Nova braquiária promete resolver um velho problema da ILPF: produzir pasto mesmo debaixo de árvores

OKAPI foi desenvolvida para sistemas com sombreamento e é indicada pela fabricante para áreas com até 50% de redução de luz; desempenho ainda depende de validações independentes em diferentes condições brasileiras

Produzir forragem sob árvores continua sendo um dos desafios da integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Com o crescimento do componente florestal, menos luz chega ao solo e a produtividade do pasto pode cair. É nesse cenário que a braquiária OKAPI, comercializada pela Papalotla, surge como uma nova alternativa para sistemas silvipastoris e áreas com sombreamento.

Identificado tecnicamente como CIATGP1005BR, o híbrido foi selecionado para suportar condições de menor luminosidade. A fabricante indica utilização em ambientes com até 50% de sombra, característica que pode interessar principalmente a propriedades onde o fechamento das copas começa a limitar a produção forrageira. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Sombra pode limitar a produção de pasto na ILPF

A presença de árvores pode trazer benefícios à pecuária, como conforto térmico aos animais e diversificação da renda da propriedade. Por outro lado, a redução excessiva da luminosidade interfere diretamente no desenvolvimento das gramíneas.

Estudo publicado na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira mostrou queda na produtividade do capim-braquiária em determinadas condições de sombreamento. A Embrapa também ressalta que não existe um percentual único de sombra adequado para todos os sistemas, já que o resultado depende da espécie forrageira, densidade e arquitetura das árvores, clima, solo e manejo.

Por isso, o equilíbrio entre produção florestal e formação do pasto é uma das decisões centrais em projetos de ILPF. Experimentos de longo prazo conduzidos pela Embrapa mostram que aumentar a quantidade de árvores pode elevar a produção de madeira, mas também intensificar a competição por luz, água e nutrientes.

O tema já apareceu em estudos sobre o desempenho de diferentes estratégias de ILPF no campo.

O que a OKAPI promete entregar

Segundo a ficha técnica da Papalotla, a OKAPI apresenta crescimento decumbente e foi selecionada especialmente para ambientes sombreados. A empresa informa potencial produtivo entre 30 e 40 toneladas de matéria seca por hectare ao ano, proteína bruta de até 18% e digestibilidade in vitro de até 68%.

Esses números, porém, devem ser interpretados com cautela. Eles são resultados apresentados pela própria desenvolvedora e não representam garantia de desempenho em qualquer propriedade.

A Papalotla também afirma que o híbrido pode produzir mais forragem que cultivares tradicionais quando submetido a forte sombreamento. Durante a apuração, entretanto, não foram encontrados estudos científicos independentes publicados que reproduzam integralmente essas comparações em diferentes regiões brasileiras.

Esse ponto é importante porque o comportamento de uma forrageira pode mudar significativamente conforme clima, fertilidade do solo, regime de chuvas, intensidade de pastejo e quantidade de luz disponível.

Tolerância à sombra não elimina necessidade de manejo

Mesmo uma cultivar desenvolvida para baixa luminosidade não elimina a necessidade de manejar corretamente as árvores.

Desrama, desbaste, espaçamento entre renques e orientação das linhas interferem na quantidade de radiação que chega à pastagem. Se o dossel ficar excessivamente fechado, até espécies mais tolerantes podem perder produtividade.

A própria recomendação comercial da OKAPI prevê manejo de altura. A indicação é colocar os animais no piquete quando o capim atingir cerca de 50 a 55 centímetros e retirá-los quando a pastagem estiver entre 20 e 25 centímetros.

Para implantação, a empresa recomenda 8 kg de sementes por hectare em formação convencional e de 4 a 6 kg/ha em integração lavoura-pecuária.

A escolha da forrageira, portanto, é apenas uma parte do sistema. O desenho da área, a população de árvores e o manejo do rebanho continuam determinantes para o resultado.

O que falta saber sobre a nova braquiária

Há evidências científicas de que algumas braquiárias apresentam melhor adaptação ao sombreamento do que outras. Pesquisas anteriores já demonstraram, por exemplo, respostas diferentes entre cultivares tradicionais submetidas à redução de luminosidade.

No caso específico da OKAPI, entretanto, ainda são especialmente importantes avaliações independentes que comparem o híbrido com materiais amplamente utilizados no Brasil e acompanhem indicadores como produção de matéria seca, persistência, capacidade de rebrota, taxa de lotação e ganho de peso por hectare.

Para o produtor interessado na tecnologia, uma alternativa prudente é começar por uma área menor e acompanhar os resultados ao longo das estações antes de ampliar o plantio.

A OKAPI acrescenta uma nova opção ao conjunto de forrageiras disponíveis para sistemas arborizados e mira um problema real da pecuária integrada. Seu potencial, contudo, deverá ser confirmado no campo conforme aumentarem os dados obtidos em diferentes solos, climas e modelos de ILPF.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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