O que a perda de até 400 mil tilápias no Norte do Paraná ensina sobre plano de contingência na piscicultura
Cerca de 23 horas sem energia bastaram para transformar meses de trabalho em uma das maiores perdas já registradas na piscicultura paranaense. Entre os dias 29 e 30 de setembro, a Mais Fish, empresa da família Pini em São João do Ivaí, viu morrer entre 300 e 400 mil tilápias prontas para o abate.
Não se trata de um produtor iniciante nem de uma estrutura improvisada. É uma operação com mais de 30 anos de atividade, cerca de 150 aeradores, gerador de grande porte e agroindústria própria. E é justamente por isso que o caso merece a atenção de todo produtor, seja ele grande, médio ou pequeno.
O que aconteceu
A energia caiu na tarde de terça-feira (29) e só voltou na tarde de quarta-feira (30). Sem os aeradores, o oxigênio dissolvido despencou e peixes de 15 tanques morreram. Eram tilápias de 600 a 800 gramas, que abasteceriam a agroindústria da família pelos seis meses seguintes.
A Copel atribuiu a interrupção a danos na rede após fortes chuvas e ventos. A companhia informou 385 ocorrências na rede de distribuição, 42 postes quebrados e local de difícil acesso, com cinco equipes mobilizadas na área rural.
Antes do apagão, a rede já vinha instável. Segundo o produtor, em uma única noite foram 14 picos de energia, com quase 200 equipamentos operando na propriedade. A cada pico, o gerador de 450 kVA entrava e saía, como manda a programação automática.
As estimativas de prejuízo é de 2 a mais de R$ 5 milhões. Em qualquer cenário, o impacto é enorme para uma operação familiar.
Por que a engorda final morre primeiro
O dado mais revelador do caso é este: nos tanques de peixes menores, de menor biomassa, as perdas foram menores. Nos tanques de engorda final, a perda foi praticamente total.
Isso tem explicação técnica direta. O consumo de oxigênio de um viveiro acompanha a biomassa estocada. Um tanque com peixes perto do peso de abate concentra a maior carga de animais por metro cúbico de todo o ciclo, além da matéria orgânica acumulada de meses de arraçoamento.
Nesse cenário, a margem de segurança é mínima. Em viveiros de alta densidade, o oxigênio dissolvido pode chegar a níveis letais em poucas horas sem aeração, principalmente à noite, quando o fitoplâncton deixa de produzir oxigênio e passa a consumi-lo.
Resumindo: o lote mais valioso da propriedade é também o mais vulnerável. Quanto mais perto da despesca, maior o prejuízo por hora de falha.
O relato do produtor: tinha plano A, B e apoio
Nas redes, muita gente reagiu com a mesma pergunta: “mas não tinha gerador?”. Tinha. Em conversa comigo, o proprietário detalhou a estrutura de contingência da propriedade:
Nível Recurso Plano A Energia da distribuidora (Copel) Plano B Gerador de 450 kVA Apoio Meia tonelada de peróxido para oxigenação Apoio Três motobombas de grande porte a diesel
Com tudo isso em ação, segundo ele, foi possível salvar cerca de metade dos peixes alojados. A outra metade se perdeu.
A causa raiz, na avaliação do produtor, não foi a falta de gerador. Geradores modernos de grande porte são automatizados, com painéis e circuitos eletrônicos de comando. Com a sequência de picos, o gerador entrou e saiu repetidas vezes, até que o sistema eletrônico de comando entrou em colapso.
O produtor também aponta a distribuidora. Ele afirma que a qualidade do fornecimento vem caindo nos últimos anos, que outros piscicultores paranaenses enfrentam o mesmo problema e que, como cliente do Grupo A, a recomposição naquelas condições deveria levar de 3 a 5 horas, e não 23. É uma crítica legítima: a instabilidade da rede no campo é um risco real, que o produtor não controla.
Os ensinamentos para o piscicultor brasileiro
O caso mostra que ter gerador não é o mesmo que ter um sistema de contingência à prova de falhas. Se uma operação estruturada como essa foi atingida, nenhum de nós está imune. Estas são as lições que eu levo para a minha mentoria e que recomendo a todo produtor:
- Proteja o comando do gerador, não só o motor. Converse com seu eletricista sobre o quadro de transferência: ele pode ser programado com retardo de retorno, para que o gerador só devolva a carga à rede depois que ela estiver estável por um bom tempo. Em noite de temporal, vale até travar a operação no gerador. Protetores de surto e nobreak no painel de comando reduzem o risco de pane eletrônica.
- Tenha redundância de verdade. Um único gerador é um ponto único de falha. Um segundo gerador, mesmo menor, dedicado aos tanques de engorda final, ou aeradores acionados por trator, garantem uma saída se o principal parar.
- Defina a prioridade de carga antes da emergência. O lote mais perto do abate tem a maior biomassa, o maior consumo de oxigênio e o maior valor. Ele vem primeiro.
- Dimensione o apoio para o pior cenário. Peróxido e motobombas ajudam, mas dificilmente seguram sozinhos um viveiro de engorda final por 20 horas. Calcule quantas horas cada recurso realmente sustenta.
- Use o manejo a seu favor. Ao primeiro sinal de falha, suspenda o arraçoamento. Com previsão de temporal forte, avalie antecipar a despesca dos lotes prontos.
- Monitore e seja avisado. Sensores de oxigênio dissolvido e de queda de energia, com alarme no celular, ganham horas preciosas de madrugada.
- Trate a energia como insumo estratégico. Conheça seu enquadramento junto à distribuidora, registre o protocolo de cada interrupção e guarde as evidências. Cobranças feitas em grupo, por associações e cooperativas, têm mais força.
- Transfira o risco que sobra. Quando todas as barreiras falham, o seguro é o que separa um prejuízo de uma quebra.
Existe seguro para a safra de peixes?
Sim. O seguro aquícola existe no Brasil e faz parte do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), do Ministério da Agricultura, que paga parte do valor do prêmio. O Mapa credenciou a primeira seguradora para aquicultura em 2009, e o ministério já ofereceu subvenção diferenciada de 40% para a modalidade, com foco em produtores de médio e grande porte.
O cenário melhorou em 2026: a Lei 15.526/2026 tornou a subvenção do seguro rural despesa obrigatória, protegida de cortes no orçamento.
A oferta ainda é pequena, com poucas seguradoras habilitadas. Antes de contratar, o produtor precisa conferir três pontos:
- Se a apólice cobre mortalidade por falta de oxigênio e por queda de energia, e não só eventos climáticos ou doenças.
- Quais são as exclusões e a franquia.
- Que registros a seguradora exige para comprovar o sinistro: biomassa por tanque, mortalidade e parâmetros de água.
Quem já tem escrituração zootécnica organizada sai na frente, porque é ela que comprova o que existia dentro de cada tanque.
Alta performance também é saber perder pouco
Na piscicultura, o risco quase nunca avisa antes de chegar. Produzir bem não é só ganhar peso e converter ração: é garantir que aquilo que foi produzido chegue até o frigorífico.
A família Pini construiu uma operação que é referência no Paraná, e o que aconteceu com ela pode acontecer com qualquer um de nós. A diferença entre atravessar uma emergência ou perder a safra está no plano feito antes, na calma, e não na correria da madrugada.
E você, produtor: qual é o plano de contingência de energia e oxigênio da sua propriedade?
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Fontes: G1 Notícias, Canal HP, relato do proprietário à autora, Ministério da Agricultura e Sistema FAEP.
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