Mulas viram novo ouro do Mangalarga e movimentam mercado milionário no Brasil

Apresentação especial durante a 48ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga mostrou como as éguas da raça se tornaram peça-chave na produção das mulas mais valorizados do país, impulsionando um mercado que cresce ano após ano.

Durante décadas, os muares eram vistos apenas como consequência do cruzamento entre jumentos e éguas. Hoje, a realidade é completamente diferente. As mulas se transformaram em um dos segmentos mais valorizados da equinocultura nacional, movimentando cifras expressivas e abrindo uma importante alternativa econômica para criadores. E um dado resume bem esse protagonismo: mais de 50% das mulas produzidas no Brasil são oriundas de éguas da raça Mangalarga.

Foi justamente para evidenciar essa importância que a 48ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga abriu espaço para uma apresentação especial dedicada aos muares, mostrando aos criadores que o futuro econômico da raça passa também pela produção de animais destinados ao mercado de sela, cavalgadas, provas esportivas e lazer.

Mais do que uma demonstração em pista, a apresentação deixou claro que os muares deixaram de ser um produto secundário para se tornarem uma atividade altamente rentável dentro das propriedades, agregando valor às matrizes Mangalarga e criando novas oportunidades de negócio para os selecionadores.

Um mercado que vende tudo o que produz

Entre os exemplos apresentados está o trabalho desenvolvido por Thiago Luiz, do Haras MH, em Vargem Grande do Sul (SP), um dos maiores produtores de muares do país.

Segundo ele, aproximadamente 80% da produção do haras utiliza éguas Mangalarga como matrizes, resultado de uma combinação que entrega animais leves, marchados, dóceis e muito valorizados pelo mercado.

“A gente usa muitas éguas Mangalarga, que dão um animal da frente mais leve e colocam marcha. Hoje produzimos entre 150 e 180 animais por ano, praticamente todos destinados à venda direta.”

Na reprodução, Thiago utiliza reprodutores consagrados como os jumentos Tesouro do Sandrini, Diplomata do Barro Preto e Morro Vermelho, responsáveis por transmitir características altamente desejadas pelos compradores.

O reflexo aparece nas vendas. Segundo o criador, praticamente tudo o que é produzido encontra comprador rapidamente, demonstrando o forte aquecimento do mercado nacional de muares.

Lucas Fumacinha com Ricardo Fabricio
Lucas e Ricardo Fabrício / Foto: @puramarcha

Animais valorizados e com preços cada vez maiores

Durante a apresentação na Nacional, especialistas mostraram que uma mula de alta qualidade atualmente dificilmente é comercializada por menos de R$ 40 mil.

Dependendo do treinamento, genética e aptidão para sela, cavalgadas ou provas esportivas, os valores podem superar facilmente a casa dos R$ 150 mil, chegando próximo dos R$ 200 mil em negociações específicas.

Outro ponto que chamou atenção foi a valorização dos machos.

Enquanto em muitas raças equinas potros comuns encontram dificuldades para alcançar preços elevados, um burro oriundo de matrizes Mangalarga pode ser comercializado entre R$ 10 mil e R$ 15 mil, enquanto exemplares diferenciados chegam a ultrapassar os R$ 40 mil.

Uma conquista construída ao longo de anos

Esse reconhecimento, porém, não aconteceu da noite para o dia. Um dos maiores defensores da presença dos muares na Nacional do Mangalarga é Silvio Parisi, do CT Rancho Bigorna.

Segundo ele, durante muitos anos existia uma grande resistência para que os muares participassem oficialmente da principal exposição da raça. “A gente sempre quis mostrar os produtos das éguas Mangalarga. Sempre se falava apenas do jumento, mas ninguém lembrava da mãe. A égua ficava escondida nessa história.”

Silvio relembra que a luta foi longa até que, em 2021, os muares fizeram sua primeira apresentação oficial durante uma Exposição Nacional. “No começo enfrentamos muita resistência. Até que conseguimos trazer os muares para dentro da Nacional. Foi fantástico. Desde então, a presença deles só cresce.”

Na avaliação dele, a valorização econômica foi decisiva para mudar a percepção de muitos criadores.

“Não é apenas paixão pelos muares. É agregar valor ao Mangalarga. Muitas vezes é difícil vender um potrinho por dois ou três mil reais. Já uma mula encontra comprador com facilidade. O muar está presente no Brasil inteiro e abre um mercado enorme para os criadores.”

Mulas durante a Nacional do Mangalarga
Apresentação de Muares filhos de Éguas Mangalarga / Foto: @puramarcha

Dalva Marques: uma das grandes incentivadoras

Silvio fez questão de reconhecer o papel da jurada de provas de marcha Dalva Marques, considerada uma das principais responsáveis pela inserção definitiva dos muares dentro da Nacional.

Segundo ele, Dalva acreditou no projeto quando poucos enxergavam seu potencial.

Durante o evento, a jurada agradeceu o apoio recebido ao longo dessa caminhada.

“Quero agradecer a oportunidade e a todos os mangalarguistas que acreditaram nesse projeto. Há mais de uma década defendemos essa ideia. No começo houve rejeição, mas sempre percebemos nas pistas o destaque da raça na produção de muares.”

Hoje, a participação dos muares já é vista como uma das atrações mais aguardadas da Nacional.

Mulas durante a Nacional do Mangalarga
Foto: @puramarcha

O diferencial está nas éguas Mangalarga

A apresentação técnica realizada durante o evento também mostrou por que as matrizes Mangalarga conquistaram tamanho prestígio na produção de muares.

Especialistas destacaram animais com frente leve, pescoço refinado, cabeça seca, excelente temperamento e grande facilidade de adaptação.

Além da beleza, a funcionalidade chamou atenção.

Segundo os comentaristas da apresentação, aproximadamente 80% das mulas que atualmente conquistam os principais resultados nas provas de marcha são filhas de éguas Mangalarga, evidenciando a influência genética da raça.

Também foi ressaltado que essas características tornam os animais extremamente procurados para cavalgadas, turismo rural, trabalho, sela e lazer, segmentos que continuam crescendo em diversas regiões do país.

O Mangalarga descobre uma nova fonte de receita

A presença dos muares na 48ª Exposição Nacional mostrou que a atividade deixou de ser apenas complementar dentro dos criatórios.

Para muitos produtores, ela já representa uma das principais fontes de receita anual.

Ao valorizar as matrizes Mangalarga, ampliar o mercado consumidor e agregar renda ao criador, a produção de muares tornou-se uma importante estratégia econômica para a raça.

O resultado aparece dentro e fora das pistas: animais cada vez mais valorizados, leilões aquecidos, demanda superior à oferta e criadores encontrando uma alternativa capaz de transformar éguas de alta qualidade em produtos de grande aceitação comercial.

Mais do que uma tendência, a força dos muares apresentada na Nacional do Mangalarga indica que esse mercado ainda possui amplo espaço para crescer, consolidando as éguas Mangalarga como protagonistas de uma cadeia produtiva que movimenta milhões de reais todos os anos.

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