Netuno da Lagoa Dourada vira fenômeno dos muares: 52 coberturas em uma única noite

Jumento pampa de marcha picada se transforma em um dos protagonistas do Leilão Obras de Arte, enquanto mercado de mulas e burros selecionados ganha força e valorização no Brasil; arrecadação das coberturas foi destinada à APAE de Campina Grande do Sul

O mercado brasileiro de muares está mudando de patamar. Animais que durante muito tempo estiveram associados principalmente ao trabalho nas propriedades rurais passaram a ocupar espaço de destaque em pistas, exposições, cavalgadas e leilões de genética selecionada. Nesse novo cenário, características como marcha, temperamento, conformação e pelagem ganharam peso — e um reprodutor começa a chamar atenção justamente por reunir vários desses atributos.

Seu nome é Netuno da Lagoa Dourada. O jumento pampa de marcha picada foi um dos grandes protagonistas do Leilão Obras de Arte do Rancho Alegria, realizado em Campina Grande do Sul, no Paraná. Em apenas uma noite, foram comercializadas impressionantes 52 coberturas do reprodutor, todas destinadas à produção de novos animais e com a arrecadação integral revertida à APAE do município.

Mais do que um número expressivo, as 52 coberturas ajudam a dimensionar a procura pela genética de Netuno. O interesse está diretamente relacionado ao que muitos criadores buscam atualmente na produção de muares de elite: animais funcionais, confortáveis, dóceis, bonitos e, cada vez mais, diferenciados também pela pelagem.

No caso de Netuno, existe ainda um componente que desperta enorme expectativa: a possibilidade de produzir mulas e burros pampas de marcha picada, combinação capaz de agregar valor tanto para criadores especializados quanto para compradores interessados em animais de sela, cavalgadas e lazer. É uma genética que passa a ser observada com atenção em um mercado cada vez mais seletivo.

Mulas durante a Nacional do Mangalarga
Foto: @puramarcha

O mercado de muares mudou — e está mais valorizado

O sucesso de Netuno não acontece isoladamente. Ele surge justamente em um momento de renovação do mercado brasileiro de muares. A velha imagem da mula restrita ao transporte de carga e ao serviço pesado vem dividindo espaço com animais selecionados geneticamente para marcha, comodidade, beleza, provas funcionais, cavalgadas e lazer, abrindo novas oportunidades comerciais para criadores.

Dados apresentados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) mostram que o país possui aproximadamente 6,8 milhões de equídeos, dos quais cerca de 990 mil são asininos e muares. A equideocultura movimenta uma extensa cadeia que vai muito além da criação dos animais, envolvendo genética, reprodução, biotecnologia, nutrição, serviços veterinários, transporte, esportes, eventos e fornecedores especializados.

No universo específico dos muares, os sinais dessa valorização aparecem principalmente nos eventos e leilões. No 5º Encontro de Muladeiros de Votuporanga, realizado em julho, foram reunidos mais de 230 animais, com recorde de julgamentos da Associação Brasileira dos Criadores de Jumento Pêga (ABCJPêga). O leilão realizado durante o encontro também dobrou de tamanho em relação ao ano anterior, passando de 16 para 32 animais ofertados.

Na ocasião, organizadores relataram que mulas diferenciadas na faixa de R$ 100 mil já aparecem com frequência no mercado, enquanto exemplares excepcionais podem superar esse patamar. Esse movimento ajuda a explicar por que a genética dos jumentos reprodutores voltou ao centro das atenções. Se o objetivo é produzir uma mula diferenciada, metade dessa equação genética vem justamente do asinino. Por isso, reprodutores capazes de imprimir andamento, conformação, temperamento e características raciais desejadas tornam-se ativos estratégicos dentro dos criatórios.

Mangalarga também ganha espaço na produção de mulas

Há ainda outro movimento importante nesse mercado: a aproximação entre criadores de Mangalarga e a produção de muares de alto padrão. Éguas selecionadas para funcionalidade, comodidade e qualidade de andamento oferecem uma base valorizada para cruzamentos com jumentos especializados. Na 48ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga, realizada em 2026, os muares ganharam inclusive uma apresentação especial, evidenciando a importância crescente desse segmento.

A produção deixou, portanto, de ser encarada apenas como um cruzamento ocasional. Nos criatórios especializados existe planejamento envolvendo escolha da égua, avaliação do jumento, andamento, temperamento, conformação e até a pelagem desejada para o futuro produto. É justamente nesse cenário que um jumento pampa e marchador como Netuno da Lagoa Dourada encontra terreno para ganhar espaço.

As 52 coberturas comercializadas no Leilão Obras de Arte podem agora espalhar sua genética por diferentes criatórios brasileiros. Na prática, são dezenas de novos projetos de acasalamento que poderão colocar seus primeiros resultados nas pistas, cavalgadas e leilões nos próximos anos.

E é justamente nos filhos que começa o verdadeiro teste de qualquer grande reprodutor. Se Netuno conseguir imprimir de maneira consistente suas características desejáveis nas futuras gerações, aquela noite no Rancho Alegria poderá ser lembrada como um ponto importante para sua consolidação na produção brasileira de muares.

Netuno da Lagoa Dourada vira fenomeno dos muares
Foto: Divulgação

52 coberturas que também viraram solidariedade

O feito ganhou significado ainda maior porque não se resumiu ao mercado. Toda a arrecadação obtida com as 52 coberturas de Netuno foi destinada à APAE de Campina Grande do Sul, fazendo com que uma das genéticas mais disputadas da noite também se transformasse em instrumento de solidariedade.

O Leilão Obras de Arte reuniu aproximadamente 300 pessoas presencialmente e chegou a superar 1.500 espectadores simultâneos nas transmissões digitais. Ao todo, foram apresentados 20 lotes, entre embriões, sêmen, garanhões, éguas e potros, em uma programação que procurou unir criação, arte e inclusão social.

Outras coberturas também integraram a iniciativa beneficente, entre elas as de Xavante VJC e Ouro do Gadu, animais premiados no Mangalarga. O primeiro exemplar oferecido com o sufixo “da Lilica”, Celeste da Lilica, também teve sua comercialização integralmente destinada à instituição.

Rancho Alegria: genética, Mangalarga e paixão pelos animais

Por trás dessa história está o Rancho Alegria, criatório localizado em Campina Grande do Sul, no Paraná, dedicado especialmente ao cavalo Mangalarga. O projeto trabalha com seleção genética direcionada à comodidade de sela, docilidade, funcionalidade e qualidade de marcha, construindo espaço dentro de uma raça historicamente muito concentrada em São Paulo e Minas Gerais.

Netuno da Lagoa Dourada - docilidade
Foto: Divulgação

Mesmo relativamente jovem diante de criatórios tradicionais, o Rancho Alegria ganhou projeção nacional. Em 2026, alcançou um de seus resultados mais importantes ao conquistar o título de Grande Campeão Nacional de Marcha e de Morfologia, consolidando o trabalho de seleção realizado no Paraná.

O criatório também procura aproximar a criação de cavalos de conceitos como família, arte, sustentabilidade e inclusão. Essa filosofia esteve presente no próprio Leilão Obras de Arte, que reuniu cavalos, genética, esculturas, música e ações sociais em torno de uma mesma proposta.

Um nome para acompanhar na produção de muares

Dentro de um mercado de muares que se profissionaliza e começa a pagar cada vez mais por genética diferenciada, Netuno da Lagoa Dourada surge como um nome para acompanhar de perto. Marcha picada, pelagem pampa e a expectativa de transmitir características valorizadas aos descendentes formam uma combinação especialmente atraente para quem busca produzir mulas e burros diferenciados.

Agora serão seus futuros filhos que determinarão até onde essa história poderá chegar. O primeiro grande recado, entretanto, já foi dado: 52 coberturas em uma única noite. São dezenas de apostas em uma mesma genética e a possibilidade de uma nova geração de muares carregando o sangue de Netuno pelos criatórios brasileiros.

Uma noite para celebrar um reprodutor que começa a ganhar protagonismo. Uma genética para acompanhar — e uma história que parece estar apenas começando.

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