Novo ciclo pecuário? Brasil reduz “fábrica de bezerros” e alta da reposição acende alerta

Abate elevado de fêmeas, oferta mais apertada de bezerros e pior relação de troca em quase cinco anos reforçam o alerta sobre a reposição e colocam a cria novamente no centro da pecuária brasileira

A valorização do bezerro começa a expor uma mudança importante na pecuária de corte brasileira. Enquanto o boi gordo também avançou, a reposição subiu mais, reduzindo o poder de compra do terminador e reacendendo a discussão sobre a capacidade do país de produzir bezerros nos próximos anos.

Na parcial de setembro, até o dia 22, foram necessárias 9,7 arrobas de boi gordo paulista para comprar um bezerro em Mato Grosso do Sul, segundo os indicadores Cepea/Esalq. É a pior relação de troca desde outubro de 2021, quando eram necessárias 10,27 arrobas.

Para o pecuarista de corte e fundador da comunidade Balcão do Boi, Lorenzo Junqueira, o movimento não deve ser analisado apenas como uma oscilação de preços.

“Enquanto os investimentos em recria intensiva e confinamento aumentam em ritmo acelerado, a atividade de cria não acompanhou esse crescimento. Isso limita a oferta de bezerros e amplia o desequilíbrio entre oferta e demanda por reposição”, afirma.

Pecuária ampliou a capacidade de engorda

Nos últimos anos, o Brasil avançou rapidamente em confinamento, recria intensiva, nutrição e eficiência produtiva. Com isso, cresceu a capacidade de levar mais animais ao peso de abate em menos tempo.

O avanço da cria, porém, não ocorreu necessariamente na mesma velocidade.

Segundo Lorenzo, parte dos produtores migrou para sistemas de recria e terminação em busca de maior giro de capital, enquanto o elevado abate de fêmeas também retirou potenciais matrizes do sistema produtivo.

“Muitos pecuaristas saíram da cria porque a recria e a engorda oferecem um giro de capital mais rápido. Ao mesmo tempo, tivemos um abate muito forte de novilhas e vacas”, destaca.

Em 2025, aproximadamente metade dos bovinos abatidos no Brasil foram fêmeas, em um dos maiores níveis já registrados.

O efeito dessa decisão aparece mais adiante. Diferentemente da terminação, a produção de bezerros exige retenção de novilhas, entrada das fêmeas em reprodução, gestação e posterior criação até a desmama.

Bezerro pressiona o poder de compra

O resultado já começa a aparecer na relação entre boi gordo e reposição.

De acordo com o Cepea, o bezerro acumulou valorização superior à do boi gordo entre setembro de 2025 e setembro de 2026.

Na prática, mesmo recebendo mais pelo animal terminado, o pecuarista precisa comprometer uma quantidade maior de arrobas para adquirir a reposição.

Essa conta tem impacto direto principalmente sobre sistemas que dependem da compra constante de animais para recria e engorda.

“O ágio do bezerro permanece elevado porque existe uma demanda forte por reposição. Se essa estrutura de recria e terminação continuar crescendo e a oferta não acompanhar, o preço do bezerro pode continuar pressionado”, avalia Lorenzo.

Mercado pode estar diante de mudança mais longa no ciclo pecuário

A pecuária tradicionalmente opera em ciclos. Períodos de maior descarte de fêmeas reduzem a produção futura de bezerros, enquanto preços mais elevados estimulam posteriormente a retenção de matrizes e a recomposição do rebanho.

Para Lorenzo, porém, o movimento atual pode ir além de uma alternância convencional de preços.

“Talvez não estejamos diante apenas de mais um ciclo pecuário tradicional. Existe a possibilidade de uma mudança mais estrutural, porque reconstruir um rebanho de matrizes é um processo demorado.”

Esse intervalo entre a decisão de reter uma fêmea e a efetiva entrada de novos bezerros no mercado limita a velocidade de reação da oferta.

É justamente por isso que o pecuarista chama atenção para a chamada “fábrica de bezerros”.

“Quem controla a fábrica de bezerros controla a principal matéria-prima da pecuária. Sem bezerro, não existe recria, confinamento ou boi terminado.”

Exemplo dos Estados Unidos

Lorenzo aponta os Estados Unidos como uma referência para entender os efeitos de uma oferta mais restrita.

Depois de anos de redução do rebanho bovino, o país convive com preços elevados para o gado. Ao mesmo tempo, produtores especializados em recria e terminação enfrentam custos altos para comprar animais.

“Nos Estados Unidos, quem compra o bezerro para engordar sente muito o peso da reposição. Já quem produz esse animal consegue capturar uma parcela maior da rentabilidade da cadeia.”

Embora os sistemas produtivos brasileiro e norte-americano tenham diferenças importantes, a lógica é semelhante: quando há muita capacidade de engorda e poucos animais disponíveis, aumenta a disputa pela reposição.

Cria pode ganhar protagonismo

Nesse ambiente, a cria volta a ocupar posição estratégica dentro da pecuária.

Taxa de prenhez, idade ao primeiro parto, intervalo entre partos, nutrição, genética e sobrevivência dos bezerros passam a ter impacto ainda maior sobre a rentabilidade da fazenda.

Para Lorenzo, investimentos em reprodução e melhoramento genético podem ganhar espaço justamente porque permitem aumentar a produção de bezerros sem depender apenas de expansão do número de matrizes.

“Cria, reprodução e genética podem representar algumas das decisões mais estratégicas dos próximos anos. Em um cenário de oferta restrita, quem produzir bezerros de qualidade terá um produto cada vez mais disputado.”

O Brasil continua com um dos maiores rebanhos bovinos comerciais do mundo. O alerta, portanto, não está em uma falta literal de vacas, mas no descompasso entre a velocidade de expansão da recria e da terminação e a capacidade de produzir animais de reposição.

Se esse desequilíbrio persistir, o bezerro pode se consolidar como um dos ativos mais valorizados da cadeia.

E a discussão sobre o próximo ciclo da pecuária brasileira começará cada vez menos na arroba e cada vez mais na cria.

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