável pela terminação. Sem uma identificação individual integrada, reconstruir essa trajetória em escala nacional é muito mais difícil.
O desafio dentro da porteira
Para o produtor, o brinco será apenas a parte mais visível da transformação.
O desafio estará em garantir que a identidade daquele animal permaneça corretamente vinculada às informações registradas durante sua vida.
O custo dessa adaptação ainda não pode ser resumido em um único valor por cabeça. Ele dependerá do tipo de identificador, tamanho do rebanho, estrutura de manejo, tecnologia utilizada e das regulamentações complementares adotadas pelos estados.
Por outro lado, a identificação pode deixar de ser apenas uma obrigação.
Quando integrada aos sistemas de gestão, permite relacionar cada animal a informações de peso, ganho médio diário, origem, manejo sanitário, reprodução e desempenho produtivo.
Em fazendas tecnificadas, confinamentos e rebanhos de seleção, parte dessa lógica já existe. A diferença agora é a perspectiva de levar esse modelo para uma escala nacional.
2032 parece distante, mas a mudança já começou
O fato de o cronograma terminar em 2032 pode transmitir ao produtor a impressão de que ainda existe muito tempo para se preparar.
Na prática, a infraestrutura está sendo construída agora.
Os sistemas estaduais avançam na integração em 2026; uma nova etapa da identificação começa em 2027; a expansão ocorre até 2032; e, em 2033, entra em vigor a restrição de movimentação para animais que estiverem fora do sistema.
A pecuária brasileira construiu uma das maiores cadeias de carne bovina do mundo administrando boa parte de seu rebanho por propriedades e lotes. A próxima etapa será diferente.
O lote continuará importante, mas saber exatamente qual animal está dentro dele será cada vez mais necessário.
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