Novo herbicida com dois modos de ação pede registro no Brasil para enfrentar plantas resistentes em soja e milho

Rimisoxafen reúne dois mecanismos de ação dentro da mesma molécula e mira plantas daninhas que já desafiam herbicidas tradicionais; tecnologia entrou no processo regulatório brasileiro, mas ainda não está liberada para venda ou uso.

A corrida por novas ferramentas contra a resistência de plantas daninhas acaba de ganhar um capítulo importante no Brasil. A FMC Corporation protocolou junto às autoridades brasileiras o dossiê regulatório do rimisoxafen, novo ingrediente ativo herbicida desenvolvido para soja e milho e que chama atenção por reunir dois modos de ação em uma única molécula.

O pedido chega em um momento especialmente sensível para o manejo das lavouras. O avanço de populações resistentes vem reduzindo a vida útil de algumas das ferramentas químicas mais conhecidas do agricultor e aumentando a importância da rotação de mecanismos de ação, do uso de herbicidas residuais e da integração entre diferentes estratégias de controle.

No caso do rimisoxafen, a novidade está justamente na forma de atuação. O Herbicide Resistance Action Committee (HRAC) enquadrou a molécula simultaneamente nos Grupos 12 e 32, envolvendo a inibição da fitoeno dessaturase (PDS) e da solanesil difosfato sintase (SDPS).

Na prática, trata-se de uma tentativa de colocar uma nova ferramenta no arsenal do produtor justamente quando a resistência deixou de ser um problema pontual e passou a influenciar o planejamento completo do manejo.

Dois alvos dentro da mesma molécula

O que diferencia o rimisoxafen não é simplesmente a combinação de dois ingredientes ativos em uma formulação.

Segundo trabalho científico publicado na Pest Management Science, a própria molécula apresenta atividade sobre dois alvos bioquímicos diferentes.

Um deles é a PDS, enzima envolvida na biossíntese de carotenoides. O outro é a SDPS, relacionada à biossíntese de plastoquinona/ubiquinona e a processos essenciais ao funcionamento das plantas.

Os pesquisadores confirmaram a atuação sobre os dois alvos por meio de diferentes abordagens experimentais, incluindo ensaios enzimáticos e estudos in vivo. Em sistemas experimentais, mutações de resistência relacionadas apenas a um dos alvos não foram suficientes para impedir a ação da molécula; resistência ao rimisoxafen apareceu quando alterações envolvendo os dois alvos estavam presentes.

Isso não significa que uma molécula esteja imune à evolução de resistência. Nenhum herbicida deve ser tratado dessa forma. Mas a característica abre uma frente tecnicamente interessante para programas que precisam diversificar os mecanismos utilizados no campo.

O problema que o novo herbicida pretende enfrentar

A dimensão do mercado brasileiro ajuda a explicar por que o país está entre os primeiros a receber o pedido regulatório.

Segundo os dados apresentados pela FMC, o Brasil reúne aproximadamente 50 milhões de hectares de soja e mais de 20 milhões de hectares de milho, colocando a tecnologia diante de mais de 70 milhões de hectares cultivados com duas das culturas mais importantes do agronegócio nacional.

Mas tamanho de mercado é apenas parte da história.

O desafio técnico está nas plantas daninhas que passaram a sobreviver a herbicidas anteriormente eficientes. Entre os alvos mencionados no desenvolvimento do rimisoxafen estão espécies do gênero Amaranthus, especialmente Amaranthus hybridus e Amaranthus palmeri.

O banco internacional de resistência a herbicidas registra no Brasil populações de A. hybridus com resistência múltipla aos grupos 2 e 9, incluindo resistência a chlorimuron-ethyl e glifosato em áreas de soja.

É exatamente esse processo de perda gradual de eficiência das ferramentas que torna novos mecanismos agronomicamente relevantes.

Caruru-palmeri aumenta o tamanho do desafio

Entre as espécies mencionadas pela empresa, o caruru-palmeri (Amaranthus palmeri) merece atenção especial.

Não se trata apenas de uma planta daninha difícil de controlar. No Brasil, a espécie é considerada praga quarentenária presente e possui um programa nacional específico de prevenção e controle.

O Ministério da Agricultura destaca sua elevada capacidade de produção de sementes, rápida adaptação e facilidade para desenvolver resistência. A primeira detecção brasileira ocorreu em 2015, em Mato Grosso. Atualmente há ocorrência oficial também em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Santa Catarina.

A expansão geográfica recente torna a discussão ainda mais atual. Nota técnica publicada pela Epagri em setembro de 2026 confirmou a detecção em Santa Catarina e destacou justamente a resistência a diferentes mecanismos de ação como uma das características que tornam a espécie preocupante.

Ou seja: a busca por novas moléculas acontece paralelamente à expansão territorial de algumas das plantas daninhas mais difíceis de administrar.

O que os testes mostraram até agora

De acordo com a FMC, ensaios de campo realizados durante o desenvolvimento demonstraram atividade consistente do rimisoxafen sobre plantas daninhas de folhas largas provenientes de sementes pequenas, incluindo populações resistentes a outros herbicidas.

Entre elas aparecem novamente Amaranthus palmeri e Amaranthus hybridus.

O posicionamento em desenvolvimento considera principalmente atividade residual e aplicações em pré-emergência ou pós-emergência inicial.

Esse detalhe é importante.

A discussão moderna sobre resistência não passa apenas por encontrar um produto capaz de eliminar uma planta daninha já desenvolvida. Uma parte crescente das estratégias procura reduzir a emergência e impedir que grandes populações se estabeleçam dentro da lavoura.

Quanto menor a população exposta repetidamente ao mesmo mecanismo, menor tende a ser a pressão de seleção exercida pelo manejo químico.

É por isso que herbicidas residuais passaram novamente a ocupar posição estratégica em sistemas intensivos de soja e milho.

Brasil já prioriza novos mecanismos de ação

Há outro elemento que ajuda a contextualizar a chegada da tecnologia.

O próprio Ministério da Agricultura mantém entre suas prioridades regulatórias o registro de herbicidas com mecanismo de ação ainda não registrado no Brasil para plantas daninhas consideradas críticas, incluindo Amaranthus palmeri, capim-amargoso (Digitaria insularis) e capim-pé-de-galinha (Eleusine indica), entre outras espécies.

Isso mostra que a escassez de novos mecanismos não é apenas uma preocupação comercial das fabricantes.

Ela se transformou em uma questão de sustentabilidade dos sistemas de produção.

O banco internacional de resistência mostra, por exemplo, que o Brasil já possui registros de resistência envolvendo espécies importantes como capim-pé-de-galinha, capim-amargoso, carurus e arroz-capim, inclusive casos envolvendo resistência a mais de um sítio de ação.

Para o produtor, o efeito aparece na forma de programas mais complexos, necessidade de aplicações sequenciais e menor margem para erros no momento de aplicação.

Tecnologia também será explorada pela Corteva

O desenvolvimento comercial do rimisoxafen também envolve outra gigante global de defensivos.

Em junho de 2026, FMC e Corteva anunciaram um acordo estratégico de fornecimento e licença coexclusiva para ampliar o acesso à tecnologia nos mercados de soja e milho da América do Norte e da América do Sul.

Pelo acordo, as duas empresas poderão desenvolver e comercializar suas próprias formulações baseadas na molécula, enquanto a FMC mantém a propriedade da tecnologia e fornece o ingrediente ativo à Corteva.

Isso indica que, caso as aprovações regulatórias avancem, o ingrediente poderá futuramente aparecer no mercado em diferentes formulações e estratégias comerciais, e não necessariamente associado a apenas uma marca.

Registro brasileiro é apenas o começo do processo

Há, entretanto, uma distinção fundamental.

Protocolar o dossiê não significa obter o registro.

O rimisoxafen ainda não está registrado para venda ou utilização no Brasil nem em outros países, segundo a própria FMC. A submissão brasileira é apenas a segunda realizada globalmente, depois do pedido apresentado à Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) em julho de 2026.

No Brasil, o processo envolve avaliações independentes dos órgãos federais responsáveis. O Ministério da Agricultura analisa, entre outros pontos, a eficiência e praticabilidade agronômica e concede o registro atendidas as exigências das áreas de saúde e meio ambiente.

Depois, ainda há o desenvolvimento e a tramitação regulatória das formulações comerciais.

A própria FMC informa que os pedidos das formulações contendo rimisoxafen deverão ocorrer à medida que o processo avance, e não estabeleceu uma data para chegada da tecnologia às propriedades brasileiras.

Portanto, ainda é cedo para falar em preço, dose comercial, recomendações definitivas de aplicação ou disponibilidade para determinada safra.

Mais importante que uma nova molécula é preservar sua vida útil

Se aprovado, o rimisoxafen poderá representar uma ferramenta adicional para o manejo da resistência. Mas sua chegada também reforça uma lição que o campo brasileiro aprendeu com outras tecnologias: uma molécula nova não substitui um programa de manejo.

O uso repetitivo de qualquer mecanismo exerce pressão de seleção sobre a população de plantas daninhas.

Por isso, novas ferramentas tendem a entregar maior valor quando inseridas em estratégias que envolvam rotação efetiva de mecanismos de ação, herbicidas residuais, aplicações na época correta, eliminação de escapes, limpeza de máquinas, redução do banco de sementes e, quando possível, práticas culturais e mecânicas complementares.

Essa talvez seja a principal importância da novidade para a agricultura brasileira.

O rimisoxafen não chega ao processo regulatório simplesmente para disputar espaço com moléculas existentes. Ele aparece em um momento em que preservar a eficiência dos herbicidas passou a ser tão importante quanto desenvolver novos produtos.

E, em uma agricultura que cultiva dezenas de milhões de hectares de soja e milho todos os anos, impedir que uma planta resistente produza sementes hoje pode ser tão decisivo quanto encontrar uma nova molécula para combatê-la amanhã.

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