Estudo com 54 sessões de ICSI relacionou a integridade do DNA de células que envolvem o óvulo à formação de blastocistos; resultado abre caminho para um teste de seleção e pode revelar quais éguas têm mais chance de produzir embriões, mas ainda exige validação
Na reprodução equina, obter óvulos maduros não garante a produção de embriões. Mesmo depois da injeção intracitoplasmática de espermatozoides, conhecida como ICSI, parte dos óvulos não chega ao estágio de blastocisto. Saber quais têm maior potencial de desenvolvimento poderia ajudar os laboratórios a entender melhor essa diferença e aperfeiçoar seus programas de produção embrionária.
Uma pesquisa recém-aceita pela revista Reproduction, Fertility and Development encontrou uma possível pista nas células do cúmulus, que envolvem o óvulo. Ao analisar 54 sessões de ICSI equina, os pesquisadores observaram que uma maior fragmentação do DNA dessas células esteve associada a menores taxas e menor número de blastocistos produzidos. Trata-se, por enquanto, de uma associação: o estudo não demonstrou que o exame consiga prever com segurança o destino de cada óvulo.
O que os pesquisadores mediram
Os complexos formados pelo óvulo e pelas células do cúmulus foram obtidos por aspiração folicular e submetidos à maturação em laboratório. Após a retirada das células que recobriam os óvulos, a equipe mediu nelas o índice de fragmentação do DNA por meio de um ensaio de dispersão da cromatina. Apenas óvulos maduros seguiram para a ICSI e o cultivo embrionário.
A proposta é relevante porque a análise utiliza células retiradas durante o preparo do óvulo, sem precisar examiná-lo de forma destrutiva. Se o indicador for confirmado em estudos maiores, poderá acrescentar uma informação sobre o potencial de desenvolvimento dos óvulos aos critérios já usados pelos laboratórios. Essa aplicação prática ainda é uma possibilidade, não um resultado clínico estabelecido.
Os resultados também delimitam o alcance da descoberta. O índice não apresentou associação com a taxa de maturação nem com a clivagem, a divisão inicial após a ICSI. A relação apareceu na etapa posterior: a formação de blastocistos, inclusive na produção observada no sétimo dia. O trabalho não encontrou associação significativa com a obtenção de blastocistos classificados como grau 1.
Por que isso interessa aos criadores
A produção de embriões por aspiração de óvulos e ICSI permite trabalhar com combinações genéticas planejadas, inclusive em programas que utilizam sêmen de reprodutores de alto valor. Para criadores e centrais, porém, o resultado que importa vai além da coleta: é preciso que o óvulo se desenvolva até formar um embrião apto a seguir no processo reprodutivo.
Nesse contexto, um indicador ligado à formação de blastocistos poderia ajudar a avaliar resultados de laboratório e orientar pesquisas para melhorar a eficiência. O estudo não fornece, contudo, um limite de fragmentação a partir do qual se possa aprovar ou descartar óvulos na rotina, nem comprova melhora nas taxas de gestação ou nascimento com o uso do teste. Os próprios autores afirmam que é necessária validação adicional antes da aplicação clínica rotineira.
A descoberta, portanto, aproxima a reprodução equina de uma pergunta importante: se as células que acompanham o óvulo podem revelar, antecipadamente, parte de sua capacidade de formar um embrião. A resposta inicial é promissora, mas ainda não transforma o exame em uma previsão individual confiável.
Quer ficar por dentro do agronegócio brasileiro e receber as principais notícias do setor em primeira mão? Para isso é só entrar em nosso grupo do WhatsApp (clique aqui) ou Telegram (clique aqui). Você também pode assinar nosso feed pelo Google Notícias.